Alfabetizar uma criança é oferecer-lhe a chave para a cidadania plena. No Brasil, o debate sobre o "prazo" e o "método" de alfabetização ganhou novos contornos com a implementação da BNCC, que estabelece o final do segundo ano do Ensino Fundamental como o limite para que o aluno esteja alfabetizado. No entanto, o desafio vai muito além da simples decodificação de fonemas e grafemas; trata-se de garantir o letramento, ou seja, a capacidade de usar a leitura e a escrita em práticas sociais reais. Em um país de dimensões continentais e profundas desigualdades, a alfabetização é o divisor de águas entre a inclusão social e a marginalidade intelectual.
O impacto de crises globais recentes e a desigualdade no acesso a materiais de leitura em ambiente familiar criaram um fosso de aprendizagem que a escola pública luta para reduzir. O conceito de "equidade" torna-se aqui central: não se trata de dar a mesma aula para todos, mas de oferecer mais recursos e atenção pedagógica àqueles que partem de contextos de maior vulnerabilidade. O uso de avaliações diagnósticas constantes é a ferramenta que permite ao professor identificar onde a cadeia de compreensão foi rompida. A alfabetização não deve ser vista como uma tarefa exclusiva do professor de Língua Portuguesa, mas como um compromisso de toda a escola, inclusive nas áreas de exatas, onde o "letramento matemático" é essencial para a interpretação do mundo.
Para superar os índices de analfabetismo funcional, é preciso investir em bibliotecas escolares ativas e em metodologias que conectem o texto à realidade do aluno. A formação de professores alfabetizadores precisa ser contínua e valorizada, reconhecendo que essa é uma das etapas mais complexas da carreira docente. O sucesso da alfabetização em municípios menores depende de um regime de colaboração eficiente entre as esferas estadual e municipal, garantindo que o material didático seja adequado e que as famílias sejam envolvidas no processo. Somente através de uma alfabetização sólida e significativa será possível romper o ciclo de pobreza e garantir que o estudante tenha autonomia para seguir sua trajetória acadêmica com sucesso.