Redação Enem: como definir seu ponto de vista e escrever uma introdução nota 1000.
Mateus B.
em 07 de Março de 2016

Nesse post você vai aprender como definir uma tese para desenvolver uma redação nota 1000 no Enem.

  Talvez um dos problemas que mais “travam” os alunos no momento de escrever suas dissertações seja aquela velha orientação que muita gente repete equivocadamente por aí: de que na dissertação você não pode dar “sua opinião”. O resultado disso é que o aluno não consegue definir sua tese e o desenvolvimento do texto fica prejudicado, uma vez que a tese é o eixo estruturador da argumentação. Afinal, como desenvolver argumentos, se não se sabe qual ponto de vista está sendo defendido?

  De acordo com o Guia da Redação Enem, publicado pelo INEP em 2013, a prova de redação exigirá a produção de um texto de aspecto dissertativo-argumentativo:  apresentação de um ponto de vista sobre o tema proposto e sua defesa a partir de recursos como explicações, citação de exemplos e desenvolvimento de análises. Como a argumentação - e não a figura do autor – é o que deve ficar em primeiro plano, a linguagem deve ser impessoal, sem marcas de subjetividade.

  Nesse sentido, qual é a frase que tem maior impacto: “A publicidade infantil deve ser proibida” ou “Na minha opinião, a publicidade infantil deve ser proibida”? A primeira frase apresenta a tese de forma mais objetiva, de modo a garantir seu valor universal, enquanto a segunda particulariza a figura do emissor, fazendo com que sua tese fique mais suscetível a questionamentos.

Juízos de fato e juízos de valor

  Sabendo então que, na redação do Enem, devemos defender uma tese empregando uma linguagem impessoal, é importante entendermos as diferenças “juízo de fato” e “juízo de valor”, dois conceitos com os quais, muitas vezes, os alunos se confundem. Por exemplo, dizer que, “com base em estatísticas, observa-se um aumento do feminicídio no Brasil” ou que “a maioria dos casos de violência contra a mulher ocorre no ambiente doméstico, pois 7 em cada 10 crimes desse tipo são cometidos por companheiros das vítimas” é restringir-se à ação de “afirmar”.

  Tais sentenças são constituídas por “juízos de fato”, ou seja, informações que podem ser verificadas e comprovadas e, por isso, não há como posicionar-se contra ou favor delas. Essas informações podem ser aproveitadas no desenvolvimento do texto para dar sustentação aos argumentos. O problema é quando o aluno as utiliza como se fossem uma tese: aí não tem jeito, o aspecto argumentativo requerido não aparece, o que acaba jogando a nota para baixo.

  Mas como garantir, então, que o texto tenha esse aspecto argumentativo? Nesse caso é fundamental elaborar “juízos de valor” sobre a questão apresentada. É importante ter em mente que, se o tema foi abordado pela proposta é porque há um debate social cheio de controvérsias em relação a ele. Assim, há vários pontos de vista sobre a questão e argumentar é eleger um desses pontos de vista e convencer o leitor que ele é o mais oportuno, o mais justo, o mais relevante e socialmente responsável.

Como elaborar a tese

  Para que isso fique mais claro, vamos dar uma olhada na introdução de algumas redações do Enem que tiveram nota máxima e analisar como seus autores elaboraram seus juízos de valor - as teses – em relação à questão apresentada.

Dissertação 01: Equilíbrio Aristotélico (Raphael de Souza, Rio de Janeiro)

  Ao longo do processo de formação do Estado brasileiro, do século XVI ao XXI, o pensamento machista consolidou-se e permaneceu forte. A mulher era vista, de maneira mais intensa na transição entre a Idade Moderna e a Contemporânea, como inferior ao homem, tendo seu direito ao voto conquistado apenas na década de 1930, com a chegada da Era Vargas. Com isso, surge a problemática da violência de gênero dessa lógica excludente que persiste intrinsecamente ligada à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social. (Raphael de Souza. Disponível em: http://guiadoestudante.abril.com.br/vestibular-enem/estudante-tirou-1000-duas-vezes-redacao-dicas-ir-bem-enem-932702.shtml)

 Nessa introdução, o autor, Raphael de Souza, optou por elaborar uma estratégia de contextualização a partir do percurso histórico. Ele menciona que a formação do Estado brasileiro consolidou o pensamento machista e cita como o exemplo a conquista do voto feminino apenas na década de 30 (vale notar o bom uso do termo ‘apenas’ que chama a atenção para o fato desse direito ter sido conquistado tardiamente). Até esse ponto, o autor trabalha com juízos de fato: a tese aparece no terceiro período do parágrafo, quando Souza relaciona o “pensamento machista” e a persistência da “problemática da violência de gênero” no país, apontando a insuficiência das leis e a lenta mudança da mentalidade social como causas desse problema.

Dissertação 02: Sem título (Antônio Ivan Araújo- Ceará).

  A publicidade infantil movimenta bilhões de dólares e é responsável por considerável aumento no número de vendas de produtos e serviços direcionados às crianças. No Brasil, o debate sobre a publicidade infantil representa uma questão que envolve interesses diversos. Nesse contexto, o governo deve regulamentar a veiculação e o conteúdo de campanhas publicitárias voltadas às crianças, pois, do contrário, elas podem ser prejudicadas em sua formação, com prejuízos físicos, psicológicos e emocionais.(Redações que tiraram nota máxima no Enem. Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/05/leia-redacoes-do-enem-que-tiraram-nota-maxima-no-exame-de-2014.html)

  Nessa dissertação, Antônio Ivan Araújo optou por abordar o problema diretamente, mencionando o peso econômico da publicidade infantil nas vendas de produtos e serviços direcionados às crianças. Em seguida, contextualiza o leitor sobre os diversos interesses envolvidos no debate que tem sido feito no Brasil sobre esse tipo de publicidade. Até esse ponto, o que temos são juízos de fato: aspectos informativos que contextualizam a questão a ser abordada. É no terceiro período do parágrafo que o autor expõe seu ponto de vista de modo contundente afirmando a necessidade de uma regulamentação da publicidade infantil por parte do governo sob o risco de as crianças sofrerem prejuízos físicos, psicológicos e emocionais em seu processo formativo.

Dissertação 03: Amor à venda (Maria Isabel Viñas -Rio de Janeiro).

  A vitória do capitalismo na Guerra Fria gerou muitas consequências para o mundo, sendo uma delas a competição desenfreada das multinacionais por novos mercados. Um dos principais alvos desse cenário são as crianças, indivíduos facilmente manipuláveis devido a sua pequena capacidade de julgamento crítico. Sua inocência é, dessa forma, cruelmente convertida em lucro, fato que não deve ser permitido nem tolerado. (Redações que tiraram nota máxima no Enem. Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/noticia/2015/05/leia-redacoes-do-enem-que-tiraram-nota-maxima-no-exame-de-2014.html)

 Em sua introdução, Maria Isabel Viñas já deixou bem claro a que veio. Partindo do contexto capitalista pós-Guerra Fria, a autora aponta que a “competição desenfreada das multinacionais por novos mercados faz das crianças seu principal alvo. Assim, a tese é construída no segundo e no terceiro período do parágrafo: primeiramente ela afirma que as crianças são um dos principais alvos do capitalismo devido a sua reduzida capacidade de julgamento, o que faz com que sua inocência seja explorada em nome do lucro; em seguida, se posiciona dizendo que tal prática não deve ser permitida nem tolerada. Vale ressaltar o uso dos advérbios (indivíduos facilmente manipuláveis e inocência cruelmente convertida) como formas de se marcar posição.

  Nos três casos, observamos que os autores foram além da mera reprodução das informações da coletânea e não se restringiram somente ao ato de afirmar. A partir do recorte do temático, dos textos apresentados e de seu repertório cultural, foram capazes de elaborar um ponto de vista, seja apontando causas da persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira, no caso do texto 01, ou denunciando a exploração das crianças pela publicidade e apontando ações a serem tomadas, como nos dois outros textos.

  Dica: A partir da leitura atenta da coletânea da proposta de redação do Enem, procure levantar os pontos de vista envolvidos no problema e, a partir de seu conhecimento de mundo (veja o meu post “5 razões para se tornar um leitor hoje mesmo”), defina como você se posiciona em relação ao assunto, isto é, diante de toda a discussão em torno do tema, qual o ponto de vista que te parece mais lógico, justo, aceitável? Pronto, você encontrou sua tese! A tarefa agora será levantar os argumentos para defendê-la, mas isso é assunto para o próximo post.

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