Aprendendo a ser Feliz com Aristóteles
Rafael Fonseca Santana
em 08 de Agosto de 2014

Será que todo mundo sabe o que quer dizer quando alguém diz “fulano de tal é uma pessoa ética”?
Ou “fulana tem caráter”, ou ainda “isto dai vai contra minha ética”?
A gente escuta esse tipo de coisa todo dia e quase nunca para pra se perguntar o que isto quer dizer. É como eu digo para meus alunos de filosofia do ensino médio, existe uma ciência do caráter de cada pessoa e essa ciência se chama Ética. E para entender melhor o que seria isto vamos ao pai desta, esse grande filósofo chamado Aristóteles. Esse cara escreveu somente mais de 400 obras, pouquinha coisa não? No entanto só temos acesso a 47 destas obras, pois o resto se perdeu durante o tempo ou foram queimadas na inquisição. E destas 47, 3 são sobre a Ética. São elas: Etica á Eudemo, livroÉtica Maior e Ética a Nicômaco. Esta última é a mais completa de todas e contém as outras duas nela. Mas primeiro vamos entender quem foi esse cara que se tornou um dos maiores filósofos já conhecidos na história da filosofia.

Bem, Aristóteles nasceu em 384a antes de J.C. na cidade de Stágyros, região da Macedônia, onde hoje é a cidade de Stavra. Seu pai era médico do rei e se chamava Nicômaco, mas não é esse Nicômaco a quem dedicou sua maior obra de Ética, este, da obra seria seu filho que viria mais tarde. Pessoal, como vemos aqui, Aristóteles não era cidadão de Atenas, ele era um estrangeiro, meteco (metoikós) e por isso ele não podia participar das escolhas politica de Atenas, a capital do mundo antigo. Somente aquele que nasceram nela, e era homem, livre, e possuía terras, ai sim era considerado Cidadão (Polités) da Polis, Cidade-Estado, e poderiam participar das assembléias. Mas professor, o que é essa Cidade-Estado? Bem, é uma cidade auto-suficiente, autárquica, como um país hoje. E quem não era dessa cidade era meteco. E somente os cidadãos dessa Polis é poderiam fazer a Politéia, ou seja, a constituição que organiza aqueles que vivem na Polis, e que depois, esta constituição se chamou república. Vocês vão ver por ai quando pesquisarem, que Aristóteles disse que o homem é um “animal político” mas o que é isso? Um animal que faz política? Não é bem isso. Quando ele diz que o homem é um animal político por natureza (physei politikon zoon) ele esta dizendo que o homem não consegue viver sozinho, não é auto-suficiente, ele precisa de amigos, precisa da Pólis, precisa da sociedade, por isso traduziríamos melhor por animal social por natureza, pois corresponde mais ao sentido original.
Mas qual o objetivo de Aristóteles em formular uma ciência do caráter da pessoa, a ethiké. Aristóteles estava preocupado com os fins das coisas, que tudo tendia para um determinado fim (teleologia), este fim sempre seria um determinado Bem. Então deveria haver um fim para todas as coisas, um Bem supremo. Ele chegou a conclusão que este fim ou o Bem Maior é a felicidade,a eudaimonia. E a finalidade da vida é o fruir desta felicidade. A Felicidade provem de um agir correto, virtuoso. E o que vai garantir a felicidade do individuo é a ciência de seu modo de agir, aqui no caso a ética. E depois ele vai colocar a ciência política é a responsável em garantir a felicidade dos indivíduos da Polis. Esse agir correto, virtuoso estaria condicionado a uma sabedoria humana diferente da virtude intelectual, teorética, essa sabedoria é a Phronesis, que significa prudência, habilidade é a virtude moral e ela está ligada a sabedoria pratica (práxis) ou seja, da ação. E a outra, a virtude intelectual, a sapiência, é teorética, trabalha com as realidades acima do homem, como a metafísica que são aquilo que está além do vemos na natureza, a essência das coisas. O sábio tem quer ser virtuoso nas duas sabedorias, isto é o que ele chama de dianoética, viu gente? Estão entendendo até ai? Tem uma terceira sabedoria a poiesis que esta ligada a produção, mas esta agente vai ver no próximo bimestre, aqui interessa somente essas duas por enquanto. Enquanto a virtude intelectual teoriza, planeja a virtude moral realiza. A virtude que agente está falando aqui é a virtude do bem agir, um alto grau de perfeição, em grego é areté, mas alguns tradutores colocam excelência que traduz melhor o sentido original. Mas dá para entender quando eu digo virtude não é? Mas com se dá essa virtude moral? Se ela não é sabedoria intelectual então com pode ser? Bem ela parte do principio que é adquirida com tempo, com a ação, com um costume pelos hábitos certos e corretos. Não há como prever racionalmente a maneira correta em cada situação, ela passa pela percepção e memória de atos anteriores. Por isso Aristóteles diz que só pode ser um filósofo um homem que já viveu bastante e provavelmente passou dos 50 anos, por que ele tem experiência na bagagem e sabe agir correto, sabiamente, e os jovens não podem ser por que são motivados pelos seus impulsos, por suas paixões, não estão interessados em agir retamente. Quando Aristóteles fala da busca da felicidade por prazer ele coloca o prazer como uma felicidade momentânea e que esta pode trazer um vicio, e o vicio é um desprazer. Aristóteles diz que a virtude moral é antes de tudo uma vitória da razão sobre os instintos. Nietzsche defende uma posição contraria a essa, de que a felicidade é libertar seus instintos, agir por instintos e que a razão tolhe o homem de ser feliz. Mas, como agir de forma correta como Aristóteles está colocando? Bem, vemos que em determinadas situações o homem peca pela falta ou excesso em suas atitudes, e a causa disto é suas (hybris) paixões que tem e sentimentos que enfrenta em determinadas situações. O agir correto estaria num meio-termo entre eles, Mesotés, a mediana, uma medida correta. Esta medida não é como uma medida matemática. Depende de cada situação. Igual ao homem quando vai comer, a comida de um atleta e diferente da comida de um obeso fazendo dieta, e estas duas é muito diferente da comida de uma pessoa que tem uma vida normal. As situações também variam, há momentos em que você deve exceder um pouco mais, e há exemplos em que você deve faltar um pouco mais. No caso de uma guerra por exemplo. O soldado não pode ser totalmente covarde por que senão perde a guerra, e nem pode sair como um louco imprudente tomando a frente pois a chance de se levar um tiro e morrer é muito mais alta. Ele tem que ser corajoso para enfrentar o inimigo, mas tem que saber a hora certa de recuar e de atacar. Ë a mediana. Aristóteles coloca 10 tipos virtudes morais. Vamos observar aqui apenas cinco, só para termos um idéia melhor.

1º Coragem (andreia) falta = medroso / excesso = temerário
2º Temperânça (sofrosíne) falta=insensível/ excesso=concupiscência
3º Liberalidade (eleuteriótes) falta = avareza /excesso=prodigalidade
4º Calma (praotés) falta = pacato / excesso = irascível
5º Modéstia (aidémôón) falta = despudorado /excesso = acanhado

Aristóteles ainda dedica um capitulo inteiro sobre a virtude da justiça (dicaiosíne), para ele esta é a mais completa das virtudes. Notem que a virtude moral é uma faca de dois gumes, ou ela te traz prazer ou traz sofrimento. Sofrimento por não conseguir agir da maneira correta que lhe traria a felicidade. A virtude moral pressupõe que sua atitude seja praticada mediante uma escolha previamente deliberada. Há um pensamento antes de agir em que você reconhece os limites, relembra outros fatos, percebe a situação atual e então age. O que está ciência pretende fazer é com que o homem aprenda a ser feliz, criando um habito de ser feliz.

FR-Uni Aristoteles 4eck

Belo Horizonte / MG
Especialização: TEMAS FILOSOFICOS (UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais)
Professor Bacharel Licenciado em Filosofia pela PucMinas, Pós Graduado em Temas Filosóficos pela UFMG e pós graduando em Psicanalise Clinica.
Filosofia - Geral
Oferece aulas presenciais
R$ 34 / aula
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