Como vocês sabem, hoje é o Dia Internacional da Mulher. Assim, vou sair um pouco do escopo previsto para o blog. Espero que não fiquem chateados!
Vou começar contando algumas coisas pra vocês.
Resolva exercícios e atividades acadêmicas
Certo dia, quando eu estava na graduação (em Ciência da Computação), fiquei bastante preocupada, como de costume, com um trabalho, um exercício-programa que tínhamos que entregar. Estava fazendo todos os esforços para tirar a nota máxima. Contando sobre essas preocupações e esforços para um colega de turma, ouvi o seguinte: "Você não precisa se preocupar. Tirará uma nota boa, afinal o monitor verá o seu trabalho, verá que foi entregue pela 'Ana das bochechinhas rosas' e tudo ficará bem."
Um outro dia, dessa vez num contexto profissional, eu e alguns colegas fomos a uma espécie de sala de exposição de produtos da empresa (tinha desde geladeiras até gadgets). Como estava interessada em comprar uma máquina de lavar roupas, fui até o lugar onde estavam expostos esses produtos. E eis que um dos colegas comenta: "Mulher é assim, vai direto na máquina de lavar!".
Essas foram as únicas atitudes machistas direcionadas a mim nos ambientes acadêmico e profissional. Muitos colegas reconheceram meus esforços e os lugares onde trabalhei sempre respeitaram minhas opiniões e potencial. Assim, sou uma mulher privilegiada. Tenho consciência de que não é assim com a maioria das mulheres na Computação e em outras áreas científicas e ligadas à tecnologia. Assim, dedico este texto a essas mulheres e deixo aqui para os demais, humildemente, alguns pontos de reflexão e talvez mudança de conduta.
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Por que há tão poucas mulheres nas áreas de Computação, Engenharia e Tecnologia?
Se você fizer uma busca no Google verá que há inúmeros artigos, posts, etc. tentando responder essa pergunta. Aqui vou falar sobre minhas experiências e observações. Ressalto, portanto, que é a minha experiência, a minha opinião. A opinião de uma mulher formada em Ciência da Computação, que trabalha na área de tecnologia e que estuda as questões de gênero e das minorias em geral.
Começo então falando sobre a infância dos meninos e meninas. Vejo muitas vezes que os meninos são mais estimulados por seus pais, ainda que de modo inconsciente, a brincarem com jogos e brinquedos mais desafiadores e que estimulam o raciocínio. Às meninas, restam muitas vezes apenas os fogõezinhos e panelinhas cor de rosa. Entendam, por favor, que nada tenho contra esses brinquedos - acredito que podem ser educativos e divertidos para as crianças. Contudo, acho que ainda existe uma mentalidade que prevê que mulheres sempre querem, acima de tudo, casar e ter filhos. Ainda que estudem ou trabalhem, quando chegarem a uma certa idade, abandonarão tudo para cuidar do lar. Assim, é melhor preparar as meninas, desde a mais tenra infância, para esse futuro. Mais uma vez, faço uma ressalva de que não critico mulheres que escolhem a nobre tarefa de criar seus filhos como missão de vida. Apenas aponto que trata-se de uma opção que nem todas as mulheres querem ou podem fazer. De qualquer forma, o que quero dizer é que a criação das mulheres pode não favorecer uma inclinação ao raciocínio lógico e ao desafio, tão necessários a uma carreira na área de Computação, por exemplo.
Um outro fator que acredito ser também crucial para a falta de interesse das meninas por Programação e Engenharia é a chamada Síndrome do Impostor. É quando alguém não consegue reconhecer suas capacidades e feitos, acreditando que é apenas uma fraude que será desmascarada a qualquer momento. Homens e mulheres podem sofrer com a Síndrome do Impostor. Mas numa sociedades machista como a nossa, na qual uma mulher é vista como menos competente e capaz que um homem, é compreensível que mulheres sofram mais com essa síndrome. Acrescente a isso a lenda de que Computação, Engenharia e Matemática são extremamente difíceis. As mulheres já não se sentem capazes, por que perseguiriam uma carreira considerada masculina e altamente complexa? Pronto. Isso desencorajará as meninas, que possuem tanto talento quanto os meninos, a seguirem essas áreas.
Isso tudo acaba perpetuando o fato da Programação e da Engenharia serem majoritariamente escolha dos meninos. Na minha turma de Computação, éramos em 5 meninas apenas, num total de 50 alunos. E isso era um recorde! Nos ambientes corporativos das mesmas áreas essa desproporção se mantém. Já ouvi várias histórias de meninas e mulheres que abandonaram seus cursos por não se identificarem com seus colegas e por sofrerem discriminação, preconceito e abusos. De fato, numa sociedade machista como a nossa, não é raro presenciarmos ou sermos vítimas de comentários ou comportamentos machistas. Um ambiente com poucas mulheres pode fazer com que fique mais confortável perpetuar e legitimar esse tipo de situação discriminatória. O resultado infeliz disso é um grande número de meninas e mulheres inteligentes e promissoras abandonando cursos, empregos e uma carreira nas áreas de tecnologia e computação.
As coisas tem mudado um pouco e a presença feminina nas áreas de tecnologia é cada vez maior. Mas a mudança vem a passos lentos e arrastados. "You can't be what you can't see"*. Você não pode ser o que você não vê. Quanto menos as meninas verem mulheres felizes e bem-sucedidas em Computação, menos vão querer perseguir carreiras nessas áreas. Isso contribui para manter tudo como está. Gostaria de mudar essa situação toda.
Espero que isso inspire vocês, pais e mães de meninas, a estimularem suas filhas a se preocupar menos com a aparência e mais com a leitura. Espero que você, programador, pense antes de fazer aquela "piadinha" machista no seu trabalho. E, acima de tudo, espero que você, mulher, não desista de perseguir aquilo que sonhou.
Até!
*Vi essa frase no magnífico documentário "Miss Representation". Não tem necessariamente o significado com o qual usei aqui - sobre mulheres na Computação - mas achei que tinha tudo a ver com a situação.
PS. A primeira programadora do mundo foi Ada Lovelace. Sim, uma mulher! =]