A busca por outros mundos e o mistério do lítio
Durante séculos, a ciência lutou para superar a visão mística de que a Terra era o centro do Universo. Mais recentemente, levou algum tempo até que os próprios cientistas reconhecessem que outras estrelas, além do Sol, também poderiam abrigar planetas. Hoje, com centenas de exoplanetas já descobertos, essa realidade está cada vez mais evidente — e o número de descobertas tende a crescer rapidamente.
Graças a novas técnicas e instrumentos como a sonda espacial Corot e o telescópio Kepler, a identificação de planetas fora do Sistema Solar tornou-se mais precisa. Até mesmo dados antigos do telescópio Hubble têm revelado novos mundos. Mas um avanço surpreendente veio da análise direta das estrelas: agora é possível identificar sistemas planetários observando apenas a composição química da estrela, sem depender do trânsito dos planetas.
O enigma do lítio
Pesquisadores do Observatório Europeu do Sul (ESO) descobriram uma relação intrigante entre a presença de planetas e a quantidade de lítio nas estrelas. Segundo Garik Israelian, um dos autores do estudo, estrelas semelhantes ao Sol que possuem planetas tendem a apresentar uma concentração muito baixa de lítio — um elemento que, por décadas, intrigou os astrônomos por estar em quantidade reduzida no próprio Sol.
Após analisar mais de 500 estrelas, incluindo 70 com planetas confirmados, os cientistas constataram que essas estrelas têm menos de 1% da quantidade de lítio encontrada em estrelas sem planetas. A hipótese mais aceita é que a formação de planetas interfere nos movimentos internos da matéria estelar, provocando a destruição do lítio. Embora os mecanismos exatos ainda estejam sendo estudados, essa descoberta oferece uma nova ferramenta para identificar estrelas promissoras na busca por exoplanetas.
Um elemento primordial
O lítio é um dos poucos elementos leves que não são produzidos em grande quantidade nas estrelas. Composto por três prótons e quatro nêutrons, acredita-se que tenha sido formado nos primeiros instantes após o Big Bang. Por isso, sua presença — ou ausência — pode revelar muito sobre a história de uma estrela e seu sistema planetário.
Novos caminhos para a exploração
Independentemente da explicação definitiva, a correlação entre a baixa concentração de lítio e a presença de planetas abre uma nova frente de pesquisa. Essa técnica, mais rápida e econômica, poderá ser integrada aos métodos já existentes, refinando a seleção de estrelas candidatas e acelerando a descoberta de novos mundos.
Bibliografia:
Enhanced lithium depletion in Sun-like stars with orbiting planets
Garik Israelian, Elisa Delgado Mena, Nuno C. Santos, Sergio G. Sousa, Michel Mayor, Stephane Udry, Carolina Domínguez Cerdeña, Rafael Rebolo, Sofia Randich
Nature
12 November 2009
Vol.: 462, 189-191
DOI: 10.1038/nature08483