A produção do espaço urbano moderno no Brasil
Darcio A.
em 05 de Junho de 2020

A dinâmica da produção do espaço no Brasil conheceu uma modificação acelerada e até certo ponto dramática durante o século XX. Saindo de uma condição colonial no começo século XIX, mas carregando um modelo de ocupação espacial pautado na grande propriedade monocultora e no trabalho escravo durante grande parte deste século, muitas cidades brasileiras serão alçadas à condição de metrópole abruptamente seguindo os passos de países que conheceram processos de urbanização tardia e periférica que resultou dentro outras coisa no grande fluxo de migrantes para as áreas de atração populacional. O caso brasileiro se singulariza porque a grande massa de escravos libertos rumaram para cidades à procura de melhores condições de vida. A esse respeito Odette Seabra destaca que:

“Quer se trate de metrópoles, de cidades médias ou pequenas, sabe-se que   o   fenômeno   urbano   traduz   as   circunstâncias   da   urbanização   da sociedade. Tornou-se banal afirmar que no Brasil mais de oitenta por cento da população vive em cidades e que, dentre os vinte por cento que vivem no campo, os hábitos de vida urbana têm sido difundidos rapidamente. Impõe-se considerar que, há menos de meio século, este era um País agrário   e   que   entre   os   anos   trinta   e   setenta, período especialmente importante quanto à estruturação do fenômeno urbano, constituiu-se um modo de vida a partir da concentração da população nas cidades. (Seabra, 2004, p.182).

Os processos de ocupação e reprodução do espaço na metrópoles brasileiras foram permeados de contradições típicas do modelo capitalista que toma as coisas, pessoas e modos de vida como mercadorias. Por isso é importante considerar que “há um processo de valorização do espaço, implícito    nas    relações    sociais    o    qual, necessariamente, tem    que    se    territorializar    para    permitir    alguma apropriação (Seabra, 2004, p.183). No período enfatizado neste trabalho, que corresponde à mudança de paradigma da acumulação com ênfase no capital portador de juros, a apropriação do espaço nas metrópoles - especialmente no eixo Rio-São Paulo, mas também com bastante força na área metropolitana destas e nos interiores dos recíprocos estados - reforçou uma tendência nascida nos anos 1960-70 de auto segregação espacial das classes mais abastadas. Esta auto segregação fez e continua atuando nas variações do preço da terras tornando-as bastante grandes. Isso ocorre devido a aspectos localizacionais, tais como: “transporte, serviços de água e esgoto, escolas, comércio, telefone, etc., e pelo prestígio social da vizinhança” (SINGER, 1979, pp.27). E também ao prestígio social que “decorre da tendência dos grupos mais ricos de se segregar do resto da sociedade e da aspiração dos membros da classe média de ascender socialmente” (SINGER, 1979, p. 27).

Boa parte dessas novas demandas foram espelhadas pelos padrões de vida e cultura difundidas pelos Estados Unidos insistentemente no bloco capitalista pós-II Guerra como e que ganhou o nome genérico de ‘american way of life’ No rol de exigências desse modelo americano de vida e de consumo, o habitar ganhou destaque com massificação das casas de condomínios que atendia, reforçava e retroalimentava os desejos das classes mais abastadas para auto segregar-se. Odette Seabra pontua que:

“Os condomínios fechados surgiram inicialmente em cidades americanas. Em Los Angeles puderam se formar sem muros, com casas implantadas em amplos jardins, propondo continuidade de paisagens; elas próprias, sempre reconstruídas segundo o prazer estético em voga, como veiculou amplamente a indústria cinematográfica.” 

 

No começo eles foram considerados apenas como:

“...uma resposta ao esvaziamento das áreas centrais. Hoje, já se sabe, estão muito mais relacionados a um modo de vida sobre o qual certas empresas que visam organizar o cotidiano e com isso acabam modulando a atividade de morar.”

No entanto,

‘Trata-se de ações e projetos que se apresentam como necessários para proporcionar a evasão da cidade com muita idealização do bucólico, contra o universo concentracionista da cidade, contra o barulho e a fadiga, propondo o cultivo do seu próprio jardim, entre tantos outros apelos. Assim, os novos hábitos de morar tornavam-se realidade, de tal forma que o deslocamento da classe média para loteamentos residenciais foi natural e prazeroso, porque alimentado por um imaginário capaz de propugnar que a vida fora da cidade oferecia qualidade superior.” (Seabra, 2004, pp.195-196)

De certa forma, os condomínios de casas e de apartamentos responderam algumas demandas importantes da forma social contemporânea. Em termos psicossociais atenderam satisfatoriamente aos desejos de indivíduos que aspiravam ao isolamento, seja por expectativas correspondentes ao prestígio social, ao ‘american way of life’ ou aos apelos por mais segurança. Seja pela suposta proximidade à natureza ou pelo atual culto ‘das coisas simples da vida’ ainda que cultuar coisas simples da vida signifique desembolsar razoáveis somas de dinheiro as quais a imensa maioria da população não dispõe. Do ponto de vista da especulação, novos terrenos foram adquiridos a baixos preços, loteamentos foram feitos e vendidos com a promessa do cumprir as expectativas acima citadas. Os lotes foram adquiridos, as foram construídas por promotores imobiliários e revendidas por valores maiores. Ou simplesmente os indivíduos construíram e venderam a suas casas mirando outros locais mais prestigiados.

 

 

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