Leitura musical

Prática com peças à 4 vozes

Piano Intermediário Teoria Musical Avançado
Leitura musical
Daniel P.
em 11 de Abril de 2020

A fluência na leitura de partituras envolve o reconhecimento de padrões de escrita. Quando estamos aprendendo a ler, olhamos nota por nota, por vezes precisamos contar linhas e espaços e geralmente conferimos algumas vezes só pra garantir que estamos tocando a nota correta. Quando tocamos a nota correta o ritmo está errado, então é preciso tentar novamente, talvez treinar o ritmo na perna e depois repetir no piano. Por vezes, alguma nota do acorde da mão esquerda se perde então é necessário tentar novamente. 

Com o tempo, o nível de fluência aumenta0, ler as notas não é mais um sacrifício, padrões rítmicos são dominados e antecipados e o acompanhamento da mão esquerda já sai quase automático. Já é possível reconhecer auditiva e visualmente diferentes padrões de intervalos, ritmos, acordes, arpejos, escalas, motivos, etc.

Dificuldade de leitura pode ser uma das causas de desistência de vários alunos. Conforme o grau de dificuldade de leitura das partituras vai aumentando, alguns alunos vão ficando desanimados. Por isso, é importante incentivar a pratica da leitura musical desde o início e incluí-la na rotina de estudo diário do instrumento.

Habilidades que colaboram para a leitura

 

1. Visão Periférica

Evitar olhar para as mãos, mantendo os olhos na partitura o máximo possível. Desta forma é possível olhar sempre adiante, antecipando o que acontece no próximo compasso. Quanto mais à frente se olha, mais fluente é a leitura. Você pode se movimentar e localizar posições no teclado através da sensação tátil utilizando as teclas pretas como pontos de referência.

2. Escalas, arpejos e acordes

Conhecer os dedilhados de escalas, arpejos e acordes são pilares importantes para o reconhecimento destes padrões resultando em uma melhor leitura.

Você pode revisar os dedilhados abaixo:

 

3. Dedilhado

É fato que o dedilhado pode ser muito particular à cada passagem, contudo, possuir conhecimento prévio dos padrões de dedilhados torna mais fácil na hora de de aplicá-los. Pianistas com mais experiência, escolhem dedilhados já familiares a outras peças de seu repertório. A escolha do dedilhado pode variar de acordo com a construção da melodia, da harmonia, de acentos rítmicos, etc.

4. Cifras

Pianistas que sabem tocar por cifras, são mais rápidos na hora de identificar e montar acordes, uma vez que, as cifras não indicam a execução exata de um acorde, o músico precisa reconhecer quais notas fazem parte de determinada harmonia e decidir qual posição do acorde irá tocar em frações de segundo. Por exemplo, a progressão de acordes C F C/G G7 C, pode ser executada de diversas maneiras, entre elas:

forma mais comum: mão esquerda executa o baixo e a mão direita executa três notas
progressão à 4 vozes: notas distribuídas entre ambas as mãos

 

5. Padrões rítmicos

Ter um bom domínio de padrões rítmicos colabora para ter uma leitura mais fluente. Todo o tempo investido na prática de solfejo e leitura rítmica tem resultados aqui. O método mais popular no Brasil é o do italiano Pasquale Bona, é possível encontrá-lo em livrarias pelo nome Método completo de divisão musical.

Exite uma versão em domínio público disponível aqui, infelizmente a versão está em italiano.

6. Ler peças já aprendidas

Tocar peças que já foram aprendidas acompanhando a partitura é um exercício que além de reforçar a memória, colabora com o desenvolvimento da habilidade.

7. Ouvir música com a partitura

Ouvir música acompanhando a partitura é uma ótima maneira de melhorar a fluência da leitura Há diversos vídeos no Youtube onde você pode acompanhar a partitura enquanto escuta a peça. Quanto mais variedade melhor, ouvir e acompanhar a partitura de peças para piano é ótimo, mas não se limite, experimente. Que tal ouvir uma sinfonia enquanto acompanha a partitura?

 

Sinfonia nº 5 em dó menor de Ludwig van Beethoven
 

Praticando leitura com peças à 4 vozes

Peças à 4 vozes oferecem um tipo de textura musical bastante acessível e didático para treinar a leitura. Este tipo de escrita, desenvolve a leitura vertical, bastante necessária para pianistas. Também auxilia para aumentar o domínio do teclado e a capacidade de se mover através da sensação tátil.

Em uma peça à 4 vozes, os acordes são encadeados respeitando a individualidade de cada voz, ou som. Considerando acorde como a combinação de três ou mais sons, podemos entender cada som como uma voz independente e, portanto, pertencente a uma melodia diferente.

Nome e ordem das vozes

 

Soprano (S) voz aguda

Contralto (C) ou alto (A) – voz grave

Tenor (T) – voz aguda

Baixo (B) – voz grave

Exemplo de partitura à 4 vozes
Herzlich lieb hab ich dich, o Herr de Johann Sebastian Bach
Partitura completa aqui

Observe no exemplo acima, hastes voltadas para direções diferentes indicam vozes diferentes. Na clave de sol, notas com hastes para cima pertencem ao soprano (S) e notas com hastes voltadas para baixo pertencem ao contralto (C) (A). Já na clave de fá, notas com hastes para cima pertencem ao tenor (T), enquanto as notas com as hastes voltadas para baixo pertencem ao baixo (B).

Posições das notas do acorde

 

1. POSIÇÃO ESTREITA

Nenhuma nota do acorde pode ser incluída entre as três vozes mais agudas

Exemplo de posição estreita

Note que o tenor pode ser escrito tanto na clave de fá quanto na clave de sol, a voz pode mudar de clave durante a mesma peça.

2. POSIÇÃO ABERTA

Notas do acorde podem ser incluídas entre as três vozes superiores

Exemplo de posição aberta
3. POSIÇÃO MISTA

Somente uma nota do acorde pode ser incluída entre as três vozes superiores

Exemplo de posição mista

 

Passo a passo

Há um vasto repertório deste tipo de literatura, de corais de Bach à hinários. No IMSLP, a categoria “Hymnals and Psalters” contém 738 resultados para hinários, incluindo religiões e idiomas diversos.

O ideal é selecionar peças coral que já estão reduzidas em dois pentagramas para começar. Depois de adquirir experiência, é desejável incluir leitura de partitura aberta, mas no início, versões reduzidas são mais acessíveis.

Exemplo de partitura aberta
Ave Verum Corpus de Wolfgang Amadeus Mozart
Partitura completa aqui


Exemplo de partitura à 4 vozes reduzida
Vater unser im Himmelreich de J. S. Bach
Partitura completa aqui

O ideal é olhar as harmonias de baixo para cima e da esquerda para a direita, tentando ao máximo olhar o que vem adiante. Apesar de muitos alunos apresentarem alguma dificuldade com a clave de fá, ler as harmonias de baixo para cima é o mais indicado. Com o tempo, o hábito torna tudo automático.

Para quem ainda é novidade tocar peças nesta modalidade de escrita, um bom ponto de partida é a peça Ein Choral do compositor alemão Robert Schumann. A peça faz parte do Álbum para a juventude op. 68, você pode baixar a partitura completa de Ein Choral aqui.

Albúm para a juventude op. 68 nº 4 Ein Choral Robert Schumann

Consultando o hinário Association Hymn Book, selecionei outra peça ótima para começar. O hino Sun of my Soul! Thou Savior Dear, baixe a partitura aqui.

 

Adaptações

Às vezes, a escrita em quatro partes envolve intervalos maiores que uma 8ª, geralmente entre as vozes do tenor e do baixo, fazendo com que seja necessário fazer algumas adaptações para poder tocar.

Como exemplo, selecionei o hino Divine Love do hinário Association Hymn Book. Você pode baixar a peça inteira aqui.

Hino Divine Love compassos 1 ao 8

 

Logo na primeira linha do hino, há um intervalo de décima entre o baixo e o tenor no segundo tempo do compasso 4. Algumas pessoas possuem uma mão maior e/ou abertura suficiente para alcançar este intervalo, outras precisam adaptar.

Divine Love compassos 1 ao 4

 

Este intervalo pode ser executado arpejado, isto é, tocar uma nota após a outra iniciando pela mais grave (exemplo a) ou a nota lá pode ser executada pela mão direita (exemplo b).

Continuando, abaixo está a segunda parte da peça:

Divine Love compassos 9 ao 16
Divine Love compassos 9 ao 12

 

No compasso 9, a nota ré no segundo tempo da linha do tenor pode ser executada pela mão direita (exemplo a). No compasso 12, a nota lá pode ser arpejada como no caso anterior no compasso 4 ou a nota lá pode ser executada pela mão direita uma oitava acima (exemplo b).

Abaixo, há uma versão executada ao piano. Recomendo realizar a leitura primeiro e tentar decifrar a partitura sem o uso de gravações. Após algumas tentativas ouvir gravações das peças.

Edição pertencente a um hinário diferente, com exceção da cadência adicionada ao final, é a mesma peça.
 

Os corais de J. S. Bach são ótimas peças para prática de leitura. De maneira geral, os corais do compositor alemão têm uma harmonia mais complexa que as peças dos hinários, e talvez não seja possível ler à primeira vista, é aconselhável, portanto, trabalhar cada um até que consiga ter fluência. O objetivo não é preparar cada um como uma peça do seu repertório solo, a menos que você queira, para melhorar a leitura, praticar até que consiga executar de maneira fluente é o suficiente. Acesse 398 corais de Bach aqui.

Lista de peças listadas neste post para praticar leitura, com algumas peças extras e por ordem de dificuldade:

  1. Ein Choral – Robert Schumann
  2. Sun of my Soul! Thou Savior Dear – Association Hymn Book
  3. Divine Love – Association Hymn Book
  4. The Church, hino austríaco – Association Hymn Book
  5. Vater unser im Himmelreich – J. S. Bach
  6. Ave Verum Corpus – W. A. Mozart
  7. Association Hymn Book
  8. 389 Corais de J. S. Bach

Resultado de busca de hinários no IMSLP

A prática da leitura deve ser um exercício constante, um músico experiente e capaz de ler à primeira vista fluentemente provavelmente passou bastante tempo desenvolvendo tal habilidade. Separar de 10 a 15 minutos diários para o exercício da leitura traz resultados significativos. Experimente alguns dos itens acima para inicia a sua prática, basta escolher um, sentar ao teclado e começar a ler.

Se você leu até aqui, obrigado! Comentários e sugestões são sempre bem vindos.

Daniel

Texto adaptado de: https://danielpadovanpiano.wordpress.com/2020/04/11/leitura-musical/

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