O processo de produção fordista
Darcio A.
em 03 de Junho de 2020

De forma geral, o fordismo é caracterizado como um ponto alto da racionalização da produção de mercadorias no século XX. Se tivéssemos que eleger uma data simbólica para o início do processo:

“...deve por certo ser 1914, quando Henry Ford introduziu seu dia de oito horas e cinco dólares como recompensa para os trabalhadores da linha automática de montagem de carros que ele estabelecera no ano anterior em Dearbon, Michigan. Mas o modo de implantação geral do fordismo foi muito mais complicado do que isso” (Harvey, 1992, p.122).

Se tomarmos 1914 como a data inaugural do modelo fordista de produção nos Estados Unidos devemos considerar que o pleno estabelecimento desta nova engenharia de produção deu-se algumas décadas mais tarde, especificamente após a II Guerra Mundial, quando a produção de bens de consumo duráveis e não duráveis tomou a dianteira nos investimentos que buscavam maior rentabilidade. O modelo fordista atendia com relativo grau de segurança e eficiência as novas demandas de uma sociedade de massas que estava em franco processo de urbanização no Ocidente capitalista e também e não menos importante no chamado bloco do Leste que emulava formas de produção racionalizadas dentro do chamado “socialismo real”. 

A base empírica do sistema fordista estava assentada no trabalho F.W. Taylor, Os Princípios da Administração Científica, publicado alguns anos antes. Era um tratado que propunha m maior rendimento do serviço do operariado da época, o qual era desqualificado e tratado com desleixo pelas empresas. O estudo de "tempos e movimentos" mostrou que um "exército" industrial desqualificado significava baixa produtividade e lucros decrescentes, forçando as empresas a contratarem mais operários. O trabalho de Taylor baseava-se em alguns princípios básicos, especificamente cinco (Taylor, 1911, p. 36):

  • Substituir os métodos empíricos e improvisados (rule-of-thumb method) por métodos científicos e testados (planejamento)

  • Selecionar os trabalhadores para suas melhores aptidões e treiná-los para cada cargo (seleção ou preparo)

  • Supervisionar se o trabalho está sendo executado como foi estabelecido (controle)

  • Disciplinar o trabalho (execução)

  • Trabalhador fazendo somente uma etapa do processo de montagem do produto (singularização das funções) 

O fordismo não se caracterizava apenas como uma forma excepcional de produção de mercadorias que conheceu expressivos ganhos de produtividade, Henry Ford tencionava formar uma força de trabalho de novo tipo, auto disciplinado, auto regulado, de acordo com os valores tradicionais e familiares vigentes na sociedade estadunidense, em última instância um consumidor em potencial antenado nas novidades da modernidade, enfim estava em jogo a construção de uma nova psicologia estruturante da força de trabalho:

“O que havia de especial em Ford (e que, em última análise, distingue o fordismo do taylorismo) era a sua visão, seu reconhecimento explícito de que a produção em massa significava consumo em massa, um novo sistema da força de trabalho, uma nova política de controle e gerência do trabalho, uma nova estética e uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista” (Harvey, 1992, p.121).

O legado fordista despertou a simpatia dos países que conformavam o campo do ‘socialismo real’. O líder comunista italiano Antonio Gramsci, jogado numa das prisões de Mussolini, teceu elogios ao modelo fordista em seu Cadernos dos Cárcere, ele observou que o americanismo e o fordismo equivaliam “ao maior esforço coletivo até para criar, com velocidades sem precedentes, e com uma consciência de propósito sem igual na história, um novo tipo de trabalhador e um novo tipo de homem” (Gramsci, 2010, p.121).

Mas, ainda que o modelo fordista despertasse simpatia no Ocidente, no campo socialista e nos países de industrialização recente, foi só a partir do término da II Guerra que ele pode ser generalizado onde quer que houvesse um surto considerável de industrialização ou nos países pioneiros da modernidade capitalista. Isto porque até meados do século XX sobreviviam formas que se assemelhavam à ‘produção de ofícios’ ou estruturas arcaicas de produção. Foi necessário que ocorresse uma destruição em massa das antigas formas de produção, proporcionadas pela insanidade da guerra total somada a ascensão de governos autoritários –nazifascistas ou congêneres- para que as antigas formas de produção fossem subsumidas pela grande indústria num primeiro momento atendendo ao esforço de guerra. O nazifascismo caracterizou-se, entre outras coisas, pela sua capacidade de generalizar a forma mercadoria e as novas técnicas de produção oriundas do fordismo. A esse respeito Harvey aponta que no período entre guerras os governos democráticos fracassaram, pelo menos aos olhos das massas desesperadas, em retomar o crescimento pré-1929, dessa forma tornou-se:

“...atrativo de uma solução política em que os trabalhadores fossem disciplinados em     sistemas de produção novos e mais eficientes e em que a capacidade excedente fosse absorvida em parte por despesas produtivas e infraestruturas muito necessárias para a produção e consumo (sendo a outra parte alocada para inúteis gastos militares). Não poucos políticos e intelectuais (cito o economista Schumpeter como exemplo) consideravam os tipos de solução explorados no Japão, na Itália e na Alemanha nos anos 30 (despidos do apelo à mitologia, ao militarismo e ao racismo) corretos, e apoiaram o New Deal de Roosevelt porque o viam precisamente sobre esta ótica” (Harvey, 1992, p.124).

A despeito dos grandes esforços dos Estados-nação e dos agentes econômicos, das guerras, das revoluções e contrarrevoluções, dos sem número de ações que colaboraram para a implementação do fordismo, ora pelo convencimento e aceitação tácita da classe trabalhadora, ora a ferro e a fogo deitando abaixo formas tradicionais de produção e de vida, o fato é que a lua de mel entre a reprodução ampliada e sua expressão fordista durou não muitos anos como forma consagrada – obviamente que o modelo fordista se renova mantém-se como forma digna de análises pormenorizadas ainda no século XXI e talvez por muito mais tempo – da reprodução, entre duas e três décadas. Já nos anos de 1970, a reprodução ampliada do capital destacará outras formas de reposição do valor que rivalizam e até superam as formas clássica do fordismo: entre em cena o protagonismo da esfera financeira-especulativa.

 

 

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