Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para traze-los mais aperreado. Mas nós também éramos finos, metendo o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal,cansou e tomou as folhas dos dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as ideias e paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha, decerto, algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada no portal da janela, à direita, com seus cinco olhos de diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que, alguma vez, as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar nos uma ou outra correção...
Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem vergonhas, desaforados, e jurou que, se repetissemos o negócio, apanharíamos tal castigo que nos havíamos de lembrar para todo o sempre. (contos de escola - Machado de Assis)
Alternativas em azul
Olá!!!
a) Nos segmentos “mastigando as ideias e as paixões” (ref. 1) e “com os seus cinco olhos do diabo” (ref. 2), foi empregada a linguagem figurada, o que se coaduna com o caráter literário do texto.
VERDADEIRO. As duas expressões apresentam metáforas que revelam, com uso criativo ou inusitado das palavras, a ação do professor ("mastigar ideias" significaria pensar com insistência e repetidamente tal como fazemos no ato de mastigar) e uma característica da palmatória (cada buraco na palmatória remeteria a um olho que observa o comportamento dos alunos; veja como é uma palmatória no site http://historianovest.blogspot.com/2010/01/no-tempo-da-palmatoria.html)
b) A oração “buscava-o muitas vezes com os olhos” (ref. 3) mantém relação com duas orações: uma que inicia o período e acrescenta ao trecho a noção adverbial de causa, e outra que fecha o período e tem noção de finalidade.
VERDADEIRO. "Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado." A primeira oração destacada é uma oração subordinada adverbial causal; a última trata-se de uma oração subordinada adverbial final.
c) Na oração “que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas” (ref. 4), caso fosse inserida a preposição “com” para introduzir o termo “as palmas”, não haveria prejuízo para a correção gramatical do período, mas haveria alteração da função sintática desse termo, bem como do pronome “me”.
VERDADEIRO. No trecho "que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas", o pronome pessoal "me" funciona como adjunto adnominal, substituindo o pronome possessivo minhas: "que deixaram minhas mãos inchadas e vermelhas". Caso fosse utilizada a preposição com, haveria uma mudança nas funções sintáticas: em "que me deixaram com as mãos vermelhas e inchadas", o pronome "me" passaria a ser objeto direto do verbo deixar, que ganharia o objeto indireto "com as mãos inchadas e vermelhas".
d) Os vocábulos “vermelhas” (ref. 4) e “inchadas” (ref. 4), assim como “sem-vergonhas” (ref. 5) e “desaforados” (ref. 5), exercem a função de predicativo, respectivamente, da expressão “as palmas” (ref. 4) e da forma pronominal “nos” em “Chamou-nos” (ref. 5).
VERDADEIRO. Todos os vocábulos mencionados exercem a função sintática de predicativo do objeto.
e) A expressão “tal castigo” (ref. 6) refere-se aos “os bolos uns por cima dos outros, até completar doze” (ref. 7).
FALSO. É comum a palavra "tal" ser utilizada como pronome demonstrativo, da mesma forma que "esse". Porém, na frase em questão, "tal" parece ser usado com sentido de intensificar a dimensão do castigo que seria aplicado numa possível reincidência dos alunos, algo como "tamanho castigo" ou "castigo tão grande que...".
f) Depreende-se do texto que, na relação entre mestre e alunos, à estratégia empregada pelo mestre, no controle da situação, seguiu-se, tacitamente, uma estratégia defensiva dos alunos.
VERDADEIRO. O uso da 1a pessoa do plural ao se tratar das reações dos alunos diante das atitudes do professor permite pensar que todos se comportaram da mesma forma. Isso fica sugerido em "Mas nós também éramos finos, metemos o nariz no livro, e continuamos a ler".
