O SÉTIMO SELO
Marcelo Maia
em 26 de Janeiro de 2015

    O medo da morte é algo que todos os seres humanos tem em comum e nos forçamos a aceitá-la, porque sabemos que é impossível evitá-la. Há tempos, o ser humano vem tentado prolongar sua existência cada vez mais através da ciência e/ou se confortando, através da crença, pregada pela maioria das religiões, de que viverá eternamente em um mundo além.
Pensar que um dia deixará de existir, causa ao ser humano frustração e pavor, criando nele a necessidade de buscar uma “realidade” além da que se vê. O homem tende a acreditar que há um sentido na vida e para isso é necessário que ela continue após a morte. Pois, se tudo termina com a morte, que sentido há em viver?
     Em “O Sétimo Selo”, um cavaleiro medieval ao se deparar com a morte, propõe a esta um jogo de xadrez, com a intenção de ganhar tempo para encontrar um sentido para vida.
Quando se apresenta, A Morte diz a Block que anda ao seu lado há muito tempo. Afinal, a morte é algo iminente desde que uma vida se forma. No entanto, enquanto corpo se prepara naturalmente para a morte desde sua concepção, nossa consciência não a aceita tão fácil. É, exatamente isso, que o cavaleiro quer dizer quando responde que seu corpo está preparado para o fim, mas ele não.Esse conflito entre a vontade da consciência e a incapacidade do corpo de satisfazer tal vontade cria no homem um sentimento niilista, que o faz negar esta vida em prol de uma existência eterna no além.
A consciência humana não aceita ser apenas uma parte do físico perecível. Ela quer transcender a isso, quer superar sua própria natureza. Enquanto alguns se apegam á crença na  vida após a morte, outros buscam uma maneira de prolongar sua existência ou até mesmo alcançar eternidade aqui mesmo, através da ciência. Todos querem solucionar o problema que é única certeza da vida e nossa maior frustração; o fim.
    Block tenta vencer a morte em um jogo de xadrez, mas no fundo sabe que isso é impossível. Sendo assim aproveita o pouco tempo que lhe resta para tentar descobrir se há algum objetivo para a vida, além de seu fim.
     A religião e os aspectos da religiosidade são temas bastante questionados no filme de Bergman. Block, várias vezes questiona a existência de Deus e qual o objetivo da fé. Quando, ele encontra com uma mulher que está prestes a ser queimada na fogueira, por supostamente ter se envolvido com o Diabo, o cavaleiro se aproxima dela para saber se ela tem conhecimento de Deus. Afinal, se ela teve contato com o Diabo, soubesse também sobre o Criador. Porém, ao questioná-la, não encontra as respostas que procura e a “possuída”, é mais um bode expiatório para justificar a incompetência da ciência, da política e da igreja que não conseguem descobrir a causa da peste e muito menos uma solução para o problema. Enquanto Block não aceita a falta de respostas para seus questionamentos e continua a procura de Deus e/ou do Diabo, o escudeiro Jon acredita que só há o vazio, tanto para nos proteger quanto nos atormentar.
    Paralelamente aos questionamentos de Block e sua busca por um sentido na vida, uma companhia de teatro mambembe parece indiferente ao cenário caótico e sombrio da época. Contrapondo se ao sofrimento, amargura e angústia dos demais personagens, os atores da trupe são alegres, amam e têm a arte como escudo diante da nonsense da vida e da certeza da morte. Seria a arte, o único meio de superar a vontade, que é a fonte de todo sofrimento humano como acreditava Schopenhauer? No caso do filme, a vontade de encontrar sentido na vida e encarar (ou seria ignorar?) a morte. É como disse Nietzsche “temos a arte para não morrer ante a verdade”.
    Já Camus não acredita que a arte oferece uma saída para o mal do espírito, mas é um dos sinais deste mal, e ela (a arte) nasce da renúncia de raciocinar o concreto. Ou seja, tanto para Schopenhauer como para Nietzsche e Camus, a arte nada mais é que um artifício usado pelo ser humano para dá sabor à uma natureza insípida.
E, enquanto Block percebe a insipidez e parte em busca de encontrar um sabor concreto para a existência, e seu escudeiro Jon aceita que vida não tem finalidade alguma, os integrantes da companhia de teatro vivem felizes e amando, alheios tanto à peste quanto aos questionamentos racionais sobre a vida.Então, se a arte não é uma saída para o mal, como diz Camus, é no mínimo, um meio de se proteger dele, assim como o guarda-chuva que não impede a tempestade, mas evita que nos molhemos totalmente.
   Se a arte pode ser comparada a um guarda-chuva em um dia de tempestade, a ingenuidade se assemelha a uma casa bem construída, onde nenhuma gota de chuva cai, mas a tempestade continua destruindo o que está do lado de fora. É essa ingenuidade que permite que a família mambembe seja feliz, tendo a desgraça ao seu redor. Jof, um dos integrantes da trupe, é o único personagem que enxerga o sagrado, através de suas epifanias e também percebe que a morte é a adversária de Antonius Block no jogo de xadrez. No fim, apenas ele, sua esposa e o filho escapam da morte e seguem a vida, sem se importarem se a existência tem ou não sentido. É como diz a canção; “estamos vivos e é só”. E é isso que importa para Jof e sua família; estarem vivos, “sem motivos, nem objetivos”.
   Block, ao perceber que perdeu o jogo e que será levado pela morte implora pela presença e ajuda de Deus. Jon, em seu ceticismo, diz ao cavaleiro que não há ninguém para ouvir suas lamentações e súplicas, e apenas a indiferença e a escuridão os espera.O cavaleiro e seus amigos percebem que quando “ela” chega, não há como escapar e o jeito é segui-la Mas, para onde? Para o Paraíso cheio de recompensas, para o Inferno e seu eterno castigo, para o vazio da inexistência ou continuamos sem respostas?
   Bergman, não tem a intenção de difamar a fé e a religião, mas sim questionar o papel de ambas em meio as desgraças da humanidade. Afinal, a função da fé e da religião é paliativa, acusadora e punitiva ou, realmente, solucionadora? O cineasta também parece não ter a intenção de mostrar a vida, através do pessimismo, mas mostra-la sob vários pontos de vista. Block é  homem que acredita que a vida possa ter sentido, e sai nessa busca. O escudeiro Jon,  aceita a nonsense da existência e em alguns momentos sente medo do vazio. E o ator Jof e sua família, têm a arte, o amor e a inocência como um remédio para os males da existência. E isso basta para eles.

Ribeirão das Neves / MG
Graduação: Llicenciatura em Filosofia (CEUCLAR)
Sou licenciado em Filosofia,pelo Centro Universitário Claretiano. Concluí o curso no final de 2014 . Desde os 16 anos dou aulas particulares de reforço em várias matérias dos Ensinos Fundamental e Médio. Como sou formado em Filosofia,tenho permissão para lecionar,também,História e Sociologia. Ensino também inglês, principalmente pronúncia e formação de frases. No Profes, ensino História e Filosofia.
Filosofia - Geral, História Geral, História do Brasil
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