
CRASE

em 17 de Novembro de 2024
https://prensali.substack.com/p/leituras-em-espera-uma
LEITURAS EM ESPERA: uma topologia
Na pauta de debates sobre a leitura não são consideradas as questões da diversidade dos objetos e dos modos difusos do ato de ler. Na verdade, mesmo a leitura sendo encontrada em diferentes lugares – às vezes, inusitados – a representação dessa prática cultural é somente a delineada pela tradição letrada que lhe atribui valores e aparatos concretos e simbólicos restringindo-a a uma determinada classe social.
No entanto, basta um olhar mais atento para constatarmos a existência de muitas formas de se ler diferenciadas do modelo irradiado pela cultura de prestígio. Encontramos leitores em banco de praças e de jardins, em bancas de jornal e revistas, em filas ou no interior de transportes coletivos, em bibliotecas públicas, nas esperas de atendimento, em guaritas, em salas de embarque, hospitais, cadeias e até em elevadores. Todos esses espaços sociais, entretanto, são pouco considerados, quase invisíveis em importância social por não corresponderem ao modelo ideal de ler.
A constatação dessa lacuna desautoriza as perenes análises sobre a leitura no Brasil porque exila o aspecto político-econômico que caracteriza a leitura como prática cultural. Assim, na fresta de um processo de exclusão social, entretecendo-se com as formas de leitura aceitas pela ordem representativa, essas variadas formas de se ler, materializam-se revelando caminhos de ruptura de uma representação de leitura no Brasil anacrônica e insuficiente reorganizando-a de maneira mais real e garantindo mais eficácia nas intervenções pedagógicas e governamentais.
Além disso, as campanhas de incentivo à leitura veiculam mensagens como a de que ler transforma o leitor em uma pessoa mais feliz e completa sem levar em conta a inserção social dos leitores, ignorando que nem todos têm acesso aos bens culturais.
Portanto, a diversidade dos lugares de leitura – assim definidos em função de sua prática - deve constar em qualquer debate democrático para que nossa atuação e intervenção, nas diversas instâncias em que ela é tratada, não sejam inócuas e inoperantes.