“Os wittgensteins”
Geronilson da Santos
em 01 de Junho de 2015

 

Os pensadores que deixaram sua colaboração para a história do pensamento foram indivíduos que conseguiram, de alguma forma, interpretar problemáticas vigentes em sua época e apresentar possíveis respostas.

As escolas filosóficas freqüentemente surgem da emulação ou imitação de um mestre, cujo poder de convicção consiste na sua colocação de novas questões, e amiúde também de sua descoberta ou invenção de uma resposta adequada a novos métodos de argumentação.

Apresentamos Wittgenstein como alguém que, talvez, de forma mais genial e rápida, conseguiu oferecer respostas à principal problemática filosófica de sua época, a saber, à problemática do significado da linguagem. Tanto assim, que é um dos únicos autores capaz de, em seis décadas de existência, conseguir formular e deixar para a História duas respostas para essa problemática. Tais respostas fazem com que esse autor seja visto de duas maneiras bastante diversas com relação à concepção de Filosofia.

O pensamento do austríaco Ludwig Wittgenstein influenciou significativamente a filosofia analítica da linguagem, tanto em sua vertente da semântica formal (influência do Wittgenstein I), quanto na vertente pragmática (influência do Wittgenstein II). Mais do que isso, os trabalhos do segundo Wittgenstein, especialmente nas Investigações Filosóficas, podem ser considerados determinantes no seio da chamada virada lingüística da filosofia (linguistic turn, em inglês). Wittgenstein é considerado por alguns analistas da História da Filosofia como um dos mais importantes pensadores do século XX, talvez rivalizando a disputa desse posto com Martin Heidegger.

Embora haja uma distinção já consagrada na Filosofia Analítica entre o ‘primeiro’ Wittgenstein, representado pelo Tractatus lógico-philosophicus, e o ‘segundo’ representado pelos escritos posteriores a 1929, sobretudo pelas Investigações filosóficas, a maior parte dos intérpretes atualmente têm encontrado muitos pontos de contato entre as duas fases de seu pensamento. Notadamente quanto à sua concepção da tarefa terapêutica da Filosofia, do método filosófico e do papel da análise em produzir esclarecimentos e desfazer problemas filosóficos tradicionais, bem como formas errôneas de se compreender a linguagem. Por outro lado, é o próprio Wittgenstein que se refere negativamente à visão lógica do ‘autor do Tractatus’ nas Investigações como uma visão da qual teria se afastado.

 

Wittgenstein não é um filósofo é pelo menos dois, um primeiro w, e um segundo, que se opõe ao que se escrevem, desenvolvendo matrizes de pensamentos que surgirão novas vertentes e escolas no mundo. É necessário perguntar como os Wittgenstein compreendem a linguagem, e devemos se perguntar o que dá vida aos sons, aos sentidos de cada expressão do homem, porém percebemos que o próprio autor trouxe duas problemáticas, a primeira no sentido de figura e depois no tocante as regras para emissão desse som.

Ele toma em primeiro momento o atomismo lógico, uma linguagem articulada a partir de proposições que são constituídas por nomes que estabelecem possibilidades sintáticas que faz poder referir-se ao objeto.

Em primeiro momento há um conjunto de nomes que está ligada a um dos objetos que reproduz as possibilidades combinatórias de cada objeto, um exemplo é as cores, um campo cromático e a possibilidade de designar aos campos  de designação que é regida e o espelhamento do mundo, pois há uma sintaxe que espelha uma possibilidade desse mundo que nos apresenta.

 

Processo de passagem de Wittgenstein Análise

 

O segundo Wittgenstein ele rompe uma concepção de linguagem paradigmática formulada pela tradição, torna-se um antisubjetivista, fundamentando o sentido em nossos acordos humanos, que a sociedade cria, faz. Wittgenstein cria assim uma comunidade linguística, que não se dá em uma ótica simplista, porém a relação humana não se torna do indivíduo como social, mas sim da capacidade de cada homem de construí o seu som e sua linguagem diante da realidade que lhe apresenta.

O significado não é dado ao qual a palavra estaria ligado, e sim as regras que nós usamos para inserir as palavras na nossa vida para que possamos usá-las em nosso cotidiano, estabelecendo uma relação entre objeto e indivíduo.

 O Wittgenstein I pensava que a reunião de problemas filosóficos formava um todo e que esse todo estava representado pela investigação da possibilidade dos significados. A seguinte sentença de Wittgenstein representa essa idéia: “Tudo o que pode ser dito, pode ser dito claramente, e aquilo sobre o que não se pode falar deve-se calar”.

Para o Wittgenstein do Tractatus, então, tudo que pode ser pensado também pode ser dito e os limites da linguagem são os limites do pensamento. Para ele, uma análise apropriada da estrutura dos termos utilizados na construção das sentenças representará esse limite e, neste processo, solucionará ou diluirá todos os problemas filosóficos. Em sua visão, os problemas mais fundamentais da filosofia decorrem de mal-entendidos linguísticos. A análise crítica da linguagem empreendida no Tractatus visa dissolver então estes mal-entendidos. Visa equacionar os problemas filosóficos.  

A importância de Wittgenstein para o contexto filosófico do momento é então percebida. O Tractatus torna-se o modelo em torno do qual a matriz disciplinar da filosofia analítica passa a ser modelada. O prefácio ao Tractatus pretende que a filosofia da linguagem seja, finalmente, a verdadeira filosofia primeira, tão perseguida desde Platão e Aristóteles.

Wittgenstein chega mesmo a acreditar, à época, que havia resolvido todos os problemas filosóficos existentes. Nada mais restara para ser analisado. Ele diz no prefácio do Tractatus: “(…) a verdade dos pensamentos aqui comunicados parece-me intocável e definitiva. Portanto, é minha opinião que, no essencial, resolvi de vez os problemas [filosóficos].”

O trabalho do primeiro Wittgenstein está centrado na análise da estrutura lógica da linguagem, sua abordagem posterior, retratada nas Investigações Filosóficas, dá ênfase na linguagem enquanto esforço de comunicação humana.

Na revisão dos escritos e teses do Tractatus, Wittgenstein começa a questionar a noção de significado como referência às coisas em si, bem como inquirir a própria função denotativa da linguagem, isto é, que descrever a realidade seja de fato sua principal função.  

Esta espécie de auto-revisão de seus trabalhos foi levada adiante nas lições e estudos em Cambridge de 1930 a 1947, culminando com a conclusão das Investigações Filosóficas, obra que foi publicada postumamente em 1953.

Nas Investigações, Wittgenstein busca se utilizar de um método e estrutura conceitual diversos daqueles contidos nos Tractatus. Do ponto de vista metodológico, o segundo Wittgenstein abandona a pretensão de cientificidade lógica contida em seu primeiro trabalho. Do ponto de vista conceitual, a linguagem deixa de ser concebida como uma estrutura de nomenclaturas que designa as coisas e os objetos com o objetivo de configurar ou descrever o mundo. Wittgenstein decide abandonar a idéia de buscar por uma “essência” da linguagem.

Em Wittgenstein II, a linguagem passa a ser analisada pelo seu “valor de uso”. O nome abstrato (designação) das coisas representa agora apenas uma “afinidade”, uma “semelhança”, com os objetos designados, e não mais sua representação exata e acurada. O que irá definir seu significado é o uso. “Quando” e “como” utilizo as designações é que irão estabelecer se o significado foi adequado ou não (regras de uso).

Essa nova abordagem irá determinar que o núcleo de qualquer teoria do significado e do entendimento estará calcado na prática pública (coletiva) do proferimento e em torno de tudo que torna esta prática possível, resultando assim numa avaliação totalmente nova da natureza da linguagem, desembocando também numa nova perspectiva de filosofia da mente e mesmo de filosofia da subjetividade.

 

Textos e vídeos de referências

 

Esboços filosóficos por Marcelo L. Fraga

Vídeo café filosófico com João Virgílio especialista de Wittgenstein

 

 

CABRERA, Julio. Margens das Filosofias da Linguagem. Brasília: UnB, 2003.

GLOCK, Hans-Johann. Dicionário: Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

MARCONDES, Danilo. Filosofia, Linguagem e Comunicação. São Paulo: Cortez, 2000.

MUGUERZAOLIVEIRA, Manfredo Araújo. Reviravolta Lingüístico-Pragmática. Col. Filosofia, São Paulo: Loyola, 1996.

REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Paulinas, 1990.

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da Filosofia Contemporânea. Do século XIX à neoescolástica. São Paulo: Loyola, 1999.

Brasília / DF
Graduação: Direito (Universidade Católica de Brasília)
Estudante focado nas áreas de humanas, escreve e estuda com profundidade assuntos voltados para as áreas de filosofia geral e filosofia do direito, assim como História geral e história do direito, estudioso dos movimentos sociais, interativo e extremamente didático com material próprio, oferece ao aluno de Brasília aulas baratas e de extrema qualidade.
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