O PROBLEMA DO SOFRIMENTO HUMANO
Alcides B.
em 13 de Outubro de 2020

INTRODUÇÃO


O problema do sofrimento é sem dúvidas um dos maiores dilemas que permeia a existência humana. Isso por que, as respostas não atende às expectativas racionais e muito menos consola os indivíduos no momento da sua dor. Pior ainda, quando este é religioso a situação torna-se ainda mais problemática ao ver em Deus um meio de respostas e solução instantânea no que tange ao sofrimento. Em busca de respostas, a filosofia antiga e moderna tentou de vários modos, compreenderem o sofrimento humano, a teologia nas suas diversas abordagens e desdobramentos confessionais já tentaram compreendê-lo dando lhe um sentido existencial, humanístico ou teleológico. A psicologia, por décadas de atividade prática, também encarou e dialogou com a face do homem sofredor que luta por uma vida sã e tranqüila é o que afirma (GUIMARÃES, 2012).


A realidade do pecado é irrevogável e mostra distorção do projeto original do Criador, para sua criatura, que por meio de um elemento racional foi introduzido o sofrimento humano, de acordo com a teologia bíblica foi o juízo de Deus e conseqüentemente a sanção punitiva de Deus (Gn 3.11-19), que permitiu o sofrimento humano e suas conseqüências na existência. Esta sentença golpeia o homem, a criação (humanidade), narrados como Adão e Eva, foram expulsos do paraíso (Jardim do Éden), restando a estes uma vida de miséria, destinada a morte, dor e sofrimento, como resultado da quebra da comunhão com o seu Criador. Norteia a lógica desta pesquisa à narrativa do livro de Jó, evidenciando como a relação com Javé ocorreu nos dias do seu sofrimento, onde evidenciado como o patriarca manteve a fé e esperanças Nele, mesmo acometido por amargura e perplexidade a um nível extremo, onde o sofrimento passa a levá-lo a recusar-se a aceitar toda e qualquer teoria racional para tentar explicar suas perdas e infortúnios de sua
existência.


Inicialmente, a narrativa apresenta uma problemática que norteará todo o livro de Jó. No decorrer da história, os eventos começam com afirmação que o Patriarca Jó era um servo íntegro, honesto e excessivamente temente a Javé, o que se mostrará como processo contraditório. Tudo porque, observado por uma visão geral da história, o autor narra os eventos apartir de uma simulação que a corte celestial decidiu submeter um homem à prova. O problema é que esse homem era o Jó, o mesmo que o autor tinha deferido juízo moral, sobre sua conduta perante Javé.


A narrativa do livro expõe que primeiro ele vê todos os seus bens serem tirados (Jó 1,13-17). Depois morreram todos os seus filhos (Jó 1.18-19). Na seqüência de perdas, a própria saúde é tirada dele (Jó 2,4-8), mas o personagem continua demonstrar muita maturidade e confiança no seu Deus, atribuindo a Ele todos os feitos bons, como os que lhe traziam sofrimento, ainda que permitidos de forma soberana, (Jó 1.21-22;
2.10). Embasado nestas considerações é que (BAKER, 2008) defenderá que sofrer não é uma opção, pois muitas vezes o sofrimento se impõe. Mas a forma de sofrer é uma escolha nossa. Contudo, independentemente da forma escolhida, devemos aprender a melhor maneira de sofrer se quisermos fazer da dor uma ferramenta para o nosso crescimento. De certo modo, esta maneira de encarar o sofrimento parece ser exatamente o que o personagem faz. Em uma seqüência de altos e baixos, ele primeiro confia suas esperanças em Javé, depois vê suas forças esvaindo-se dia a dia, graças às acusações e falácias que seus amigos e familiares faziam, afirmando por meio de juízos morais que ele tinha voltar ao Criador, na tentativa de alcançar o perdão perante seu Deus.


Diversos estudos da mais variadas áreas, apresentaram as múltiplas faces do sofrimento humano e do simples homem que sofre. Faces que talvez já
conhecêssemos em personagens da mitologia grega, como Penélope e Prometeu, ou, mais intensamente e popularmente, nos personagens bíblicos como Jó, Saul, Tobias, Jesus Cristo e Paulo de Tarso. Diante do exposto, nos deparamos como o primeiro questionamento de ordem moral, o sofrimento faz acepção de pessoas? A partir disto, é possível conceber que assim como a graça comum vem sobre todos e a chuva cai sobre bons e maus, todos estão sujeitos a enfrentar os dilemas do sofrimento. Apartir desta dinâmica (NETO, 2010) vai sugerir que não existe existência humana sem a garantia do não sofrer, ainda que de forma voluntária, ninguém conseguiu viver ou conseguirá caminhar pela existência, sem passar nas ondas do padecimento do sofrimento humano.


Por fim, no campo da psicologia moderna, a análise se deu apartir de elementos morais, como resultado do seu próprio meio, apartir da existência dos indivíduos. Destacam-se nesta perspectiva, Freud que mantém um dialogo estruturado no comportamento, meio social e o resultado da própria existência, como um conjunto de valores que movem os homens ao sofrimento. No livro “O Mal-Estar na Civilização” Freud destaca a função da religião como conservadora da sociedade humana, ponto este que será analisado neste trabalho. O autor fundamenta que a raiz de toda religião deve-se a uma defesa do homem contra o estado de desamparo infantil que persiste até a vida adulta. A religião, assim, responderia ao anseio por um pai poderoso que
oferecesse segurança, proteção (poupa os homens de uma neurose individual ao preço de deixá-los num estado de infantilismo psicológico, submetidos ao que chama de um delírio de massa). Em uma análise similar, porém centrada no livro de Jó, Jung reinscreve a narrativa de Jó em trabalho que ele intitula como “Resposta a Jó” apartir da lógica existencial dos homens. Para Jung as afirmações que a Sagrada Escritura dá, são manifestações da alma, e tem mais haver com as experiências do autor de Jó e da forma como ele passou por seu sofrimento do que propriamente na intervenção divina. E isso nos remete a outro questionamento. É possível pensar o sofrimento humano, fora do religioso? E se há quais as bases encontradas no livro de Jó? Como
questionamento universal, o sofrimento humano continua desafiando todas as áreas do saber. Os argumentos utilizados para consolar o sofredor não encontram respostas racionais, e no cristianismo esta perspectiva passa ser respondida a partir da transcendência humana. Todo esse questionar é feito em forma de indagação, do tipo qual objetivo desta enfermidade? Onde está Deus em tudo isso? Por que pessoas boas sofrem? Por que eu? Pode haver algum proveito na minha dor? Mesmo com o avanço de áreas do saber, estes continua ser um dilema universal.

A situação tornase ainda mais problemática, quando visto que o sofrimento nem sempre tem relação de causa e efeito, em diversos casos, impõem-se independente das escolhas humanas. Mortes prematuras, enfermidades letais, males da alma e outros, parecem não respeitar os limites humanos e muito menos aquele que sofre. Nas Escrituras, encontramos que mesmo um homem em condição de fidelidade, sofre padece, chora, se humilha, sente dor e lamenta o dia do seu nascimento. Jó apresenta, não só uma maneira de manter suas esperanças em Deus, como também o modo como enfrentar o sofrimento. A partir disso, apresentaremos algumas hipóteses na busca de trazer a luz estes questionamentos. 

HISTÓRIAS CULTURAIS DO SOFRIMENTO NA ERA CRISTÃ


É através da história é que se conhece o ser humano. O tempo qualifica fundamentalmente a dor humana. Seria concebível tentar relatar a história das principais maneiras de sofrer, as materiais, compartilhadas com os primatas que nos são geneticamente mais próximos, até os sofrimentos sofisticados, da consciência psicológica ou moral, da convivência social, da solidão, e ansiedade da morte. As doenças, epidemias, guerras, os homicídios e suicídios, as separações, os insucessos de toda a vida, as provocações excepcionais: tudo isto figura na história geral da humanidade e ultrapassa tudo quanto se pode narrar nos livros bíblicos. De acordo com (LEPARGNEUR, 1985) a reflexão precisa ser primeiramente antropológica e depois para a perspectiva histórica, com vista a apontar variações nas maneiras humanas de sofrer. É evidente a consciência do caráter circunscrito deste enfoque, mas bastará para alertar sobre as mudanças culturais que repercutem na maneira de sofre, inclusive no contexto da tradição relativamente homogênea, como contemporânea. O que se conta, evidentemente não é a própria dor, mas seu contexto cultural significativo.


O autor explica que no antigo Testamento, domina um esforço para explicar o problema do sofrimento como castigo por algum pecado, apesar das reticências marginais apontadas em Ezequiel, no livro de Jó e em alguns Salmos. Sua visão é que não era tarefa fácil discernir sempre uma relação de causalidade, os crentes dirigiam seus esforços para não invejar os maus repletos de saúde e fortuna, mas talvez às vésperas de alguma desgraça que os esperava no dia seguinte, e, sobretudo para não desanimar diante do pouco rendimento aparente do empenho pela virtude. Não se pode negar que o tema da dor, promovidos à incorporar o processo de redenção da humanidade toda, a partir da Paixão de Jesus Cristo, é fundamental no cristianismo. Os evangelhos refletem os conteúdos da fé cristã primitiva e de seus principais temas de pregação e meditação. Jesus repetiu que o Messias devia sofrer (Lc 24, 46). As cartas de São Paulo, por exemplo, esmiuçaram o significado teológico desta ocorrência de dor e glória. Um dos principais eixos da teologia durante séculos
vai ser este: como articular a dor deste mundo e a gloria do mundo que há de vir? A paixão de Jesus, livremente aceita em oblação ao Pai, é parte capital do mistério da salvação que abre as portas da vida eterna à humanidade pelo pecado original. Sofrer era uma necessidade para o Servidor – Sofredor que viria a ser o Messias. Jesus não recuou e valorizou o sofrimento, abrindo – o depois aos discípulos de todo lugar e séculos, para todos nele se salvarem.


Os padres apostólicos e da igreja dificilmente passam por otimistas frente às experiências mundanas: seu agudo sentido pascal os preservou, em geral, de incidir num dolorismo unilateral. O regime da penitencia pública revela, todavia uma austeridade e um rigor que não se assustam com a dor passageira deste corpo mortal e corruptível.


O PROBLEMA DO SOFRIMENTO NA COMTEMPORANIDADE


O conceito do sofrimento humano surge na suspeita real da possibilidade de tal empreendimento. Até que se falar da dor na perspectiva das ciências naturais e das ciências humanas, o trabalho é claramente possível: a ciência médica, por exemplo, dispõe de vários elementos para dar uma definição satisfatória da dor física. A própria psicologia elaborou instrumentos que permitem a aproximação da dimensão psíquica do que sofre. Mas quando se trata da dor do homem enquanto experiência dolosa da pessoa, até agora, nem a filosofia, nem outras ciências humanas conseguiram trazer a luz respostas satisfatórias.


De acordo com o (DIPS, 1999) quando posto nesta perspectiva, o mundo do sofrimento humano é fenômeno vasto, que tem causas variadas e múltiplas, que
assume as formas mais diversas, de tal modo que se torna difícil restringi-lo dentro dos termos de uma descrição. Parece que tal gênero de sofrimento, para ser descrito e entendido, admite apenas a linguagem narrativa e simbólica, suportando mal as malhas estreitas de uma forma conceptual e intelectiva do saber. Mas se esclarece à medida que nos aproximamos dele: exige atitude de medida e de respeito, de serenidade, porque toca o mistério do homem, e toca também o mistério de Deus. Um primeiro passo se dar no apelo à própria experiência. Não podemos negar experiências dolorosas que se conhece ou pelas quais se tenha passado pessoalmente. Isto, na verdade, não é difícil, pois é experiência ampla, que evoca dores físicas, morais e espirituais. Evocam enfermidades e morte, fadiga e solidão, medo e tédio da vida, insucessos e falências, marginalizações, isolamento, violência, opressão, guerra e fome, injustiças, injurias e enganos, culpa, pecado e sensação de abandono por Deus, sendo que esta última sensação foi sem dúvidas um dos grandes dilemas pra Jó, além de toda dor física e caótica situação que passara, sentia-se abandonado por Javé nos dias de todo seu sofrimento, da sua angustia e momentos
de dor.


Depois de analisar a experiência do sofrimento, é preciso ir além, o da reflexão, fazendo emergir o significado que estes eventos assumem para as pessoas que
padecem: o que acontece no interior da pessoa sofredora? A primeira característica do sofrimento do homem é a de se propor a uma pergunta inicial; por quê? De acordo com (DIPS,1999) parece que neste questionamento está o conteúdo propriamente humano do sofrimento. Então o homem não é completamente passivo diante da dor, mas nela exercita uma atividade especifica, que do ponto de vista psicológico, exprime-se de maneira diferenciada; dor abatimento, tristeza e desilusão, desespero ou resignação, que são todas manifestações de experiência do mal. Porque ainda que seja verdade que o sofrimento não se identifica com o mal, de qualquer maneira, a ele envia: o homem sofre quando experimenta algum mal. O que acontece de fato é que o homem sofre quando lhe vem a faltar um bem, quando é privado dele, ou ele mesmo se priva dele. Não é, de fato, compreensível o sofrimento senão tendo como pano de fundo a alegria de viver: sofre somente aquele para quem existir significado antes de tudo gozar da existência. Contudo o sofrimento não pode
ser reduzido à privação de um bem devido, porque ele é destrutivo e devastador, força e abate tudo o que de positivo e belo for construído ou estava se projetando.


O sofrimento não tem caráter de incomunicabilidade, pois cada um está fechado em sua própria dor, e admira ás vezes, não digo a leviandade, mas certamente a facilidade com que se pretende participar do sofrimento do outro, comprimento da onda de quem está na dor. Isso não significa que o homem não consiga participar da dor alheia, antes, isso lhe é mandado. O sofrimento pode atingir o homem em uma da outra de suas dimensões orgânica,
psíquica ou espiritual, mas é sempre a totalidade da pessoa que está envolvida: é a pessoa humana que sofre, e não somente uma parte da sua espécie, ou seja, é da própria existência humana a garantia de padecer pelo sofrimento. No entanto, o sofrimento é vivido antes de tudo como negação daquele dinamismo vital. O lamento do sofredor exprime a ruptura da comunicação com a realidade da vida. O estado de angustia que ameaça invadir todo o espaço interior da pessoa. Falta um sentimento para essa situação, é fácil cair no desânimo, na revolta ou no desespero. E próprio do sofrimento propor por a interrogação e questionar seus motivos e objetivos. 


A própria pergunta que suscita o sofrimento nasce do poder do assombro, da inquietação e na pergunta que sempre irá permear as mentes e delírio humano é pode-se, então, descobrir um significado no sofrimento? E nesta pergunta que comparamos a figura de Jó, que na contemporaneidade continua a perguntar a seu Deus, onde o objetivo da dor? Em relação ao sofrimento, o homem se torna consciente de que não pode dar a resposta por si mesmo, porque ai ele mesmo se questiona. O homem torna-se pesquisador de sentido, se tornou pergunta. O sofrimento o abriu a uma possibilidade
de resposta que nem ele se pode dar, nem pode pretender. A proposta bíblica pode parecer imprevisível e paradoxal, mas responde ás exigências mais características e profundas do próprio homem. Nenhuma explicação é dada quando se trata de sofrer, porém no livro de Jó, são apresentadas várias formas e maneiras de passar o sofrimento. A revelação (palavra de Deus) diz que trata-se de um tema de ordem existencial, que não requer explicações conceituais, nem teorias ou especulações de ordem teórica. A primeira resposta que a revelação dá ao sofrimento é a práxis, o empenho, a luta contra o
próprio sofrimento. Na verdade exige se atitudes de fé: crê-se nele, como crê na ressurreição, na igreja e nos outros mistérios da doutrina revelada.
Praticamente nos textos da palavra de Deus são reportadas todas as situações de sofrimento próprias da condição humana: doença, perseguições, exílio, morte, marginalização, guerras, derrotas, cansaço, solidão, inimizades, traição, pecado, abandono de Deus, medo, tédio e doenças que no momento do seu processo é tirado do sofredor o sentido teológico do sofrimento.


INTRODUÇÃO BIBLÍCA AO LIVRO DE JÓ

Em toda a palavra de Deus, não há livro semelhante ao de Jó: trata-se de um diálogo poético extenso e dramático, um grandioso e multifacetado diariamente encravando entre prólogo e epilogo escritos em forma de prosa histórica. Jó era um homem rico que habitava na terra de Uz, certamente que as terras estavam situadas no leste de Edom, ao sul da Palestina. O tema que é tratado de forma magnífica no livro de Jó é o problema do sofrimento humano e suas implicações diretas a psique do homem. Segundo (MacDonald, 2011) Jó apresenta o mais antigo e fundamental questionamento do homem sobre o interminável problema: o destino do homem e a forma com que Deus o trata neste planeta. Tristeza e reconciliação sublimes melodias tão antigas quanto a alma da humanidade, tão suaves e formidáveis como o sol da meio-noite e o mundo com seus mares e estrelas.


Escrito originalmente na língua hebraica, o livro foi composto inteiramente em forma de poesia, com exceção dos capítulos 1- 2, 32: 1 – 6 a e 42: 7 – 17. Nome Jó (Jóyyôb – hebraico), tem seu significado etimológico incerto, provavelmente os mesmos do nome Ai-ia-ab-bu, tido como herói do livro que leva seu nome. Segundo (MESQUITA, 1979) cita que alguns historiadores afirmam que o nome Jó é apenas figura de um personagem, para servir de título ao livro, porém para ele, esta afirmação parece não ter consistência porque ele (Jó) é mencionado em outros livros da bíblia como nome de uma pessoa (Th 5.11). Para tanto, ele explica que os Árabes conservam tradições a respeito de Jó como personagem pertencente aos patriarcas, príncipes dos seus maiores. É lembrado como homem rico e que, por sua fidelidade a Deus, foi provado na sua vida e prosperidade. Em uma análise da narrativa relata que Jó, homem rico e piedoso, perdeu todos os bens e foi atingido por uma doença grave e conforme os relatos tratavam de um tipo de lepra avançada. A partir daí se desencadeia um confronto entre Yahwer (outra forma para nomear Deus no A.T) e Satanás, sobre o tema da virtude desinteressada
de Jó, que se recusava a imputar a Deus suas desgraças, perdas e dor. (Jó 1, 1 –
3,1).

Segundo (RIDOUT, 1976), a julgar por sua extensão e após rápida leitura é possível concluir que o livro de Jó representa parte muito importante da Palavra e Deus. Não obstante, o livro é negligenciando pela maioria. As pessoas familiarizadas com seu conteúdo são exceções, não a regra. O livro não fornece o nome do seu autor, porém a tradição judaica aponta para Moisés. Mas outros autores também são sugeridos; Eliú, Ezequias, Esdras, de certo que seu
autor foi um judeu que tenha vivido entre 500 e 200 a. C. Segundo a historicidade do livro, este homem viveu algo em torno de 140 anos. O apóstolo Paulo cita o texto de Jó 5.13 em 1 Coríntios 3:19, dizendo “Ele apanha os sábios na própria astucia deles”. Em Ezequiel 14:14, Jó é citado como personagem
histórico, não fictício. Em seu livro Tiago também faz referência a Jó em 5: 11, “Tendes  ouvido da paciência de Jó e vistes que o fim do Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo”.


A luz de seu estilo grandioso e do notável discernimento sobre a condição humana, ninguém deveria ficar admirado ao constar que nossos diálogos cotidianos foram muito enriquecidos por este livro, pois o homem moderno continua apoiar-se nos lamentos e gritos de desesperos que o personagem Jó demonstrou em todo o livro. Jó mostra assim como nos Salmos que o lamento é o choro, um pedido de socorro daquele que ainda não perdeu a fé, por isso sente-se seguro em direcionar seus questionamentos ao Criador.


Segundo o (Comentário bíblico popular do antigo testamento, 2011), o livro trata do mistério do sofrimento humano e do problema do mal: por que as pessoas sofrem, especialmente os justos? Em Jó, encontramos um homem que provavelmente sofreu mais em um único dia do que qualquer outra pessoa em toda a sua vida, com exceção do Senhor Jesus. Deus permitiu esses sofrimentos na vida de Jó para aumentar sua capacidade de comunicação com ele. É possível que a intenção do livro também seja de modo particular, tipificar os sofrimentos do povo judeu.


Para os judeus serem capazes de aceitar um Messias sofredor em contraste com a figura heróica dos macabeus, era preciso demonstrar que o sofrimento não ocorre necessariamente por causa do pecado de alguém. Cristo sofreu por nossos pecados; o justo pagou pelos pecados dos injustos. À medida que Jó enfrenta seus dilemas, ele aparece como sofredor cada vez mais sozinho (6, 13-14: 19,13). E na medida em que o sofrimento ia tomando conta de sua
existência, seus amigos (consoladores), deveriam ter ficado ausentes em se pronunciar, pois não ajudava e colocava-o ainda mais em sua dor, sofrimento e
perdas.


Sem dúvidas, um dos grandes questionamentos da humanidade está na tentativa de compreender o que de fato é o problema do sofrimento? Para muitas pessoas é a pergunta: Por que acontece o sofrimento? Quais são suas origens e causa? Por que temos que passar por estes sofrimentos? Talvez, no entanto, no mundo de hoje, essas perguntas reflitam principalmente nossa obsessão em descobrir a origem das coisas
como se somente por esse meio pudéssemos obter o verdadeiro conhecimento. De acordo com (CARSON, 2009) à origem do sofrimento no livro de Jó não apresenta uma resposta satisfatória. A questão é levantada e respostas parciais são dadas pelos amigos de Jó. O sofrimento, dizem eles, geralmente é uma punição ao pecado no  futuro. O livro como um todo esclarece que, às vezes, como no caso do próprio personagem, o sofrimento não vem por razão terrena alguma, mas simplesmente para justificar a alegação divina de que os seres humanos podem servi-lo sem avisar a
recompensa.


Apesar, no entanto, de o livro oferecer essas diferentes razões para a origem do sofrimento, os leitores não ficam sabendo do sofrimento, os leitores não ficam
sabendo qual é a causa dos seus próprios sofrimentos e, assim, ficam na mesma situação do próprio Jó, que continua sem saber o porquê de suas agruras. Para ele, o mistério permaneceu até o fim. Comecemos pelas Perdas de bens materiais: de acordo com as narrativas do livro de Jó, sua dor começa com a perda de todos os seus bens de forma sistemática e abrupta e brutal; Sucedeu um dia, em que seus filhos e suas filas comiam e bebiam vinho na casa do
irmão primogênito, que veio um mensageiro a Jó e lhe disse: Os bois lavraram, e as jumentas pasciam junto a eles; de repente, deram sobre eles os sabeus, e os levaram, e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, para trazer-te a nova. Falava este ainda quando veio outro e disse: fogo de Deus caiu do céu, e queimou as ovelhas e os servos, e os consumiu; só eu escapei, para trazer-te a nova. Falava este ainda quando veio outro e disse: dividiram-se os caldeus em três bandos, deram sobre os camelos, os levaram e mataram aos servos a fio de espada; só eu escapei, paratrazer-te a nova (Jó 1. 13 – 17).


O mundo das perdas está associado à ideia de soberania terrena do homem e quando este perde abruptamente suas posses, e isso indica a perda desta soberania e normalmente o homem é levado ao caos da existência materialista. Inclusive este é o ponto, não é possível afirmar com estas palavras, mas quando Jó passa viver diariamente o sofrimento, seus amigos logo o questionam sobre sua idoneidade perante Deus, por que só alguém que estivesse em pecado, poderia ter suas riquezas tiradas de pouco a pouco. Atualmente, estas perdas estão associadas mais amplamente no convívio social, onde em mundo materialista, as pessoas são qualificadas e medidas pelos bens e riqueza que tem. Porém o que é visto no livro é o envolvimento de Satanás em um ato permissivo de arquitetar atrocidades e catástrofes na vida do pobre Jó. Segundo (MESQUITA, 1979) não podemos compreender o problema moral do universo, nem podemos entender como Satanás tem liberdade para destruir uma vida reta, moral, equilibrada e sensata. Outro ponto relacionado com o sofrimento é a questão por que pessoas inocentes sofrem, ou o sofrimento é sempre merecido? Ainda de acordo com autor acima, ao insistir em que Jó é um homem justo, o livro se opõe abertamente à Idéia de que o sofrimento é sempre uma punição pelo pecado, conforme os exemplos abaixo;

Afirmação do narrador do livro
Na terra de UZ vivia um homem chamado Jó. Era homem íntegro e justo; temia a Deus
e evitava fazer o mal. (Jó 1.1).
Afirmação do próprio Jó
Há alguma iniqüidade em meus lábios? Será que a minha boca não consegue
discernir a maldade? (Jó 6. 30). Embora inocente eu seria incapaz de responde-lhes;
poderia apenas implorar misericórdia ao meu juiz (Jó 9.15).
Afirmação do próprio Deus
Depois que o Senhor disse essa palavra a Jó, disse também a Elifaz, de tema: estou
indignado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falam o que é certo
a meu respeito, como fez meu servo Jó. Vão agora até o meu servo Jó, levem sete
novilhos e sete carneiros, e com eles apresentem holocaustos em favor de vocês
mesmos. Meu servo Jó orará por vocês; eu aceitarei a oração dele e não lhes farei o
que vocês merecem pela loucura que cometeram. Vocês não falaram o que é certo
fez meu servo (Jó 9.7 -8).


De acordo com (MESQUITA, 1979) Jó era um homem que fugiu do mal e procurava manter a paz com seu Deus, tanto quanto a si como á sua família. Para ele, Jó era um sacerdote doméstico, que talvez um Melquisedeque, um Jetro ou dos tantos outros que havia no mundo daqueles dias e que a história não registra. Na verdade, este parece ser um dos grandes dilemas do homem. Onde foi que errei? A vida de Jó também é representada em vários aspectos hoje no cotidiano do homem moderno. Normalmente o sofredor não acredita ser justa a morte de um filho? A perda repentina de todos os bens? Até mesmo o desprezo dos familiares e amigos, por maior que sejam suas falhas erros perante seu criador.


Para tanto, Mesquita, afirma que o livro é flagrantemente uma denúncia contra tudo quanto é suficiência humana para resolver os mais graves problemas da vida, especialmente no terreno do sofrimento. Todos os inspirados como os profanos, de modo geral, ignoram as atividades de Satanás, no seu afã de destruir não apenas a crença, mas a vida mesma. 

A questão é a pena é condizente? Como Deus pode permitir que algo tão danoso e destrutível ao ser humano? E com isso, o mesmo vê-se questionando o que é justo com o próprio Deus? Questionamentos estes restam ao ser humano na hora de sua dor. E como diz (Jung, 1979), que outra resposta, racionalmente falando, um pobre verme humano semi esmagado e se arrastando sobre o pó da terra poderia dar em tais circunstâncias?Outro ponto tratado no livro de Jó é em relação ao sofrimento de caráter pessoal, do tipo como agir no sofrimento? O que devo fazer quando estou sofrendo? Com que
espírito eu encaro o sofrimento? Comparada a essa questão de como reagimos, de fato, ao sofrimento, a primeira questão (origem do sofrimento) parece meramente acadêmica, e a segunda (se existe sofrimento inocente) pode ser facilmente respondida. A terceira questão (como agir no sofrimento), é a mais difícil; onde sua resposta exige todo o livro de Jó, é o que afirma (CARSON, 2009).


A reação de Jó aos infortúnios de sua existência é atribuída à vontade de Deus; ele bendiz o Criador tanto pelo que lhe foi dado e como pelo que lhe foi tirado, conforme o texto abaixo; E disse: Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor (Jó 1.21). Para (Aquino, 2009) a fé é o abandono nas mãos de Deus em todas as circunstâncias da vida. É claro que isto não é fácil; é uma conquista de cada dia. É preciso ir exercitando a fé; lançando-se cada vez mais em Deus, até confiar plenamente no seu amor. Para ele, o sofrimento é nosso pão de cada dia. Portanto, todo o dia existe seu próprio mal, sendo assim cabe aos seres humanos atribuir todo e qualquer sofrimento como permissivo por parte de Deus, assim como bênçãos e prosperidades.


CONCLUSÃO

Concluindo, não foi objetivo desta pesquisa, resolver todas as variáveis complexas que rodeiam este tema, até por que seria muita presunção da minha parte se propor a isto, uma vez que o tema que sempre permeou a humanidade, e por que seu entendimento não é racional, continua gerando implicações sérias nos homens imediatistas, indefesos e vítimas da própria existência. Para isso, seria necessário recorrer a outras variáveis que transcende as lógica humana e que não são fáceis de analisá-las, se considerarmos, que só seria possível em uma pesquisa mais profunda e melhor assistida, como em uma dissertação de mestrado.

Para tanto, inda que de forma introdutória, o objetivo foi apresentar as mais variáveis formas e interpretações do sofrimento no mundo contemporâneo, relacionando estas concepções com a psicologia moderna que anula completamente o fator divino e metafísico, argumentando que o sofrimento trata-se de conseqüências e de escolhas da própria concepção que se têm da existência, ou meio social e relacionamento com indivíduos como foi os casos de Freud e Jung.

Embora saibamos, algumas formas de sofrer são ocasionados por atos e escolhasdos próprios indivíduos que geram conseqüências, muitas outras formas de sofrer não podem ser explicado a partir da teologia moral. Conforme foi apresentado acima, onde os vários argumentos que mostram que se analisando o livro de Jó, sem os dois primeiros capítulos, teríamos apenas um questionamento moral e questionamentos sem respostas para quase todo o seu sofrimento.

Na bíblia sagrada temos uma visão clara, que o distanciamento do homem por meio do pecado, este que agora assumiu a conseqüência e em como resultado disso, formos distanciados do criador. Ainda nesta perspectiva, foram os homens que geram tanta desigualdade no mundo, são os homens que desenvolvem armas para lutarem e logo lutam suas guerras, ou seja, existe muita participação humana na dor e sofrimento que há no mundo.

Graças ao sacrifício eterno e perfeito de Cristo Jesus, a humanidade foi reconciliada com seu Criador, porém ainda sim, assumimos as conseqüências desta escolha nos primórdios. Morte, doenças, males e transtornos psíquicos fogem desta percepção e de acordo com a teologia reformada, trata-se de sofrimentos oriundos da própria existência humana.

Em Jó, não só percebemos ação constante da presença de Deus, como também nada acontecia sem que houvesse sua permissão, restando a humanidade a confortar-se na soberania Dele. É evidente que o autor de Jó elevou à narrativa ao tratar como uma poesia, para mostrar os dolorosos e danosos ao corpo e a psique, acontecimentos estes que permearam a existência de Jó. No entanto, nosso papel como Cristão é compadecer com as dores daqueles que necessitam, toda dor e sofrimento, pode ficar ainda mais difícil e difícil de digerir, quando as pessoas são mal orientadas e principalmente quando há responsabiliza Deus, tornando o um ditador que mediante a todo tipo de descumprimento de suas leis, não freia seu poder e age em nome de sua justiça, punindo com todo rigor aqueles que se encontrarem assim. 

Como resultado final, devemos nos revestir da fé Jó obteve durante sua jornada de dor, se quisermos conviver de forma plena a existência. Quando digo isto, não falo de ignorarmos a dor ou fingirmos que nada esta acontecendo, mas sim termos claro que o sofrimento é nosso pão de cada dia e para um deles, basta seu próprio mal e só pelo fato de existimos, já herdamos ainda que involuntariamente esta atribuição.

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Cotia / SP
MBA: Business Management (IBMEC)
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