O velho dilema 'Voz de peito e voz de cabeça'
Klauss T.
em 11 de Julho de 2021

No século passado houve um filósofo e cientista político chamado Eric Voegelin (calma, prometo não falar de política aqui!) que analisou muito o problema da linguagem nos conceitos filosóficos. A grosso modo, ele afirmava que, quando um conceito era criado em filosofia, este tinha o propósito de expressar e descrever uma experiência original que, depois de assimilada e abstraída pela inteligência, se estabilizava em termos inteligíveis. O problema é que, à medida que o tempo vai passando e as novas gerações de filósofos e estudiosos vão se afastando da experiência original, os conceitos vão se esvaziando, e à medida em que os conceitos se esvaziam, eles dão origem a outros conceitos de segunda e terceira mão (e assim por diante) que se desviam do conceito original deturpando-o, o que acaba terminando em equívocos e muitas vezes em aberrações – tal fenômeno leva à necessidade de um retorno à experiência original.

Okay, mas o que isso tem a ver com o canto? Como bem pode ser observado no título, você certamente já ouviu falar dos famigerados termos 'voz de peito' e 'voz de cabeça'. Bem, você também já deve ter percebido que peito e cabeça não produzem voz - e por isso mesmo procuramos professores de canto, artigos, vídeos do Youtube que possam nos dar uma luz a respeito do que isso quer dizer, não é mesmo? Ou seja, se cabeça e peito não produzem som (quem produz é a laringe e, ainda mais precisamente, as pregas vocais, certo?), esses termos são figuras de linguagem que se referem a alguma outra coisa relacionada à voz cantada (a observação do filósofo austríaco não precisa se referir somente à filosofia, mas a qualquer ciência)... Mas a quê se referem? A coisa fica pior ainda quando vemos que muitos profissionais usam esses mesmos termos em sentidos diferentes, algumas vezes de forma até contraditória – isso quando quem resolve dar seu pitaco não é alguém que também não faz a menor idéia dos seus significados e tenta 'chutá-los' justamente pelo sentido literal ou dicionarizado das palavras.

Vou pedir agora a sua paciência e convidá-lo(a) a entrar numa viagem comigo: vou refazer o trajeto que percorri desde que comecei a ouvir esses termos, até a conclusão à qual cheguei com os conhecimentos que adquiri nos últimos anos (e minha especulação particular sobre a experiência que originou esses termos).

A 'definição' do dilema 'peito X cabeça' que eu mais ouvia quando comecei a cantar há mais de 20 anos (ao menos nesse assunto) era algo como: “falsete é voz de cabeça, mas nem toda voz de cabeça é falsete” - o que pra mim é equivalente a uma não-resposta. Mas com isto em mente, certa vez participei de uma aula em grupo sobre expressão vocal em que foram convidados para falar à turma um professor e uma professora de canto lírico. Por volta de 2003, eles eram professores na Instituição de música mais conceituada da cidade de Blumenau. Depois de falarem sobre canto, técnica e etc, abriram a aula para perguntas. Eu me encorajei e perguntei ao professor:

- “Mas afinal, o que é a voz de cabeça? É o falsete?”.

O professor estufou o peito e respondeu:

- “Voz de cabeça? Vou te mostrar o que é voz de cabeça” - e soltou uma nota forte (calculo eu, pela memória que tenho da ocasião, algo entre o G4 e o A4 do piano). Resultado: se ele houvesse dito para mim que aquilo era voz de peito, teria dado na mesma - eu ainda preferia a 'definição' com a qual comecei esta digressão.

Outros dizem que mulher não tem falsete, só tem voz de cabeça, mas quando demonstram a tal da 'voz de cabeça', pra mim soa a mesma coisa que um falsete. Mais tarde ouvi que esses termos ('peito' e 'cabeça') se referiam a 'sensações' que tínhamos ao cantar – mas eu nunca tive essas sensações (e o melhor professor com quem já estudei disse o mesmo, o que me deixou muito aliviado). Eu só conseguia operar a mudança se eu mudasse para o falsete – o que, para mim não era uma mudança sutil de 'sensação', mas uma mudança radical no jeito de utilizar a voz, como se fossem duas vozes distintas, sem conexão. Mas por volta de 2016, eu acessei o site da IVTOM, famosa pelo método MIX Voice e encontrei uma pista que me disse muito mais do que tudo o que eu havia ouvido nos 15 anos anteriores: eles simplificaram a coisa dizendo que, especificamente no canto lírico, homem cantava com voz de peito e mulher com voz de cabeça. Não necessariamente isto desfez a confusão, mas deu a entender que, ao menos os gringos (sinto muito, mas sempre eles), parecem associar 'peito' e 'cabeça' muito mais a uma questão de altura – notas agudas, seriam voz de cabeça (e note só: especialmente a partir do C5 do piano) e as notas médio-graves para baixo seriam de peito. E para finalizar, uma professora de canto lírico com a qual fiz uma aula demonstrativa diferenciava o falsete da voz de cabeça pela estética, o que, de certa forma, corroborava o que eu vi no site do IVTOM.

Então eu estudei a parte anátomo-fisiológica do canto e, lógico, ficou mais evidente que nunca que não existe uma 'voz de peito', nem uma 'voz de cabeça'. Do ponto de vista anátomo-fisiológico, já chegou-se à conclusão de que nas notas graves (especialmente do Eb4 do piano descendo em direção ao grave) normalmente a prega vocal fica mais 'ativa', ou seja, ela se tensiona e concentra mais massa, fechando a glote. Para atingir notas mais agudas, ela precisa se tornar mais 'passiva' e se destensionar para ser estirada (com o suporte de outros grupos musculares – ver meu artigo sobre 'vocalizes X exercícios'). Mas, façamos como sugeriu o Eric Voegelin e voltemos à experiência original. Por que achei a pista da IVTOM relevante? Porque ela citou o canto lírico e o canto lírico foi a primeira técnica vocal formalizada, há pelo menos 200 anos, de forma antifrágil, à base da tentativa e erro. Naquela época eles sequer sabiam que existiam as pregas vocais (elas só foram 'vistas' funcionando pela primeira vez, no séc. XX). Então, com certeza, como no lírico as delimitações dos registros no canto são bem distintas para homem e mulher, achei que a probabilidade de os termos se adequarem à altura da extensão vocal era bem mais razoável – veja só, como instrumentos de sopro, a 'voz de cabeça', seria uma voz como a da flauta ou o violino, enquanto a voz de peito seria algo como o trombone ou o violoncelo! Levando em consideração também a necessidade do lírico de projetar fortemente a voz, e conhecendo o funcionamento fisiológico da voz, não seria de todo errado associar não só os termos 'peito' e 'cabeça' com a altura das notas, mas neste caso específico, é possível especular também que os termos podem se aplicar às situações de prega vocal ativa e passiva – aí começa a fazer sentido também a idéia da mudança de 'sensação'.

Ufa! Deu pra acompanhar até aí? Se for pensar na conclusão à qual cheguei, acho que é possível notar (assim espero) que, ao menos quando falamos em prega vocal, não existe uma diferença substancial de 'falsete' e 'voz de cabeça', o que faz com que muita confusão tenha origem justamente na tentativa de se associar 'voz de cabeça' à mera forma de projeção (que tem mais a ver com fonoarticulação, e isso é assunto para outro artigo), ou a alterações estéticas, que podem compreender a ação de outros músculos da laringe (afinal, não existem somente as pregas vocais dentro dela) ou até da fonoarticulação também.

Por isso, ao menos com meus alunos, sugiro convencionarmos abandonar (ao menos parcialmente) estes termos. Até porque no canto popular (contemporâneo), sem a necessidade de “potência” como no canto lírico, temos mais liberdade estética e podemos ainda usar diferentes graus de pregas vocais 'ativas' e 'passivas' ao longo da extensão (justamente daí aparecem termos novos no século XX e XXI como a própria Mix voice, ou a 'true head voice, e muita gente 'ensina' a tal 'mudança de registro' no YT). Viu como depois de tentar refazer a experiência original, já nos afastamos de novo simplesmente porque apareceram formas diferentes de técnica vocal?

E é aqui que finalizo considerando o uso das figuras de linguagem no canto como um problema – e é um problema sem solução, pois, a cada nova descoberta sempre temos que recorrer a a elas! Primeiro, por causa do distanciamento dos conceitos com as experiências que lhes deram origem (pode ser que daqui a 50, 100 ou 200 anos os termos “prega passiva” e“prega ativa” também não façam mais sentido – as próprias pregas vocais, até o fim do século passado, eram chamadas de 'cordas' vocais). Vale lembrar aqui que os novos conceitos baseados em anátomo-fisiologia só foram possíveis graças ao aperfeiçoamento tecnológico dos métodos de diagnóstico: assim, mapearam-se os músculos da laringe, como funcionam, e até a quais regiões da extensão vocal cada um se relaciona. Segundo: a conduta do mau-profissional que tenta dar a 'carteirada' usando termos consagrados e, ao invés de estudar o que significam na vida real, tenta deduzir seu sentido (ou até inventá-lo) pelo que as palavras lhe evocam – o que o faz ir parar cada vez mais longe. Se isso acontece com 'voz de peito' e 'cabeça', já pensou o que podem realmente significar “apoio diafragmático”, “tirar a voz da garganta”, “falsete”, “cantar com o diafragma”? Spoiler: alguns são termos que se relacionam a ajustes e manobras bem definidos, mas outros às vezes não querem dizer nada!

5,0 (2)
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