Racismo e violência de gênero

alguns apontamentos sobre suas manifestações

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Racismo e violência de gênero
Danilo M.
em 22 de Maio de 2019

Em primeiro lugar, quero deixar claro que como homem branco,  não pretendo roubar o local de fala de mulheres e mulheres negras a respeito do tema,  ou seja, elas, diferentemente de mim,  possuem muito mais propriedade para falar a respeito do assunto do que eu,  entretanto, estudando as estatísticas de violência contra mulheres,  a diferença entre a vitimização (não confundir esse termo com a expressão pejorativa 'vitimismo';  vitimização aqui possui o sentido de torna-se vítima de algo, no caso, violência de gênero) entre as mulheres negras e brancas serem distintas serem diferentes, foi um fato que me chamou a atenção.  Dados de 2016 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que enquanto os assassinatos de mulheres negras no período 2006-2016 aumentou 15%,  o de mulheres não negras diminuiu 8%.  

De forma alguma isso significa que as mulheres não negras não sejam assassinadas,  só que aqui revela-se algo que vem desde do período colonial, que é a desvalorização da vida de mulheres negras e 'pardas' (Coloquei entre aspas por conta do termo ser controverso entre as feministas negras e o próprio Movimento Negro) ou mulheres pretas, conforme termo cunhado pelo IBGE ,  nas mãos dos homens.  Sabemos que desde do período colonial,  os senhores de engenho estupravam as escravas , enquanto, por outro lado,  elas também eram vítimas das esposas dos senhores, em termos de torturas físicas. As representações racistas da época e que ainda estão fortemente presentes hoje, nas quais consideravam a mulher negra como um pedaço de carne, desprovida de vontades,  a meu ver, contribuiu fortemente para isso e ainda contribui.  Não por acaso que ainda conforme relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as maiores vítimas de assédio são as mulheres negras, o que demonstra que ,  o homem ainda vê a negra como um 'objeto sexual' (sic).

Sobre a utilização do termo 'branco' e 'homem branco':  É muito frequente a idéia de que quando comenta-se algo a respeito do racismo,  estejam generalizando a população branca, mas, é evidente que nem todo homem é assediador e nem todo branco é racista, porém ,  tanto o machismo quanto o racismo são estruturais,  ou seja, constituíram a base da nossa sociedade desde o período colonial,  e que,  os beneficiados com isso são maiormente os homens brancos,  portanto, é necessário entender que a utilização desses termos generalizantes não é expressão de racismo inverso ou misandria, e sim, representação da realidade. Como podemos, enquanto homens brancos tentar alterar isso?  Escutando a população negra a respeito do racismo e as mulheres brancas e negras a respeito do racismo,  modificando nosso comportamento e,  não sendo conivente com amigos e conhecidos com comportamentos racistas e misóginos e muito menos com colegas agressores.  

Voltando ao tema ,  a forma de extermínio do corpo negro ,  ou genocídio do povo negro, conforme termo utilizado por Abdias do Nascimento em seu livro 'O Genocídio do Povo Negro',  e que encontra forte utilização no movimento negro,  modificou-se um pouco.  O homem negro é vítima sobretudo por partes de agentes do Estado, em áreas públicas, enquanto a mulher negra é mais vitimizada no espaço privado.  Se compararmos com os homens brancos e mulheres brancas,  essa diferenciação de espaço onde o corpo do indivíduo sofre alguma violência se dá de forma idêntica, com a 'pequena' diferença de que homens brancos, em geral, não são vítimas do Estado, e quando o são,  há um outro elemento:  classe social,  enquanto negros e negras sofrem diretamente com o racismo estrutural,  seja em ações policiais ou mesmo em hospitais quando há a recusa de oferecer anestesia para gestantes negras porque supostamente aguentariam a dor. 

Nesse último caso, é um exemplo das mulheres sendo vítimas no espaço público, ou seja,  do racismo estrutural e institucional,  e é outro caso, no qual, os estereótipos prejudicam as mulheres negras. Além disso revelam que violência de gênero não é apenas a violência doméstica. 

Quis evitar entrar no aspecto causal sobre o motivo das mulheres negras sofrerem maiormente com a violência de gênero,  o foco aqui é tentar passar a ideia de que estereótipos e discursos disfarçados sobre piadas não são meramente piadas, não são inofensivos,  mas,  possuem uma carga ideológica muito forte,  que contribui para a perpetuação do racismo e do sexismo estrutural, e, vitimiza mulheres todos os dias. 

Algo estrutural não é derrubado da noite para o dia,  e essa luta - para derrubar a ordem patriarcal e racista-  não deve ser liderada pelos homens, mas sim , pelas mulheres (em relação ao machismo) e negros (em relação ao racismo),  porém ,  o que nós,  que não sofremos com essa estrutura podemos fazer é justamente escutá-los,  e, especialmente, entre outros homens brancos,  reprimir discursos que 'violentam' a existência do outro. 

Liberdade de expressão é algo fundamental sim ,  porém,  quando ela está fundada sobre a dor de outro (LGBTs,  Mulheres, Negros...)  , acaba sendo algo raso.  Discordâncias fazem parte,  desde que com argumentos e não com sátiras.  

Por último,  ensinar a respeitar o outro não é doutrinação, é apenas a tentativa de criar uma sociedade melhor. O mundo seria muito melhor se as pessoas se preocupassem mais com suas próprias vidas e em desenvolver a sociedade do que com o que o outro é/faz ou deixa de ser/fazer (Não me refiro nesse último ponto a coisas ilegais por lei, evidentemente,  pois,  nesse caso ,  o indivíduo está prejudicando o coletivo, o que também não é válido). 

Mauá / SP
Graduação: Ciências Contábeis (Universidade Metodista de São Paulo)
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