Uma breve discussão sobre os efeitos de enquadramento

Economia Microeconomia Básico
Uma breve discussão sobre os efeitos de enquadramento
Ricardo Cataldi
em 30 de Agosto de 2014

Hoje, o post será mais sério.

Me peguei, ao ler um texto clássico sobre enquadramento em decisões (Rational Choice and the Framings of decisions, Tversky & Kahneman), filosofando sobre a existência ou não de uma lógica do tipo \mathbb{A} \Rightarrow \mathbb{B} (preposição A implica em conclusão B) sobre a possibilidade de que os enquadramentos sejam observáveis em três sentidos: invariáveis, variáveis ou perfeitamente variáveis.

Não vou detalhar muito, mas seria, como no texto eles dizem não ser possível, uma forma de concatenar uma análise positiva e normativa, imbuindo na teoria econômica a capacidade de avaliar como alteram-se as escolhas quando existem enquadramentos, da forma mais genérica possível. É provável que a maioria de vocês não conheça a literatura de Análise Matemática e Economia Comportamental a ponto de saber do que estou falando, então tentarei ser bem simplista sobre os diversos conceitos envolvidos aqui.

Primeiro, o enquadramento nada mais é do que a forma como uma possível escolha é apresentada ao indivíduo. O exemplo clássico é o enquadramento de sobrevivência / morte no tratamento de câncer de pulmão:

  1. Enquadramento de Sobrevivência:
    1. De 100 pessoas que são tratadas por cirurgia, 90 estarão vivas no período pós-operatório, 68 estarão vivas ao final do primeiro ano e 34 estarão vivas ao final do quinto ano.
    2. De 100 pessoas que são tratadas por terapia de radiação, 100 estarão vivas após o tratamento, 77 estarão vivas ao fim do primeiro ano e 22 estarão vivas ao fim do terceiro ano.
  2. Enquadramento de Morte:
    1. De 100 pessoas que são tratadas por cirurgia, 10 morrem durante a cirurgia ou durante o pós-operatório, 32 estarão mortas ao fim do primeiro ano e 66 estarão mortas ao fim do quinto ano.
    2. De 100 pessoas que são tratadas por terapia de radiação, nenhuma estará mortas após o tratamento, 23 estarão vivas ao fim do primeiro ano e 78 estarão mortas ao fim do quinto ano.

Esta pergunta, feita e refeita durante pelo menos 30 anos, mostra que, apesar de os resultados serem rigorosamente os mesmos, 18% das pessoas preferiam o tratamento com terapia de radiação no enquadramento de sobrevivência, e 44% preferiam o mesmo tratamento no enquadramento de morte - ou seja, 26% das pessoas mudaram de opinião só por enquadrar as opções de forma diferente. Estranho, não? Este é um dos temas do livro "Nudge" (Thaler & Sunstein) e "Thinking, Fast and Slow" (Kahneman), e mostra que as decisões individuais dependem da forma como as pessoas enxergam as opções, algo que não é considerado na teoria da escolha dos livros básicos (que, diga-se de passagem, não foi desenhada para isto, muito porquê este tipo de questionamento nem existia quando ela foi desenhada, e dá muito trabalho colocar uma versão mais nova para ensinar na graduação).

Obviamente, não existe apenas essa diferença de enquadramento. Existem diferenças, por exemplo, ao enquadrar marcas e preços, dependendo da informação que você tem. Um bom exemplo cotidiano são as marcas: você enquadra os preços destas como refletindo produtos melhores ou maior demanda? As duas possibilidades são plausíveis e o preço pode em nada relacionar-se com a qualidade dos produtos.

O que aprendemos é que os enquadramentos importam. Neste caso, não seria interessante ter uma teoria que os considere? Como fazê-lo?

A versão mais simples da teoria da decisão engloba apenas uma definição, a de relação de preferências. O problema é que uma "relação" é um objeto matemático básico, como a igualdade (=) ou o maior que (>), e a relação de preferências (\succsim) diz que um bem é preferível a outro (lembrando que esta é uma definição completamente individual, que muitos estrapolam como conceito para escolha social mas não foi desenhada para isto).

Não quero discutir toda a teoria econômica da escolha aqui, mas incluir os efeitos de enquadramento nas deciões individuais, neste arcabouço, parece não precisar de um esforço ou modificações significativas. A forma mais simples é colocar uma dimensão a mais nos bens, refletindo a forma como eles são enquadrados pelos indivíduos. Neste caso, os enquadramentos comporiam uma dimensão das decisões na qual os indivíduos ordenam as informações que têm sobre os bens, e não as características dos bens em si, enquando a outra dimensão responde por esta característica das decisões. Assim, basta desenhar uma relação de preferências que consiga captar o impacto do enquadramento na preferência individual, e portanto nas decisões que os indivíduos fazem.

Bem, o que pensei foi definir um espaço no qual estes enquadramentos farão a diferença. Pense o seguinte: se enquadrarmos uma opção de forma suficientemente diferente de outra, teremos uma preferência diferente pelos bens. Se eu enquadrar a diferença de preços como uma amostra de demanda, e associar aquele consumo a um grupo de pessoas com o qual você não se identifique, você provavelmente mudará sua opinião sobre aquele bem, mesmo que as características dele antes e depois da mudança sejam as mesmas. Logo, defino a seguinte relação de preferências para um conjunto de bens X \subset \mathbb{R}^{2}:

\succsim_{\delta} := \big\{(\mathbf{x}_i, \mathbf{x}_j) \in X \times X | \big[[x_{i,f} \in B_{\delta}[x_{j,f}]] \Rightarrow x_{i,c} \succsim x_{j,c} \big] \big\}

Dizendo que, se eu tenho o framing suficientemente longe de outro (representados pelos x com f embaixo), faço com que um bem seja preferido a outro por suas características. Minha filosofia de hoje foi justamente nisto. Será que isto é verdade? Por lógica, eu tenho que se a distância for suficiente, então eu passo a preferir com base nesta distância. Mas também tenho que, se eu não preferir, então a distância não foi suficiente, ou ela não existe. Ainda, eu posso preferir mesmo que a distância não existe, ou que ela não seja suficiente.

Meu exercício filosófico me leva a crer que esta é uma boa hipótese e, por isto, compartilho ela com vocês. Lógico que existe um raciocínio mais profundo por trás desta discussão, com argumentos mais técnicos, mas acho interessante mostrar a vocês - muitos dos quais alunos de graduação - que aquela teoria que vocês aprendem em Microeconomia 1 tem desdobramentos incríveis, e você só vai entender estes desdobramentos se entender bem a teoria.

São Paulo / SP
Mestrado: Matemática Aplicada (Universidade de São Paulo (USP))
Sou graduado em Economia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Mestrando em Matemática pela Universidade de São Paulo. Fui monitor de Microeconomia durante a graduação e monitor de Microeconomia e Teoria dos Jogos durante o Mestrado. Acho importante que os as pessoas aprendam, mas entendo que cada um tem sua forma, seu ritmo e seu estilo de aprendizado. Por isto, procuro me adaptar ao estilo do aluno, trazendo não ...
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