8 de Março: Por que há pouquíssimas mulheres em Computação?

Computação Programação Geral Graduação Profissional Raciocínio Lógico
8 de Março: Por que há pouquíssimas mulheres em Computação?
Ana Luiza Basalo
em 08 de Março de 2014

Como vocês sabem, hoje é o Dia Internacional da Mulher. Assim, vou sair um pouco do escopo previsto para o blog. Espero que não fiquem chateados!

 

Vou começar contando algumas coisas pra vocês.

Certo dia, quando eu estava na graduação (em Ciência da Computação), fiquei bastante preocupada, como de costume, com um trabalho, um exercício-programa que tínhamos que entregar. Estava fazendo todos os esforços para tirar a nota máxima. Contando sobre essas preocupações e esforços para um colega de turma, ouvi o seguinte: "Você não precisa se preocupar. Tirará uma nota boa, afinal o monitor verá o seu trabalho, verá que foi entregue pela 'Ana das bochechinhas rosas' e tudo ficará bem."

Um outro dia, dessa vez num contexto profissional, eu e alguns colegas fomos a uma espécie de sala de exposição de produtos da empresa (tinha desde geladeiras até gadgets). Como estava interessada em comprar uma máquina de lavar roupas, fui até o lugar onde estavam expostos esses produtos. E eis que um dos colegas comenta: "Mulher é assim, vai direto na máquina de lavar!".

Essas foram as únicas atitudes machistas direcionadas a mim nos ambientes acadêmico e profissional. Muitos colegas reconheceram meus esforços e os lugares onde trabalhei sempre respeitaram minhas opiniões e potencial. Assim, sou uma mulher privilegiada. Tenho consciência de que não é assim com a maioria das mulheres na Computação e em outras áreas científicas e ligadas à tecnologia. Assim, dedico este texto a essas mulheres e deixo aqui para os demais, humildemente, alguns pontos de reflexão e talvez mudança de conduta.

 

Por que há tão poucas mulheres nas áreas de Computação, Engenharia e Tecnologia?

Se você fizer uma busca no Google verá que há inúmeros artigos, posts, etc. tentando responder essa pergunta. Aqui vou falar sobre minhas experiências e observações. Ressalto, portanto, que é a minha experiência, a minha opinião. A opinião de uma mulher formada em Ciência da Computação, que trabalha na área de tecnologia e que estuda as questões de gênero e das minorias em geral. 

Começo então falando sobre a infância dos meninos e meninas. Vejo muitas vezes que os meninos são mais estimulados por seus pais, ainda que de modo inconsciente, a brincarem com jogos e brinquedos mais desafiadores e que estimulam o raciocínio. Às meninas, restam muitas vezes apenas os fogõezinhos e panelinhas cor de rosa. Entendam, por favor, que nada tenho contra esses brinquedos - acredito que podem ser educativos e divertidos para as crianças. Contudo, acho que ainda existe uma mentalidade que prevê que mulheres sempre querem, acima de tudo, casar e ter filhos. Ainda que estudem ou trabalhem, quando chegarem a uma certa idade, abandonarão tudo para cuidar do lar. Assim, é melhor preparar as meninas, desde a mais tenra infância, para esse futuro. Mais uma vez, faço uma ressalva de que não critico mulheres que escolhem a nobre tarefa de criar seus filhos como missão de vida. Apenas aponto que trata-se de uma opção que nem todas as mulheres querem ou podem fazer. De qualquer forma, o que quero dizer é que a criação das mulheres pode não favorecer uma inclinação ao raciocínio lógico e ao desafio, tão necessários a uma carreira na área de Computação, por exemplo.

Um outro fator que acredito ser também crucial para a falta de interesse das meninas por Programação e Engenharia é a chamada Síndrome do Impostor. É quando alguém não consegue reconhecer suas capacidades e feitos, acreditando que é apenas uma fraude que será desmascarada a qualquer momento. Homens e mulheres podem sofrer com a Síndrome do Impostor. Mas numa sociedades machista como a nossa, na qual uma mulher é vista como menos competente e capaz que um homem, é compreensível que mulheres sofram mais com essa síndrome. Acrescente a isso a lenda de que Computação, Engenharia e Matemática são extremamente difíceis. As mulheres já não se sentem capazes, por que perseguiriam uma carreira considerada masculina e altamente complexa? Pronto. Isso desencorajará as meninas, que possuem tanto talento quanto os meninos, a seguirem essas áreas.

Isso tudo acaba perpetuando o fato da Programação e da Engenharia serem majoritariamente escolha dos meninos. Na minha turma de Computação, éramos em 5 meninas apenas, num total de 50 alunos. E isso era um recorde! Nos ambientes corporativos das mesmas áreas essa desproporção se mantém. Já ouvi várias histórias de meninas e mulheres que abandonaram seus cursos por não se identificarem com seus colegas e por sofrerem discriminação, preconceito e abusos. De fato, numa sociedade machista como a nossa, não é raro presenciarmos ou sermos vítimas de comentários ou comportamentos machistas. Um ambiente com poucas mulheres pode fazer com que fique mais confortável perpetuar e legitimar esse tipo de situação discriminatória. O resultado infeliz disso é um grande número de meninas e mulheres inteligentes e promissoras abandonando cursos, empregos e uma carreira nas áreas de tecnologia e computação.

As coisas tem mudado um pouco e a presença feminina nas áreas de tecnologia é cada vez maior. Mas a mudança vem a passos lentos e arrastados. "You can't be what you can't see"*. Você não pode ser o que você não vê. Quanto menos as meninas verem mulheres felizes e bem-sucedidas em Computação, menos vão querer perseguir carreiras nessas áreas. Isso contribui para manter tudo como está. Gostaria de mudar essa situação toda.

Espero que isso inspire vocês, pais e mães de meninas, a estimularem suas filhas a se preocupar menos com a aparência e mais com a leitura. Espero que você, programador, pense antes de fazer aquela "piadinha" machista no seu trabalho. E, acima de tudo, espero que você, mulher, não desista de perseguir aquilo que sonhou.

Até!

*Vi essa frase no magnífico documentário "Miss Representation". Não tem necessariamente o significado com o qual usei aqui - sobre mulheres na Computação - mas achei que tinha tudo a ver com a situação.

PS. A primeira programadora do mundo foi Ada Lovelace. Sim, uma mulher! =]

São Paulo / SP
Graduação: Ciência da Computação (Instituto de Matemática e Estatística da USP)
Formou-se com honra ao mérito em Ciência da Computação no IME-USP em 2011. Já atuou como administradora de redes e como analista de sistemas e programadora (sistemas Web e apps para Android). Também foi professora voluntária de Matemática (Ensino Básico) e monitora em algumas disciplinas de graduação em Computação na USP. Além disso, por hobby, atua como professora particular nas horas vagas. As aulas particulares são preparadas conforme a necessidade dos alunos: pode ser dada maior atençã ...
Computação - Autômatos, Computação - Programação, Computação e Informática a domicílio, Programação em Java, Programação em C
Oferece aulas presenciais
R$ 80 / aula
Conversar
1ª aula gratuita
Cadastre-se ou faça o login para comentar nessa publicação.

Listas de exercícios, Documentos, Revisões de textos, Trabalhos?

Se seu problema for dificuldade em uma lista de exercícios, revisão de teses e dissertações, correção de textos ou outros trabalhos, peça uma ajuda pelo Tarefas Profes.

Enviar Tarefa

Confira artigos similares

Confira mais artigos sobre educação

Ver todos os artigos

Encontre um professor particular

Busque, encontre e converse gratuitamente com professores particulares de todo o Brasil