Heidegger: salvar é deixar-ser

Filosofia Enem Geral
Heidegger: salvar é deixar-ser
Luiz S.
em 14 de Setembro de 2020

O seguinte ensaio tem a intenção de apresentar como Nancy Manguabeira Unger faz uma aproximação da filosofia de Heidegger com os problemas da educação ambiental. Apontando quais são os problemas do ponto de vista filosófico da relação do homem com o meio ambiente, o que os gerou e o que pode mudar essa relação, que do ponto de vista de Heidegger aponta para um empobrecimento do homem, ou seja, do esquecimento da questão do ser. 

A autora do texto nos lembra que apesar de Heidegger não ter escritos sobres ecologia, seu pensamento fornece fundamentos interessantes para pensar a questão. Para Heidegger nosso problema com as outras formas de vida, com a natureza, é um problema gerado pelo esquecimento do ser- o significado dessa expressão vai ser esmiuçado durante o ensaio. O pensamento de Heidegger pode ser de grande valia para a resolução dos aspectos filosóficos da ecologia. Em outros termos, a resolução desse tema passa por um questionamento ético da relação do humano com o meio ambiente.

Podemos extrair do pensamento heideggeriano que, certamente essa relação precisa fundamentalmente se basear na convivência ética com a natureza, que se baseie no respeito e cordialidade. Extraímos essa conclusão, a partir da busca que o filósofo faz do sentido originário da palavra ethos, palavra que traduzimos no português como ética. No grego o significado de ethos é "uma morada, não no sentido material com paredes e teto, mas como a ambiência, o modo de ser em que o ser humano realiza sua humanidade” (UNGER, p.158). Se a ética tem a ver com o morar, no pensamento de Heidegger todo morar tem a ver com o preservar. Não apenas no sentido negativo, de não causar danos a algumas coisa, mas também no sentido positivo, quando deixamos algo ser, de acordo com sua própria natureza. Preservar não é apenas resgatar de um perigo, mas é também fornecer as condições necessárias para que alguma coisa se revele plenamente. "Salvar realmente significa deixar-ser" (UNGER, P.158). 

A dominação do ser humano sobre a natureza consiste numa atitude de apropriação, dominação sob a natureza, reduzindo-a a um mero objeto que necessita ter uma utilidade prática para a vida humana.. Através das palavras de Heidegger a autora explica esse domínio “[...] faz com que todo agir inoportuno e meramente calculador sobre ela se torne uma destruição. Essa destruição pode se apresentar sob a aparência do domínio e do progresso, na forma da objetivação técnico-científica da natureza, mas esse domínio permanece, entretanto, uma impotência da vontade” (UNGER, p.159, 2006, apud, Heidegger, 1971, p. 47). Para Heidegger, essa visão do mundo tipicamente moderna, impõe uma visão unilateral de se relacionar com a natureza (ou seja, a única relação com a natureza é de matéria-prima dos anseios de dominação) que empobrece a real riqueza da natureza humana que pode experienciar a vida de outros tantos modos. Como a autora coloca, "a pedrisse da pedra, o brilho da cor" (UNGER, p.160) não podem ser vistos apenas  com o que os olhos da atividade calculadora humana consegue captar, a capacidade humana vai muito além desse cálculo. A humanidade, para Heidegger, está sobre um ponto de vista sobre o mundo diferente sobre os outros seres e coisas de mundo, pois somos os únicos capazes na natureza de perguntar sobre o sentido do ser. A natureza e seus seres, são modos de revelação do ser, mas que não podem se revelar sob a égide do pensamento calculador que Heidegger aponta como supostamente uma herança da da modernidade.

O sentido originário de morar, não pode se realizar sem que o ser humano volte a lembrar do ser, ou seja, volte a ver a multiplicidade de sentido que toda a natureza possui em seu ser. Heidegger não pretendia com isso negar a dimensão do pensamento que calcula, considerando esse modo de pensar totalmente inválido ou como um contrário do ethos. Como diz a autora " o pensar que calcula é indispensável, mas é uma dimensão do pensamento. Sua especificidade reside no fato de que, quando planificamos e organizamos, lidamos sempre com condições já dadas de fazê-las servir a algum objetivo específico" (UNGER, p.160). Justamente por possuir essas características podemos através desse pensar, criar carros e aviões, que diminuem as distâncias entre as pessoas e os lugares, remédios e outros tratamentos, que aumentam a vida das pessoas, ou computadores que trabalham com informações numa velocidade que antes não era imaginada. O erro do ser humano é entender como real apenas aquilo que pode ser previsto, organizado, planificado. Portanto, se opõe a todo movimento ontológico espontâneo, que cresce livre de acordo com sua própria natureza, ou seja, é contrário a todo o deixar-ser. A autora (UNGER, 2006, p.161) explica o posicionamento de Heidegger: 

Para ele, os avanços tecnológicos resultantes da exploração da energia atômica deflagraram um movimento que se desenvolve num ritmo sempre mais acelerado, que já independe da vontade do homem. A planetarização de uma sociedade que aboliu fronteiras espaciais e temporais coloca um desafio para o homem contemporâneo enquanto tal: o desafio de aprender a lidar com o poder da técnica. Para que isso aconteça, precisa compreender seu sentido.

Precisamos do mundo da tecnologia e é hipócrita nega-lo. A atitude que precisamos tomar é de uma recusa a servidão da qual resulta da atual relação com a tecnologia que o ser humano mantém- não precisamos disso e nem dependemos disso enquanto seres humanos. O movimento acelerado da tecnologia passou a independer da nossa vontade. Portanto precisamos aprender lidar com todo o poder que o pensar calculado nos trouxe ou pode nos trazer, mantendo sempre independência em relação a tecnologia. Se o ser humano continuar se escravizando pelo própria maneira de pensar, limitada, continuará a cada vez mais se alienar da sua essência, essa que não se prende a um único modo de pensar, que pergunta sobre o sentido do ser. A humanidade precisa resgatar o sentido originário de ethos, que é de morada, de morada do ser. Recuperar esse significado de ethos, é consequentemente, manter uma relação com a natureza de equilíbrio, que significa no pensamento de Heidegger, lembrar do ser que está esquecido.

Mas como Nancy M. Unger explica (2006, p.162), só podemos lembrar daquilo que algum dia sabemos, isto é, em algum momento de nossa vida tivemos o contato com o significado do ser, algo que é impossível de evitar enquanto essência da natureza humana. O meio em que vivemos é sem dúvida parte essencial do que somos, porque é na relação entre nossa postura de espanto- “por que isso existe?”- em relação às outras formas de vida e da outras formas de vida, que temos uma abertura para experienciar tudo o que nós podemos viver, experienciar todas as formas de viver,  preservando a natureza no seu duplo sentido. Tanto não a destruindo como a desfrutando de maneira significativa que ultrapasse os sentidos imposto pelo mundo da tecnologia.

Chapecó / SC
Graduação: Filosofia (Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS))
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