Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850–1923) foi o poeta que transformou o verso em arma política e crítica social. Se a Geração de 70 teve em Antero de Quental o seu filósofo, encontrou em Junqueiro o seu maior panfletário e satírico, capaz de incendiar multidões com rimas que atacavam a monarquia, o clero e a decadência das instituições portuguesas.
Trajetória: Do Direito à Diplomacia
Nascido em Freixo de Espada à Cinta, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. No entanto, sua vida foi pautada pelo jornalismo e pela política. Foi deputado e, após a implantação da República em 1910 (da qual foi um dos maiores preparadores ideológicos), serviu como ministro de Portugal na Suíça.
A Estética do "Grito"
A poesia de Junqueiro é conhecida pelo seu caráter eloquente e teatral. Ele não escrevia para o sussurro dos salões, mas para o eco das praças. Suas principais características são:
-
Sátira Feroz: O uso do sarcasmo para ridicularizar os poderosos.
-
Anticlericalismo: Uma crítica constante à hipocrisia de parte da Igreja Católica da época.
-
Piedade Social: Ao mesmo tempo que atacava as elites, demonstrava uma profunda compaixão pelos camponeses e pelos pobres.
-
Panteísmo: Em sua fase final, sua obra tornou-se mais espiritualizada, focada na comunhão com a natureza e na figura de Deus presente em todas as coisas simples.
Obras-Primas
A Morte de Dom João (1874)
Nesta obra, Junqueiro subverte o mito do sedutor clássico. O Dom João do poema é um velho decadente e miserável, servindo como uma metáfora para a própria aristocracia e os valores morais apodrecidos da sociedade portuguesa da época.
A Velhice do Padre Eterno (1885)
É sua obra mais polêmica. Nela, o poeta ridiculariza a visão dogmática e institucional da religião. O livro causou um escândalo imenso, gerando protestos da Igreja, mas consolidou Junqueiro como o poeta da liberdade de pensamento.
Os Simples (1892)
Representa uma mudança de tom. Aqui, a fúria satírica dá lugar à ternura. Junqueiro canta a vida rural, os pastores e a beleza das coisas humildes. É nesta obra que ele se afasta da política direta para buscar uma espécie de misticismo naturalista.
O Panfleto Político e o "Finis Patriae"
Após o Ultimato Britânico de 1890 (que humilhou Portugal politicamente), Junqueiro escreveu Finis Patriae e Pátria. Foram obras de uma violência verbal extraordinária, que serviram como combustível para o sentimento republicano, acusando a dinastia de Bragança de trair a nação.
"Amo o povo, o povo humilde, o povo que trabalha, / Amo o operário rude e o camponês que espalha / Na terra o trigo e o milho e o vinho e o pão do mundo."
Legado
Guerra Junqueiro foi, talvez, o poeta mais popular de seu tempo. Embora sua poesia de combate tenha perdido um pouco de força com o passar das décadas — por estar muito ligada ao contexto político da época — sua fase lírica e mística em Os Simples continua sendo celebrada pela beleza e sensibilidade.