A doença da decomposição

as análises infindáveis da filosofia

Economia Ensino superior Introdução à Economia Curso superior existencialismo
A doença da decomposição
Cídio Lopes de Almeida
em 12 de Junho de 2018

 

 

A capacidade de analisar que uma formação em filosofia ou nos demais cursos de ciências sociais e humanas nos dão, considerando a nós formados, pode, infelizmente, ter efeito perverso na vida de seus cultores, dos bacharéis e licenciados nessas áreas.

 

Esse gosto que é decompor realidades complexas, explicar quais são suas causas, desvendar as ideologias, denunciar os meios de comunicação que contam versões dos fatos que não coincidem com os mesmos fatos percebidos pela maioria, etc… tudo isso dá uma sensação de poder fantástica. Ao menos em um primeiro momento.

 

Porém, tal postura de investigação do real cria duas situações. A primeira me parece igual ao paradoxo de “Aquiles”, ideia levada a cabo por Zenão, na qual o hábil corredor e herói grego nunca sairia de um ponto A e chegaria ao ponto B, pois ele teria que percorrer o ponto médio entre A e B. E assim o paradoxo nos leva a se perguntar pela metade, até o infinito. O que impediria de Aquiles chegar ao ponto B.

 

O excesso de análise que tais conhecimentos acadêmicos nos propiciam, que é fruto de uma forma específica de dispor o currículo, pode causar em nós, bacharéis, a mesma paralisia ou problemática de Aquiles. Não agimos, pois temos sempre que fazer uma análise; a coisa mais prática que se faz é publicar uma análise.

 

O segundo efeito do processo de excessiva análise é o desencantamento do real. Movimento notado por Max Weber sobre os efeitos da ascensão de um conhecimento técnico e de dominação da realidade.  O saber que nos importa a nós modernos é o saber que seja útil. E em nossos dias, de capitalismo ao extremo, o saber mais importante é o que “dá dinheiro”.  Ora, nesse contexto, os analistas tendem a não encontrar motivos para agir no real. O que gera uma paralisia por tédio.

 

Quero lembrar sobre essa inação o filósofo Nietzsche e uma citação de sua obra "O nascimento da tragédia". Nela o autor cita dois tipos de não ação. Uma de Hamlet e uma outra de um tal “João bobo”. Contudo o filósofo do grande bigode faz uma distinção dessas duas não-ação. Hamlet, a personagem de Shakespeare, não age por ter visto a natureza desoladora das coisas, digamos que ele experimentou e só depois decidiu não mais experimentar ou agir. Ao contrário, o João bobo não age por se ver imobilizado diante tantas possibilidades, que ele acredita serem todas suculentas.

 

Hoje em dia temos esses dois modelos. O artista trágico, Hamlet, somos todos nós com formação nessas áreas “inúteis”, pois pela análise percebemos o vazio da sociedade técnica. Não vemos encantos nas planilhas; não sentimos que seja um projeto humano decente de se contentar com as ilusões e ideologias disseminadas. Portanto, nosso real é sem encanto, é destituído de todo sentido ordinariamente dado, pois todos eles são ideologias dos meios dominantes. Agir é se submeter a tais falsidades, é pagar tributo para o grande capital.

 

Doutro lado temos outro tipo de não ação, que é a inação das massas de consumo. Paralisada diante das promessas do último “iPhone”(ou qualquer outro brinquedinho eletrônico), das miríades de consumo; paralisada para pagar os juros de cartão de crédito (que tem média de 400% ao ano; mas que em alguns casos chega a 700%; tudo isso naquelas eternas prestações…)

 

Assim, é preciso retomar aquele ímpeto do movimento filosófico em solo alemão denominado de Romantismo ou de “ímpeto e tempestade”. É preciso fazer o que o autor Tieck nos indica, “tornar estranho o comum”. Reconhecer o papel secundária da razão, a exemplo de Schopenhauer e Nietzsche, mas isso é outra história, i.é. muito difícil levar uma vida irracional, da mesma forma que a cultura da paz de Gandhi não é mero aceitar as agressões de cabeça baixa. Precisamos de outra escola, pois não é mero contrário, pois as massas já vivem em uma irracionalidade e já sabemos quais são os efeitos. O caminho é outro, ideia que pretendo apresentar em outro texto.

 

 

 

 

 

 

São Paulo / SP

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Graduação: Teologia (Faculdade Vicentina )
Mestre em Filosofia, com destacada carreira na área educacional, atuando como Professor das áreas de Filosofia e Ensino Religioso para a Educação Básica e Ensino Superior. Na Educação Básica, desenvolve aulas expositivas, utilizando recursos visuais que facilitem a assimilação do conteúdo, como: desenhos, esquemas, características, arquitetura e cores que remetem ao momento histórico estudado, traçando linhas cronológicas a fim de auxiliar a organização das ideias explanadas. Estimula a parti ...
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