A escola de Frankfurt -"existe marxismo cultural?"
Darcio A.
em 25 de Maio de 2020

Continuação ....

 

“No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 19).

Dessa forma, faz sentido o título do texto adorniano: Dialética do Esclarecimento. Admitindo que o termo esclarecimento é dialético na medida em que, ao mesmo tempo em que reveste os homens do poder de dominadores do mundo, reveste-os, também, com o manto de seres alienados e submissos, que perderam frente ao sistema aquilo que tinham de mais valioso: a sua individualidade. Dessa forma, o processo de esclarecimento do homem traz em seu bojo o processo de diluição do homem individual numa massa sem identidade própria. 

O esclarecimento, produto de uma razão que se libertou do dogmatismo religioso e natural, que se libertou da submissão para tomar as rédeas da existência humana produziu, no decorrer dos séculos, avanços estrondosos na subjugação da natureza ao eu racional. Graças ao esclarecimento, a natureza deixou de produzir medo e tornou-se serva dos homens na medida em que estes, ao subjugá-la, constroem os meios necessários para o desenvolvimento de todo o aparato cultural. Nessa perspectiva, foi a partir de uma racionalidade livre dos dogmas que se produziu a grande explosão científica dos últimos séculos.

As ciências se transformaram no novo “demiurgo” transformador da natureza e construtor da realidade humana e que culminou no valor exacerbado dado à ciência pelo positivismo. Dessa forma, no século XIX, a ciência foi a garantidora de uma civilização que promovesse o desenvolvimento tecnológico, social, político e econômico. O desenvolvimento científico desde o século XVII e, como produto, a nossa cultura, foi resultante de um uso determinado da nossa razão, ou seja, a nossa cultura extremamente tecnológica e industrial é resultado da razão instrumentalizada, isto é, uma razão que deixa de ser contemplativa e passa a ser operativa da natureza. A ideia da passagem de uma razão contemplativa da natureza para operativa, marca, decisivamente, o limiar da Idade Moderna, no sentido de que durante toda a Idade Média o homem, a natureza e o cosmo eram objetos de contemplação e admiração do homem uma vez que eram reflexos da perfeição divina e manifestação concreta da ordem de Deus. Portanto, não poderiam ser transformados pela razão humana. Na Idade Moderna, ao contrário, a razão passa a tomar o homem, a natureza e o cosmo como objetos de estudo. Assim, o mundo, além do próprio homem, transforma-se num meio, num instrumento com que o homem, através da razão operativa, transforma, conforme com suas necessidades materiais e/ou econômicas. O produto dessa razão instrumentalizada é o desencantamento do mundo, ou seja, o universo, na modernidade, perdeu seu encanto para se transformar em objeto de manipulação do homem. É assim que a ciência, nascida da razão instrumentalizada, transforma rios em depósito de lixo, árvores seculares em móveis de luxo, pele de animais em casacos, bolsas e sapatos. Nesse sentido, o valor do conhecimento que a razão produz é equivalente a quantidade de bens produzidos por ela. Assim, a razão instrumentalizada deve estar a serviço do processo de desenvolvimento de uma cultura que prima pela ciência e pela tecnologia. 

É bem verdade que essa razão instrumentalizada foi, talvez, a maior responsável pelo grau de desenvolvimento de que nossa civilização desfruta. Nessa perspectiva, vivemos numa sociedade que possibilita aos homens, ou a uma parte deles, condições tecnológicas que facilitam a vida em coletividade, tais como: facilidade na comunicação, rapidez no transporte, maior longevidade de vida, produção cultural sem nenhum precedente na história. Graças a racionalidade instrumentalizada, a nossa civilização pôde proporcionar aos homens facilidades na satisfação de suas necessidades básicas de existência e, também, nos caprichos de consumo despertados pela cultura. Vivemos num mundo que prima, para uma parte da população, é evidente, pelo conforto. A razão, através da ciência e da tecnologia, produziu, destarte, ganhos fantásticos na facilidade em se viver e em que quase nunca pensamos, tais como: luz elétrica, água encanada, esgoto, facilidade na obtenção de alimentos, facilidade na comunicação e informação. Realmente, a razão esclarecida possibilitou aos homens um bem que tornou a vida humana muito mais fácil de ser vivida.

Porém, à luz de Adorno e Freud, podemos perguntar: qual foi o preço que pagamos por esse tipo de vida que ora desfrutamos? Quais exigências a civilização nos atribuiu como troca pelo conforto que temos? Na ótica desses dois pensadores, pagamos preços altíssimos pela 

organização da nossa civilização: a escravidão diária no trabalho, a alienação no trabalho, no lazer, no consumo, na repressão dos desejos do homem, na ausência de liberdade, na diluição do homem numa massa sem rosto ou identidade. É assim que, como afirmamos acima, na ótica adorniana, o esclarecimento é dialético, isto é, juntamente com um bem produz um mal, e na medida em que transforma os homens em seres alienados pelo próprio sistema, torna-os submissos e diluídos na massa. É nesse sentido que o esclarecimento revela seu teor de irracionalidade, pois, que racionalidade existe numa civilização que constrói campo de extermínio ou que realiza limpeza étnica? Que racionalidade existe num mundo em que, de um lado jogam-se alimentos no lixo, enquanto do outro lado milhares de pessoas morrem de fome? Que racionalidade existe num mundo em que o simples apertar de uma tecla num computador de um banco pode levar um país inteiro à ruína e milhares de pessoas à miséria? Que racionalidade existe num Para Adorno, quando a civilização chega neste estado perde totalmente qualquer resquício de um ideal humanista. Tal é a dialética adorniana da razão esclarecida: ela produz conforto e miséria, saúde e doença, riqueza e pobreza, vida e morte. É essa a ambiguidade da nossa civilização “racional”. Dessa forma, a nossa civilização desenvolvida sustenta-se em bases racionais que, por sua vez, produzem, também, estados de profunda barbárie. É justamente esse caráter dúbio da racionalidade que Adorno e Horkheimer denunciam com o texto A Dialética do Esclarecimento, e é justamente este argumento que pretendemos recortar e relacionar com Freud, qual seja, o de que a civilização, produto de uma racionalidade instrumentalizada, remeteu os homens ao tártaro da infelicidade e da frustração. Se, para Adorno, a civilização produziu o mal-estar da alienação e da subjugação dos homens ao sistema, e isto fica claro nesta citação: 

 

 

Continua em breve....

 

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