Viola Spolin e os Jogos Teatrais
Juliana Andrade
em 16 de Outubro de 2014

 A Função Social do Jogo Através da Abordagem Desenvolvida por Viola Spolin.

Mais que um método para atores e também para o ensino de teatro para crianças, o trabalho de Spolin pode ser considerado altamente social. Nascida em 1906, em Chicago, Viola Spolin foi uma das pioneiras do teatro improvisacional, influenciando até hoje diversas companhias. Seu trabalho foi diretamente influenciado por Neva Boyd[1], de quem foi aluna em 1924 e depois como supervisora no Recreacional Project, em Chicago. As experiências com Neva foram fundamentais para a concepção do sistema de Jogos Teatrais que criaria futuramente.

 Boyd trabalhava com o treinamento de educadores e assistentes sociais com o objetivo de integrar socialmente imigrantes que chegavam aosEstados Unidos. Em 1938, Spolin assume a supervisão de teatro no Works Progress Administration’s Recreational Project (WPA), que buscava combater a recessão econômica e seus efeitos por meio de aulas de arte e artesanato para trabalhadores. Foi neste trabalho que Spolin percebeu a necessidade de um sistema de treinamento teatral que fosse de fácil entendimento e que pudesse superar as barreiras culturais e étnicas. Baseada no treinamento com Neva Boyd, ela desenvolveu novos jogos teatrais.

O sistema de Jogos Teatrais desenvolvido por Viola é estendido até hoje a um número cada vez maior de áreas de conhecimento e ações sociais, sendo utilizados tanto para a formação de atores (amadores e profissionais), quanto na educação de crianças e adolescentes, em escolas e instituições sociais, programas voltados para saúde mental e centros de reabilitação. De acordo com Spolin:

     A maioria dos jogos é altamente social e propõe um problema que deve ser solucionado – um ponto objetivo com o qual cada indivíduo se envolve e interage na busca de atingi-lo. Muitas habilidades aprendidas por meio do jogo são sociais. (SPOLIN, 2010).

Assim, Viola Spolin justifica e reafirma o caráter social que os jogos podem ter, passando a ser não apenas um método para atores, mas um facilitador para a integração social e para o desenvolvimento do trabalho em grupo.

E como utilizá-los a favor desse desenvolvimento coletivo? Em uma realidade altamente individualista e segregacionista, o teatro alimenta outros valores e se esforça em manter viva a importância do trabalho coletivo. O Método Spolin pretende desenvolver a autonomia dos “jogadores” e a atitude de colaboração entre o grupo.

A estrutura dos jogos é simples e baseia-se na resolução de problemas. O problema é o objetivo do jogo e todas as regras são criadas com foco nesse objetivo/problema. Essas regras incluem a estrutura dramática, Onde / Quem / O que, o foco, o acordo do grupo, as instruções e a avaliação. O onde diz respeito ao ambiente ou cenário, trazendo a noção de localização; o quem está ligado ao personagem ou relacionamento, trazendo ao jogador a relação com os eventos cotidianos; e o que está ligado diretamente à ação, ou seja, as interações do jogador e os objetivos a serem executados.

O foco não é o objetivo do jogo. Ele está mais ligado a energia canalizada e direcionada ao objetivo. Quando todos os jogadores conseguem manter o foco no objetivo as soluções práticas para o problema começam a surgir, assim como uma cumplicidade entre os jogadores que assumem juntos a responsabilidade da solução.

Quem “lidera” o jogo entra como facilitador/orientador, tornando-o assim parceiro dos jogadores. É ele que encoraja os jogadores a manterem o foco no objetivo, que os relembra dos acordos estabelecidos pelo grupo, orienta sobre os problemas a serem solucionados e questiona o que está acontecendo no momento do jogo. O instrutor não comanda o jogo, e sim orienta, travando assim uma postura mais horizontal dentro do grupo, eliminando o papel de liderança e dando mais autonomia aos jogadores. Acordos são feitos entre o grupo antes de começarem a jogar para que as regras fiquem claras e pré-estabelecidas.

É importante ressaltar que as regras existem, mas não como limitantes e sim como condutoras do trabalho. A regra serve para manter o jogador dentro do jogo, mas também para relembra-lo e conduzi-lo ao seu objetivo. Contanto que se faça o que foi proposto no jogo, ou seja, solucionem os problemas propostos (objetivo), os jogadores podem fazer o que quiserem, estão livres para criar situações.

O esquema de instrução, no lugar de uma liderança hierárquica, possibilita a autoaprendizagem, fazendo com que o jogador adquira um estado de independência. Se pegarmos o exemplo do “café-com-leite[2]”, que não participa para valer da brincadeira, mas, observando as outras crianças brincarem e tentando entender aos poucos (na própria brincadeira) as regras do jogo, logo aprende a brincar também, de uma maneira mais autônoma, sem que precisem necessariamente explicar regra por regra, podemos entender um pouco mais sobre essa autonomia adquirida com o jogo teatral. O jogo fica mais claro quando se começa a jogar.

Outro importante fator do método criado por Viola é a avaliação. A avaliação pelo método Spolin deve ser sempre construtiva e baseada em indicações, nunca em criticas, julgamentos ou depreciação. A autora indica que essa avaliação se faça por meio de questionamentos, fazendo com que o próprio jogador, ao responder os questionamentos, perceba os pontos a serem melhorados e os autoavalie. O instrutor não deve nunca expor o jogador de maneira negativa, e sim encoraja-lo a entender os próprios deslizes e a buscar melhores maneiras de resolver a situação.

O jogo teatral também colabora para superação de atitudes mecânicas, uma vez que parte do pressuposto da espontaneidade.

 Os Jogos Teatrais de Spolin, são artifícios contra a artificialidade; estruturas criadas para despertar a espontaneidade – ou talvez uma estrutura cuidadosamente construída para isolar subjetividade. Importante no jogo é a bola – o foco, um problema a ser solucionado, às vezes, um duplo problema que mantem a mente (um mecanismo de censura) tão ocupada, friccionando seu estomago e o topo de sua cabeça em direções opostas, por assim dizer, que o gênio (espontaneidade) acontece sem querer. (TUNG, in Film Quaterly apud SPOLIN, 2010)

 

 O sistema de jogos teatrais formulado por Spolin traz estímulos corporais e intelectuais à quem joga. No jogo podemos superar desafios, libertar-nos das regras impostas pela sociedade, criar maneiras diferentes para romper limites, dar asas á imaginação e se entregar ao novo. O jogo sociabiliza, uma vez que, se precisa do outro, do coletivo para fazer-se completo. 

 

 

[1] Neva Boyd (1876 – 1963) foi uma importante educadora social norte americana, fundadora da Escola de Recreação e Treinamento (Recreational Training School) em Chicago, onde desenvolvia um programa de trabalho de grupo com imigrantes, aplicando ginástica, dança, jogos e arte dramática.

[2] Expressão linguística usada para designar a pessoa que participa de uma ação com neutralidade. Esse termo foi utilizado por Renata Meireles em seu livro Giramundo para exemplificar a importância da autoaprendizagem bem típica nas brincadeiras tradicionais da infância, onde o “café com leite” aprende observando, de dentro do jogo, uma rodada, para que depois, já entendendo as regras sem que ninguém precise explicar, ele possa jogar sem neutralidade.

 

 

 

REFERÊNCIA

SPOLIN, Viola. Jogos Teatrais na Sala de Aula: um manual para o professor. São Paulo: Perspectiva, 2010.

 

Juliana Andrade

Ribeirão Preto / SP
Especialização: Educação Contemporânea (Centro Universitário Moura Lacerda)
Atriz, bailarina e arte educadora. Iniciou suas atividades em teatro e dança aos 10 anos de idade. Participou de cursos e oficinas com nomes como os de Hugo Possolo, Gilsamara Moura, Elder Rocha, Tiche Vianna, Cia.Fora do Sério, Cia. Pequod, entre outras, onde pode vivenciar um pouco mais das diversas áreas da dança e do teatro. Cursou escola técnica em atuação no CIAC/Recriarte em São Paulo. Participou como atriz de 13 peças (entre infantis, teatro amador e profissional), um curta metragem ...
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