Análise da Ode 2.3: a filosofia de vida horaciana

Literatura Literatura latina antiga
Análise da Ode 2.3: a filosofia de vida horaciana
Graziela N.
em 21 de Janeiro de 2021

Por:

GRAZIELA MAYARA NASCIMENTO ALMEIDA
(Aluna regularmente matriculada no curso de graduação em Letras- Latim)
T

Trabalho apresentado ao profº Pedro
Schmidt, na disciplina “Literatura Latina
IV”.

 

Universidade Federal do Rio de Janeiro – Faculdade de Letras
PLE / 2020

 

 

Horácio – Carmen 2,3 (Ode 2.3)
Aequam memento rebus in arduis
servare mentem, non secus in bonis
 ab insolenti temperatam
 laetitia, moriture Delli,
seu maestus omni tempore vixeris 5
seu te in remoto gramine per dies
 festos reclinatum bearis
 interiore nota Falerni.
Quo pinus ingens albaque populus
umbram hospitalem consociare amant 10
 ramis? Quid obliquo laborat
 lympha fugax trepidare rivo?
 Huc vina et unguenta et nimium brevis
flores amoenae ferre iube rosae,
 dum res et aetas et Sororum
 fila trium patiuntur atra. 15
Cedes coemptis saltibus et domo
villaque, flauvs quam Tiberis lavit,
 cedes, et exstructis in altum
 divitiis potietur heres. 20
Divesne prisco natus ab Inacho
nil interest an pauper et infima
 de gente sub divo moreris,
 victima nil miserantis Orci;
omnes eodem cogimur, omnium 25
versatur urna serius ocius
 sors exitura et nos in aeternum
 exilium impositura cumbae.

 

 

                                                                     Tradução:

Quando a treta fica séria, trate de pensar,
de saber que tudo passa, e nos tempos de bonança
não se iluda com o sucesso.
Você sabe e só sabe que um dia vai morrer,
não importa que a vida seja só tristezas
ou que seja alegria, gozo e belezas.
Por isso, aproveite o feriadão
para encher a cara com um bom vinho chileno.
Por que as sapucaias e as abricós adoram unir
seus ramos para formar uma sombra refrescante?
Por que as corredeiras na serra
apressam-se tanto em descer para os rios do vale?
Tragam a bebida, tragam os petiscos,
e pétalas bem fresquinhas da roseira,
enquanto o mundo, e os anos e os sombrios
fios das Três Parcas nos permitem.
Você terá que deixar para trás todas as terras que tiver comprado
– de quanta terra, afinal, precisa um homem? –
e terá que deixar sua casa, sua mansão,
pois tudo isso será levado e lavado pelas águas amarelas
do São Francisco, ou do Paraíba, ou do Tietê,
ou então pela lama de Brumadinho.
Você terá que deixar tudo, e seu herdeiro
é quem ficará com tudo o que você juntou.
Não importa se você é ricaço, descendente dos coronéis,
ou se é pobre, um mendigo sem-teto, abençoado com
uma origem humilde, não faz diferença:
você será vítima das garras da impiedosa Morte.
Estamos todos caminhando para esse fim,
e nossas sortes estão lançadas, e cedo
ou tarde, o momento derradeiro chegará e nos jogará
no barco de Caronte para o exílio eterno.
(Pedro Baroni Schmidt)

 

INTRODUÇÃO
Por meio da Ode 2.3 de Horácio, será realizada, de início, uma análise que, por sua
vez, se voltará à técnica onde contexto e gênero serão explorados. Já ao fim, este
presente trabalho terá como foco uma singela interpretação subjetiva que visa explorar
com originalidade o que poderia ser entendido nos versos horaciano com um adicional:
um simples poema de minha autoria.


CONTEXTO DE PRODUÇÃO DA OBRA
Quintus Horatius Flaccus nasceu em 65 a.C., em Venúsia (centro sul da
península itálica) e morreu em 8 a.C. Filho de um liberto, com muito esforço seu pai
conseguiu pagar por uma educação de qualidade em Roma. Assim sendo, Horácio
estudou a língua latina e grega durante sua infância e, tempos mais tarde, se rendeu a
filosofia em Atenas. Ainda jovem começou a compor poesias, o que lhe proporcionou
um emprego de escriba na administração pública. Após seu primeiro trabalho, as
Sátiras, por volta da década de 20, isto é, na primeira década de poder absoluto e
imperial de Augusto, o poeta compôs as tão famosas Odes, livros 1, 2 e 3 sendo o
quarto e último livro escrito no final da década de 10. Pode-se considerar este período
como um momento de transição na qual as instituições republicanas permaneceram
sobre aparência, ainda que sem poder real. Em geral, as Odes são consideradas o ponto
de partida para a poesia lírica da cultura ocidental. A Ode 2.3, por exemplo, esta que,
por sua vez, está incluída no centro do livro composto por um ciclo de 12 poemas, do
2.1 ao 2.12., foi retomada tempos mais tarde em autores como Robert Frost (1874-
1963), Shelly (1792-1822) e, na literatura brasileira, Sá de Miranda (1481-1558).
Consideradas obras primas de Horácio, as Odes são poemas que se percebe um trabalho
mais rebuscado do poeta tanto em termos linguísticos quanto em termos de criatividade,
isso porque a forma argilosa que os assuntos são apresentados é visivelmente bela,
tornando a sua produção um tanto quanto original.

GÊNERO
A Ode 2.3 pertence ao gênero lírico, que corresponde a uma adaptação das
formas ritualistas do povo indo-europeu emergindo através de cerimônias religiosas de
invocação aos deuses. A princípio, é de fundamental importância seguir a tradição
aristotélica que realiza uma tripartição dos gêneros de acordo com o objeto
(personagens), o modo (narrativo) e o meio (metro). No que tange os objetos, os
personagens são classificados como superiores, iguais ou inferiores da realidade do
leitor. Há de se pensar que o gênero lírico represente figuras que se aproximam da
vivência do público, o que, consequentemente, se faz diferente da épica e da tragédia,
por exemplo, em que se nota personagens superiores aos leitores como os heróis ou os
deuses; ou a comédia onde é apresentado personagens inferiores. Assim sendo, quis
Horácio no carmen 2.3 se dirigir a Délio alertando-o para que este se preocupe com o
presente, ponderando a moderação, pois a lição transmitida seria que tudo é incerto
exceto a morte que chega para todos, o que dialoga com a ideia do eu lírico universal,
isto é, um eu que se identifica com o eu de qualquer leitor sendo, dessa forma, uma
experiência comum a todos. Quanto ao modo, o modelo predominante é o narrativo em
que através da voz de um narrador, mais precisamente, a exclusividade de um narrador
na primeira pessoa do plural, é apresentado de maneira que Horácio exponha
ardilosamente sua experiência, visível nos versos 25 e 26 “estamos todos caminhando
para esse fim, e nossas sortes estão lançadas”. Já o meio, isto é, o metro lírico, desde a
Grécia arcaica tornou-se permanente também na literatura latina correspondendo a
combinações de troqueu com iambo, sendo aquele a combinação de uma sílaba longa
com uma sílaba breve - u enquanto que este realiza-se de modo contrário, uma sílaba
breve com uma longa u -.
Os subgêneros da lírica apresentados no poema também se destacam como, por
exemplo, o hino que canta aos deuses “(...) e os anos e os sombrios fios das Três Parcas
nos permitem” (v. 15 e 16) o que também pode ser visto em outra obra horaciana, o
Carmen Saeculare, seu último poema; e o convivial, que fala a respeito do vinho “Por
isso, aproveite o feriadão / para encher a cara com um bom vinho chileno” (v.8). Ao
inserir tais subgêneros, quis Horácio, de certa forma, preserva a tradição da poesia
lírica, da sua Ode.

MODELOS
Em geral, a lírica horaciana segue os modelos de Píndaro e Calímaco, dois
poetas gregos de épocas diferentes sendo o primeiro um poeta do período arcaico e o
segundo do período helenístico, cada um com a sua própria estética. Desse modo,
Píndaro corresponderia ao modelo de matéria (temática) e o Calímaco ao modelo do
como (técnica). Com isso, o poeta organizou suas ideias de modo que ambas as
influências fossem realizadas conjunto a estética da brevidade que se relaciona com a
questão da forma: a ideia da brevidade, da concentração de várias imagens, da figuração
e da representação. No entanto, na Ode 2.3, encontram-se modelos específicos que
chamam a atenção. Quando o poeta descreve os jardins, por exemplo, estaria ele
resgatando o modelo de Homero, isto é, a Odisseia (5.63ss; 7.112ss), bem como de safo
(2.5), isso porque ambos os poetas possuem como uma das temáticas de suas produções
o paisagismo; E, ainda, há de se pensar que a descrição dos elementos da natureza é
alexandrina, uma vez que retoma imagens de Calímaco e Teócrito; E, por fim, o
conteúdo filosófico é uma característica que advém de Lucrécio.

METRO
A métrica desta Ode corresponde à estrofe alcaica aparecendo 38 vezes nas
Odes. Conforme sintetiza Tarsila de Oliveira (2014 p. 81), Hefestião declarou que o
verso introdutório da estrofe de epiônico a maiore, um alcaico de onze sílabas,
determina como metro o asynarteton o qual tem como primeira sizígia a iâmbica, com
cerca de seis ou sete durações. Convém lembrar que o segundo pé seria um jônico a
maiore, que se equivale, no fim da estrofe, a um troqueu conjunto a uma sílaba sem
importância. Assim sendo, o poema 2.3 foi construído da seguinte maneira: os dois
primeiros versos de cada uma das estrofes são sempre hendecassílabos, possuem 11
sílabas, Aequam, memento rebus in arduis / servare mentem, non secus in bonis; o
terceiro verso é classificado como eneassílabo, ou seja, contém nove sílabas, que tem
como métrica o espondeu, iambo, espondeu, iambo e uma sílaba, ab insolenti
temperatam; Sendo o quarto verso de cada estrofe caracterizado como escandido por
quatro dátilos, com a ausência de uma sílaba breve laetitia moriture Delli.
E, por fim, constatou-se que a Ode é estruturada da seguinte maneira: são 7 estrofes
contendo 4 versos cada uma. Somando no total 28 versos. Ritmicamente, poder-se-ia
considerar a estrofe alcaica como um ritmo misto, devido à diversidade de metros que 
nela se encontram. Esta diversidade não é por acaso. A maneira cuidadosa que foi
inserida a última palavra da primeira estrofe, por exemplo, fortalece essa ideia: Delli,
“Délio”. Seguindo o modelo hendecassílabo, o termo é enunciado de maneira longa,
enfatizando todo o breve contexto filosófico que o antecede, pois buscava Horácio
chamar a atenção dos leitores, visto que estes são representados pelo substantivo, o que,
em consequência, embeleza ainda mais o carmen horaciano.

EFEITOS SONOROS
De imediato, nota-se a ánafora, presente nas seguintes passagens: Aequam
memento rebus in arduis / servare mentem, non secus in bonis (v.1 e 2); seu maestus
omni tempore vixeris / seu te in remoto gramine per dies (v. 5 e 6); Huc vina et
unguenta et nimium brevis (...) dum res et aetas et Sororum (v. 13 e 15); Cedes
coemptis saltibus et domo / cedes, et exstructis in altum (v. 17 e 19). Havendo rima
entre vocábulos como, por exemplo: “rebus (v.1), secus (v.2); trium patiuntur (v.16)
Cedes (19) heres (20)”; Ao fim, constatou-se aliteração em M no primeiro verso (25) da
última estrofe: omnes eodem cogimur, omnium.

FIGURAS DE LINGUAGEM
Foi encontrado nesta produção o emprego da metonímia e metáfora. Logo na
segunda estrofe, o poeta utiliza o termo falerni, per dies festo bearis / interiore nota
falerni, “durante os dias festivos... com um garrafa bem guardada de falerno” (v. 6-8)
realizando uma clara menção ao vinho falerno, um dos mais prestigiados durante o
império romano servido, inclusive, em banquetes de Júlio César. Dessa maneira,
Horácio fez uso da metonímia chamando o vinho por um de seus tipos, o falerno. Já a
metáfora pode ser vista em: “(...) e nos jogará no barco de Caronte para o exílio eterno”
nos in aeternum / exilium impositura cumbae (v. 27 e 28) com o propósito de sinalizar
que todos possuem um fim igual: a morte, por meio da expressão “barco de Caronte”,
que na mitologia grega corresponderia ao barco de Hades, cuja função seria levar as
almas dos recém-mortos ao submundo. Sendo assim, o barco de Caronte seria a morte.
Esta mesma figura de linguagem também pode ser encontrada nos versos 14 e 15,
sororum fila trium patiuntur atra “os fios escuros das três irmãs nos permite”, onde a 
expressão “três irmãs” faz menção as Parcas, do grego Μοῖραι, que são responsáveis
por estabelecer os destinos dos homens, como a vida e a morte, daí “os fios escuros”,
onde nem mesmo seu pai o rei dos deuses, Júpiter - Zeus na mitologia grega -, poderia
interferir sem que prejudicasse a harmonia do cosmos. E, por assim, ao fazer uso destes
recursos linguísticos, o poeta romano faz referencias culturais e mitológicas
ornamentando ainda mais sua produção.

NARRATOLOGIA
Quis Horácio, o narrador, apresentar uma ideia moral ao seu público, sendo este
último, por sua vez, representado por um personagem: Délio, que corresponderia ao tulírico, o endereçado, neste caso, os próprios leitores do poeta. O narrador durante toda a
produção dialoga com seu público e, em meados do poema e por toda a última estrofe,
isto é, no desfecho da obra, se inclui ao fazer uso da primeira pessoal do plural,
respectivamente, “... os sombrios fios das Três Parcas nos permitem” Sororum / fila
trium patiuntur atra (v.14 e 15) e “Estamos todos caminhando para este fim” omnes
eodem cogimur (v. 25). De certa forma, este feito poderia ser considerado algo
proposital, uma vez que ao se incluir na própria lição que poderia ser designada de “o
culto da justa medida”, conforme declara Carlos Ascenso André (2009), isso porque a
obra tinha o objetivo de mostrar a brevidade da vida, pretendia Horácio mostrar a sina
de ser um mero mortal.

TEMPO E ESPAÇO
O tempo corresponde ao presente e ao futuro. O primeiro representaria um
presente universal, que não se limita ao presente concomitante de Horácio, mas sim, um
presente relativo, absoluto, isso porque ao ler o poema na atualidade a temporalidade
dele se enquadra perfeitamente com o presente atual. Já o segundo, o futuro, estaria
associado a um futuro que também não está preso na temporalidade do poema podendo
também se encaixar na realidade dos dias de hoje. O poeta os utiliza com o seguinte
propósito: o presente representaria um tempo que deveria sempre ser prestigiado e
vivido, visto a curta duração de vida do homem. Já o futuro estaria representando um
tempo que não está em mãos, podendo ainda nem sequer ser alcançado. Horácio, assim,
realiza um jogo entre esses dois tempos, sinalizando o preceito da vida onde há o
prestígio com o agora e o desprezo com o amanhã, o inexistente.
Há, aqui, uma dicotomia no que tange o espaço, pois é apresentado na obra
horaciana tanto o local urbano quanto o rural. O primeiro é classificado como tal, visto a
descrição de elementos da natureza como, por exemplo, o movimento do rio “Por que as
corredeiras na serra / apressam-se tanto em descer para os rios do vale?” (v. 11 e 12) ; Já
o segundo, poder-se-ia imaginar um possível festejo, celebração que ocorria na cidade
de Roma como, por exemplo, um banquete, visível na passagem “tragam a bebida,
tragam os petiscos, e pétalas bem fresquinhas da roseira” (v. 13 e 14). Há de se pensar
que a dicotomia rural e urbano está inserida dentro do contexto filosófico da brevidade
da vida, isso, pois, assim seria, devido a este tema que questiona o tempo do homem no
mundo, filosofia esta que circunda por toda a obra, desde os versos introdutórios aos
finais.

INTERTEXTUALIDADE
Já se sabe quais são os modelos que Horácio segue no carmen 2.3. Agora, ambas
as influências serão mais bem exploradas, a começar pela natureza. Quando Horácio por
meio de um questionamento, descreve o que possivelmente aproxima-se de um jardim,
segue o poeta romano uma das características da grande epopeia de Homero, a Odisseia
(5.63ss; 7.112ss) e a safo (2.5), visto nos versos 9 ao 11 “Por que as sapucaias e as
abricós adoram unir seus ramos para formar uma sombra refrescante?”. Já a descrição
dos elementos da natureza “Por que as corredeiras na serra / apressam-se tanto em
descer para os rios do vale?” (v. 11 e 12) é bastante alexandrina, com imagens que
seguem o modelo de Calímaco e Teócrito. Há também o conteúdo filosófico na obra e
sua transposição para o universo romano que está associado ao poeta Lucrécio, e pode
ser visto em uma de suas grandes produções, De Rerum Natura, em que o poeta expôs o
princípio filosófico de que a vida do homem é única devendo ele aproveitá-la de
maneira que possa retirar-se do caos da vida pública em busca de uma satisfação serena
do prazer.
Há de se pensar em outra aproximação feita pelo poeta. O carmen 2.3
corresponderia a uma continuidade de pensamento que foi construída pelo próprio 
romano na Ode 11 do primeiro livro. Tamanho foi o seu sucesso que até os dias de hoje
é relembrada pela famosa expressão carpe diem “aproveite o dia”. O dialogo entre as
Odes se faz pelo tema epicurista que ambas transportam, na Ode 1.11, por exemplo,
logo nos versos introdutórios, Horácio se dirige a Leucônoe “Não indages, Leucônoe,
ímpio é saber / a duração da vida” (v. 1 e 2); algo que, claramente, também pode ser
visto na Ode 2.3, com o personagem Délio que, assim como Leucônoe, estaria
representando os leitores do poeta. Essa relação é construída, principalmente, no fim de
ambas as produções quando o poeta no desfecho de ambas as obras acaba por dar a lição
moral final, na Ode 1.11 “desfrute o dia de hoje, acreditando / o mínimo possível no
amanhã” (v. 8) e na Ode 2.3 “(...) estamos todos caminhando para esse fim, / e nossas
sortes estão lançada” (v.25 e 26).

INTERPRETAÇÃO
Nada mais quis Horácio do que declarar ao seu público a maior lição moral da
vida: vivê-la. Antes mesmo que se possa enfurecer-se com pessoas, com palavras, com
momentos, dever-se-ia o homem pensar e repensar que tudo aqui é passageiro,
ponderando circunstancias que podem, simplesmente, serem esquecidas. De todos os
aprendizados da vida mundana, nada mais é certo: a morte chega a todos. Afirma lá o
poeta que, não se faz importante desfrutar-se de gozos e riquezas nem mesmo viver em
profunda tristeza, trata-se de “desfrutar os momentos”, carpe diem, sempre buscando
aproveitar-se de grandes festejos em feriados, enchendo a cara com um bom vinho o
que, no momento atual, poderia ser substituído por uma singela cerveja.
Trata-se não só de aceitar a brevidade da vida mais de compreendê-la para que
se viva sempre na mediocridade aurea, aurea mediodritas (2.10.5), preceito de vida do
próprio poeta que corresponderia aquele que sabe se contentar com pouco e com aquilo
que está em mãos, vivendo feliz e com tranquilidade. Feito este que só existiria com a
medianidade encontrada na lírica. Essa é a tópica da brevidade e moderação da vida que
não só é vista na Ode 2.3 com Délio, bem como na própria Ode 2.10 à Licínio, ambos
estando, no fim, representando os seus próprios leitores.
Na atualidade essa mesma filosofia de vida é vista em grandes composições
musicais brasileiras como, por exemplo, os Titãs “é preciso saber viver” em partes 
como “Quem espera que a vida / seja feita de ilusão / pode até ficar maluco (...) é
preciso saber viver” destacando a maior lição moral humana afirmada pelo próprio
romano, visível logo nos versos iniciais da Ode “Quando a treta fica séria, trate de
pensar / de saber que tudo passa ...”.
Em suma, pretendia Horácio nesta produção, deixar uma filosofia de vida a qual
se baseia em um rumo incerto no destino dos homens em que nada poderiam se agarrar,
nem as suas luxuosas casas, os prazeres mundanos, tão pouco suas fortunas em vida,
pois, o pouco que se sabe da vida é a sua finitude, justificativa suficiente para que se
tenha uma existência voltada para o agora, isso porque já se sabe que a morte não
reserva um lugar exclusivo aos privilegiados em vida, mas sim, coloca todos sob a
mesma circunstância: no temeroso barco de Caronte. 

 

Nada é mais destemido do que a coragem mundana
Se tu enxergar uma luz, já se vê esperança.
Mas não indague rapaz,
Que a vida te torna capaz.

Se lhe doeu à vida questionar
Não queira pressionar
A procura se faz assim
Também foi dor pra mim

Diga- me, o que te assombra mais,
Viver imerso em dúvidas
Ou castigar-se com obsessões materiais
Ao se perguntar o que o teu futuro traz?

Mas veja lá, é a tua sina
O passarinho canta em meio à calmaria
Amanheceu e eu lhe pergunto:
Tu já viveste mais um dia?
(Graziela Almeida)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
Horace. Horace, Odes and Epodes. Paul Shorey and Gordon J. Laing. Chicago. Benj. H.
Sanborn & Co. 1919.
MENDES, Manoel Odorico. Homero Odisséia. [S. l.: s. n.], 2009. Disponível em:
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/odisseiap.pdf. Acesso em: 19 nov. 2020.
DONÁ, Tarsila de Oliveria Delfine. Métrica e ritmo das Odes de Horácio. 2014.
Dissertação (Letras) - Mestrado, [S. l.], 2014. Disponível em:
https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-08012015-
174011/publico/2014_TarsilaDeOliveiraDelfineDona_VCorr.pdf. Acesso em: 18 nov.
2020.
PEREIRA, Ana Paula de Jesus. O uso das figuras de linguagem. 2009. Dissertação
(Graduação) - Graduação, [S. l.], 2009. Disponível em:
https://www2.jf.jus.br/pergamumweb/vinculos/000020/00002015.pdf. Acesso em: 16
nov. 2020.
ANDRÉ, Carlos Ascenso. A mestria do poeta lírico: notas sobre Horácio (7): Ode
2.3. Impactum, [s. l.], 2009. Disponível em: https://digitalisdsp.uc.pt/bitstream/10316.2/30430/1/BEC%2051_artigo6.pdf. Acesso em: 17 nov.
2020.
Latin Library http://thelatinlibrary.com/horace/carm2.shtml

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1ª aula demonstrativa
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em 21 de janeiro de 2021

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