Profissão de Filósofo
Cídio Lopes de Almeida
em 11 de Junho de 2018

 

 

A Filosofia como campo do saber humano já existem a aproximadamente 2500 anos. Sócrates, Platão e Aristóteles deixaram suas ideias na Grécia do século V a.d.c (a.C.) e até hoje são lembrados, estudados, debatidos, negados, aceitos, etc. Contudo, parece-nos que pela primeira vez na história esse campo do saber será uma profissão.

 

Até o presente bastava ter escrito uma obra filosófica para ser filósofo. Mesmo com cursos regulares de Filosofia, prática já adotada pelos pré-socráticos ou na Academia fundada por Platão, nunca houve uma profissão de Filósofo.

 

O Filósofo ao longo dessa longa história fazia qualquer coisa para ter como comer, beber e morar. Alguns foram professores particular ou preceptor. Outros eram comerciantes, políticos. Herdeiros de fortunas.

 

Na modernidade esse quadro mudou um pouco e o filósofo passou a ser encontrado com frequência na função de professor de Filosofia. Kant e Hegel eram professores e depois deles tornou-se comum para quem estudava Filosofia ser professor de Filosofia. Atividade que em geral não apraz muito, pois com os efeitos da Revolução Francesa na educação a burocracia e a reprodução foram traços cada vez mais fortes nesse labor. Ensinar o já pensado não atrai os livres pensadores.

 

Nos dias de hoje quem passa 4 ou 3 anos em um curso de Filosofia só tem uma possibilidade: ser professor de Filosofia. Em geral todos odeiam essa possibilidade e sonha em entrar no minúsculo espaço do pesquisador em Filosofia. Poderíamos dizer então que a vida de quem estuda Filosofia é o desemprego certo ou as odiáveis aulas de Filosofia no ensino médio.

 

Fora esses dois lugares não há lugar formal para quem passou 4 a 3 anos estudando Filosofia. Tudo o mais será sempre um arranjo.

 

O que nos leva a pensar que Filosofia seja algo que vive de si. Ora, alguém que se forma em filosofia só pode ensinar Filosofia. Enquanto ensino, Filosofia só serve enquanto Filosofia, mesmo quando se ensina Filosofia do Direito, trata-se de Filosofia ou de Direito?

 

Esse comer a si próprio faz com que a Filosofia seja algo bonito, mas que ninguém em sã consciência aconselhe o seu filho de classe média a estudá-la.  Alguns até permitem essa estranheza, mas exige do filho que estude Direito pela manhã e Filosofia a noite. Jamais só Filosofia.

 

Outro campo de ação da Filosofia é sua contribuição para todos os demais campo do saber. Filosofia da Matemática ou Lógica pode ser uma matéria do curso de matemática. Filosofia da Linguagem pode ter boas relações  com a psicanálise, ética com medicina. Porém, essas aproximações sempre são desiguais para o Filósofo que fez “apenas um curso de Filosofia”. Em última análise um médico se sentirá melhor preparado do que um Filósofo para dizer o que é correto no seu fazer. Enfim, “ele é médico”.....

 

O último bastião do Filósofo que era o de ser professor também assiste esvaziamento. Nas escolas privadas que retomaram o ensino de Filosofia sempre será mais justificável ter como professor dessa matéria alguém que possua outra formação além da mera Filosofia. Assim, um advogado ou bacharel em Direito que possua formação em Filosofia será preterido, pois o importante para a classe média que paga um dos sistemas privados mais caros do mundo é que seu filho não seja picado pela mosca do pensamento filosófico e ouse pensar que seja possível fazer um cursos desse tipo.

 

O profissional que faz uma Faculdade de Filosofia e não tem uma profissão, está costumado com a brincadeira de que ele é o único que já sabe de seu desemprego no final do curso. Vantagem competitiva que temos sobre os Bacharéis de Direito, formado aos milhares a cada semestre o que faz o Brasil ter mais Faculdade de Direito do que a Europa.

 

O nível de cima

 

 Outra opção par o formado em Filosofia é entrar pela porta estreitíssima do mestrado e doutorado em Filosofia. O que o faz ser um “profissional estudante”, pois seu trabalho consiste em estudar, fazer provas, apresentar trabalho, etc. Mas todos se consideram profissionais, mesmo que morando dentro do campus e com uma apertada “bolsa” de “estudos”.

 

Nesse nível há outros dilemas. Os super-filósofos só terão um lugar para exercitar seus saberes elevados: o ensino privado ou público. Em geral o público tem assistido uma super-ultra-extra-plus qualificação. Algumas renomadas instituições só contratam quem já esteja no pós-doutoramento no exterior, no Brasil não vale. (Unicamp). Exterior é tido como qualidade para pensamento colonizado.

 

Nessas “ilhas de excelência” há um problema. Espera-se que o candidato ao curso de Filosofia seja classe média, oriundo de uma escola privada. Que saiba escrever bem, preferencialmente muito bem, já saiba dois idiomas, inglês e francês, mas se for alemão, já está com entrada garantida no mestrado.

 

Porém, como registrado no primeiro tópico, o filho da classe média que opta por Filosofia é sinal de que algo não vai bem ou que esse candidato será um aluno dividido entre o Direito e a Filosofia, portanto não será o super-aluno que se espera nos cursos de elite da Filosofia. Se ele for só para a filosofia já será sinal que não se trata de um super-aluno.

 

Esse é o dilema não só da Filosofia, mas das ciências de base no Brasil e penso que em qualquer país industrializado. O filho da classes média quer ser engenheiro e não matemático, pois o bem estar que ele goza deriva da engenharia e não do bacharelado de matemática. Vamos ver esse exemplo nas ciências biomédicas versus medicina, química e engenharia química, etc.

 

Pode-se concluir que mesmo entre a elite da profissão dos que estudam filosofia existe o problema do que fazer. O filosofo é uma profissão que nunca vira profissão. A coisa mais prática que um professor de Filosofia pode fazer é escrever um livro ou um blog, o que ao menos é mais acessível.

 

 

A ralé

 

Existe um outro mundo dos que estudam filosofia. Eles são considerados uma espécie de subespécie, uma turma de bastardos, mestiços. Os que compõe o seleto grupo dos cursos de Filosofia das Universidades Federais e Estudais as vezes até os desconhecem. São os ex-seminaristas oriundos de seminários católicos e protestantes. Juntam-se a eles uma legião de professores de Filosofia formados em programas de finais de semana ou na modalidade EAD. Essa demanda surgiu no contexto da obrigatoriedade de haver Filosofia no currículo do ensino médio. Esse grupo compartilha com os ex-seminaristas o picadeiro da escola pública.

 

O quadro é pintado com ironia com o propósito de ressaltar ou fazer vincos na imaginação do leitor e desse modo chamar a atenção para uma terceira via no debate sobre a profissão do filósofo.

 

Os ex-seminaristas são oriundos de outro nicho cultural. São de famílias do interior dos vários lugares desse vasto Brasil. Alguns fizeram um duro percurso para se habituarem as letras, não raros são filhos de pessoas pobres, lavradores, pedreiros e analfabetos.

 

Esse batalhão de profissionais sem profissão constitui o terceiro ponto do debate entre ANPOF e ABF/Projeto de Lei. A essa turma interessa profundamente que exista a Profissão de Filósofo, mesmo que não exista sustentação lógica da profissão e que a elite da ANPOF continue a publicar seus repúdios ao projeto de Lei. 

 

ABF alguém conhece?

 

A Academia Brasileira de Filosofia é pouco conhecida entre nós profissionais sem profissão. O pouco que sabemos foi através da internet por ocasião de algumas investigações sobre Filosofia no Brasil. Parece-nos que é por esse motivo que alguns promulgam anátemas contra essa ONG. Mas é preciso pensar com lentidão, já advertia Nietzsche, o não-filósofo mais famoso como filósofo,(em última analise um ex-seminarista luterano).

 

Ao fazer a espionagem googolica dos dias de hoje, podemos verificar que as pessoas que compõe o quadro da ABF são pessoas exitosas na vida profissional. Entre outras, podemos citar um embaixador que compõe seu quadro. Certamente há méritos nesse percurso profissional, sem querer aqui pensar as questões históricas de exclusão dos negros dos altos cargos da carreira pública.

 

Porém, estranha-se o fato de não encontrarmos filósofos nos seus quadros. Onde estão os filósofos? A ABF tem como patrono o renomado Newton da Costa, mas até onde sabemos, Da Costa é Lógico, essa espécie de pensadores descolados da realidade. Sua contribuição para o mundo contemporâneo é a famigerada lógica paraconsistente.

 

A turma da lógica intentou recentemente se apartar da ANPOF e formar um grupo específico a ter acesso as verbas de pesquisa. Da Costa é formado em Engenharia e matemática e se dedicou a pesquisa de Lógica no renomado Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp. A pergunta é: será que Da Costa sabe dessa função? Ou foi eleito por admiradores? As duas possibilidades são válidas e justa, mas a segunda opção pode se travestir da primeira, na medida em que é a opção que gera argumento de poder.

 

O que ressalta em primeira leitura dos textos da ABF é que nela não há pessoas formadas em Filosofia, mas pessoas que procuram apenas promover a Filosofia e especialmente uma Filosofia Nacional. Sabemos que a ideia de uma Filosofia Nacional foi acossada com o mesmo vigor que hoje procuram fazer com a profissão de Filósofo. O último bastião dessa tentativa foi a PUC Rio uma linha de pesquisa que se chamava Filosofia Brasileira.

 

Não conhecemos a ABF, mas sabemos que em partes a tal da Filosofia Nacional esteve misturada aos nacionalistas golpitas da ditatura militar. A Filosofia Brasileira foi mitigada logo nesse seu primeiro intento com certa razão, até onde sabemos fruto do empenho do Pe. Lima Vaz (Jesuíta). Postergando, como vários outros setores da vida brasileira, essa discussão para nossos dias, correndo o mesmo risco de outrora, pois uma academia de filosofia que não há filósofo, deveria assumir apenas o lugar de um club de honoráveis pessoas. Devotas ao pensamento filosófico como um passa tempo aristocrata, mas sem a pretensão de alçar um lugar de representante profissional.

 

Para que essa associação civil sem fins lucrativos consiga ser representante de uma categoria profissional ela no “mínimo” precisa ser “totalmente” reformulada. O que levaria a permanência só do nome Academia Brasileira de Filosofia. O critérios para estabelecimento de um Conselho Federal de Regulamentação da Profissão de Filosofia deverá seguir os critérios democráticos e nesse sentido os dois gladiadores do momento não são.

 

 

ANPOF não é exemplo de democracia, pois se pauta pela ambígua “meritocracia” acadêmica. Ela congrega os vários mestrandos(as) e doutorandos(as) regularmente matriculados em programas de pós-graduação “reconhecidos” pelo Estado. O acesso as esses programas e as verbas para pesquisa é um grande mistério no que toca seu caráter democrático. Temos que ser bem néscio para acreditar nesse engodo de jogo de Poder.

 

Interessa aos ex-seminaristas fazerem parte dos recursos públicos e desse lugar de Poder. O que não implica total falta de legitimidade da ANPOF, mas em uma democracia plena é preciso haver tensão de Poder em todos os campos. A ausência dessa tensão é sinônimo de que um grupo tem privilégios. A formação Legal da Profissão do Filósofo poderá equilibrar esse jogo de Poder o que certamente irá refletir no tipo de Saber que se produz nesse campo de conhecimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São Paulo / SP

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Graduação: Teologia (Faculdade Vicentina )
Mestre em Filosofia, com destacada carreira na área educacional, atuando como Professor das áreas de Filosofia e Ensino Religioso para a Educação Básica e Ensino Superior. Na Educação Básica, desenvolve aulas expositivas, utilizando recursos visuais que facilitem a assimilação do conteúdo, como: desenhos, esquemas, características, arquitetura e cores que remetem ao momento histórico estudado, traçando linhas cronológicas a fim de auxiliar a organização das ideias explanadas. Estimula a parti ...
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