Uma metodologia do ensino de filosofia

Filosofia Geral
Uma metodologia do ensino de filosofia
Luiz S.
em 14 de Setembro de 2020

O objetivo deste ensaio é tentar dar uma nova resposta ao problema do ensino de filosofia no ensino médio brasileiro. Mas, afinal, por qual motivo isso seria um problema? Os motivos são muitos, alguns são novos, outros antigos. Vamos a eles: as circunstâncias históricas da presença da filosofia- sua obrigatoriedade é um fato recente, pois por muito tempo sua situação foi irregular, ora obrigatória, ora opcional e até mesmo inexistente; ainda hoje existe uma certa insegurança. E somado a isso, antes da ditadura militar de 64 o ensino tinha um público com um arcabouço teórico e cultural elevado, de um grupo pertencente a uma elite econômica e intelectual, (fato importante se levarmos em conta a elevada exigência que se faz ao indivíduo que vai se relacionar com esta área de conhecimento mesmo que existam vários níveis de compreensão filosófica), e em 2008 quando vemos a filosofia voltar a obrigatoriedade, temos um público e um espaço na escola pública diferente, pois, este espaço foi gradativamente atendendo mais pessoas de classes desfavorecidas, e portanto, com um público historicamente distante da filosofia e da cultura erudita; e o espaço físico da educação básica na iminência de novos investimentos para atender o novo público, degradou-se. Outro problema, menos específico e mais antigo é se a filosofia pode ser ensinada devido a sua natureza, seu vocabulário geralmente truncado, se eu modo de operação geralmente distante da perspectiva cotidiana, de dificuldade sempre grande, como apontou o filósofo brasileiro Silvio Gallo no prólogo de seu livro Metodologia do ensino de filosofia. Levantou também o problema: se a filosofia se encaixa numa didática geral ou se possui uma especificidade. Da filósofa brasileira Lídia Rodrigo, seguindo as consequências da dificuldade de aprender filosofia e da educação brasileira voltada para a massa, lançou-se o problema: como democratizar o ensino desta área do saber- ou seja torná-lo acessível para o aluno desfavorecido em muitos sentidos-, sem descaracterizar a filosofia, ao traze-lá a um nível de compreensão menos profundo, torná-la banal ou ainda ensinar uma coisa que não é filosofia mas chamar isso de.

Antes de fazer as minhas considerações cabe colocar brevemente as respostas que deram os filósofos brasileiros acima citados, pois são dessas respostas que partirei, ou seja, concordo, ao menos em parte, com a solução por eles proposta. Na medida do possível buscarei pontos de convergência entre os dois. Sobre a especificidade da filosofia, ambos concordam que a filosofia tem um jeito de particular de ser ensinada (isso responde também aquele problema antigo colocado anteriormente), e esse jeito tem de ser filosófico. Tanto a prática, quanto, o sentido teórico que fundamenta a prática, deve ser feito a partir de deslocamentos- transformar os conceitos filosóficos em conceitos educativos. Isso é também uma solução para o problema de não banalizar e democratizar o ensino ao mesmo tempo levantado por Lídia Rodrigo, “Para não pagar o preço da descaracterização da filosofia torna-se imprescindível adotar procedimentos didáticos que sejam especificamente filosóficos.”(RODRIGO,2009, pg.4). E também deve-se lembrar que o objetivo do ensino médio não é formar filósofos. Assim faz-se necessário atentar para o nível de dificuldade para o público- com isso analisar o que pode fazer sentido para o público leigo; evidentemente não é o mesmo para o especialista pois este está em um nível maior de compreensão, já conhece a esse saber e se aprofunda. Gallo aparentemente concorda com isso quando diz:

“O desafio do professor de filosofia no Brasil hoje, consiste em inventar uma prática de modo que o aprendizado de filosofia faça sentido para os jovens estudantes.” (Gallo, “Prólogo”, XI).

Essas considerações (que evidentemente foram dadas de forma mais profunda pelos filósofos citados), são possíveis soluções para os problemas colocados no primeiro parágrafo do texto.

Se é preciso criar à partir de um deslocamento de filosofia para educação, é crucial mostrar e defender uma maneira de fazer filosofia. A concepção de filosofia que adotaremos (obviamente, não de modo absoluto) é a do filósofo francês do século XX Gilles Deleuze: o que distingue a filosofia de todas as outras áreas é a criação de conceito, ou seja, chamando essa atividade de fazer filosofia ou não, criar conceito é fazer filosofia. Costumou-se dizer que a filosofia era contemplação, reflexão e comunicação. Embora a filosofia também realize tais atos, não é isso que constitui sua especificidade. Não é contemplar, porque isso constitui algo passivo, estático, não é criativo, não cria conceitos, não existe um céu cheio de respostas e que basta contemplá-lo para fazer filosofia.. Não é comunicar, pois a comunicação visa consenso o que geralmente não é o caso da filosofia; o conceito gera mais dissenso do que consenso. Não é refletir, pois isso não é específico do filósofo; posso refletir sem ser filósofo e sobre qualquer coisa que não seja filosofia. A resposta para o filosófo então é: a filosofia deve criar conceitos,

O leitor pode se perguntar: por que o filósofo cria um conceito? Porque ele é afetado por um problema, se sente na obrigação de responder, faz isso sem perceber. Os problemas são o germe da filosofia; ela não surge do nada, os conceitos não se fazem por nada, se fazem, pois, para sugerir alguma compreensão, algum caminho- o caminho do filósofo é o conceito. Mas, como um problema tem vários componentes, várias maneiras de afetar alguém, as soluções vão variar, os conceitos também, as conexões e os arranjos com conceitos e entre conceitos de maneira análoga. É deste germe que surge uma possível resolução do problema: como unir prática e teoria? Se a filosofia vem de uma situação prática (uma afecção) e desta cria-se o conceito, o conceito torna-se um acontecimento, não é mais mera abstração como pretendia a tradição metafísica do ocidente de modo geral. Teoria e prática se misturam.

Se se aceita o que eu disse temos como consequência: a defesa que farei se dará num único âmbito mas que contém uma multiplicidade. As questões sobre o ensino de filosofia, a saber: qual o objetivo geral? Com que prática? Sob quais princípios? Se respondem com a consideração: o germe da filosofia é o problema e é deles que surgem os conceitos. As duas últimas questões foram respondidas no outro parágrafo. A resposta da primeira é: suponhamos que a prática e a teoria visam um fim; da explicação das duas temos duas conclusões- a primeira é que elas se cruzam, se misturam e fazem parte de um mesmo platô; se o ponto de partida das duas é a afecção (criar conceito é fazer e saber filosofia é conhecer) que um problema causa, esse ponto de partida se dá numa microesfera de forças, sempre coletiva. Dessas proposições, se as considerarmos válidas, temos duas possíveis conclusões: o objetivo máximo da educação se dá numa micropolítica (educação menor) e as soluções para as três perguntas iniciais se dão num mesmo âmbito ou platô.

A nossa proposta não é universalizante porque dizer algo para todo mundo fazer é apagar a subjetividade de cada coletivo de forças e também porque resulta numa tentativa antifilosófica- se filosofia é criação de conceitos a repetição segundo uma prescrição não é filosofia- é um processo meramente mecânico.

O ensino da filosofia deve começar na ordem inversa a qual havíamos colocado acima para explicar o porquê da filosofia, a saber, do problema ao conceito, assim disse Sílvio Gallo no seu livro Metodologia do ensino de filosofia:

O problema, que, como vimos, é sensível, pré-racional, só pode ser compreendido, isto é, equacionado racionalmente, de forma regressiva, partindo de sua solução, que é o conceito. Assim, diríamos que no estudo da filosofia não se trataria de compreender o conceito pelo problema que o suscita, mas, ao contrário, compreender o problema com base no conhecimento do conceito que foi produzido a partir dele. (80.p)

 

O motivo para se conduzir assim a aula é o de não cair em certos erros, que é o erro do controle do docente. O professor apresenta um assunto, apresenta um problema, apresenta uma solução- o professor tornar-se o detentor da verdade e age de maneira controladora, mecanizando e mecanizando-se. Isso não significa não apresentar a qual solução chegaram os filósofos consagrados, é preciso mostrar o diferente e alguma possibilidade; só que se o docente ficar só neste nível o aluno não poderá experienciar o problema de uma maneira que possa fazer sentido para ele, o aluno tem que ser forçado por si mesmo a pensar pelo problema e quem sabe (em estudos mais avançados ou em níveis menos profundos) até mesmo criar sua solução, criar seus conceitos e seus deslocamentos. Concordamos, de modo geral, com o autor de Metodologia do ensino de filosofia, quando afirma: “Experimentar o problema, produzir o conceito, uma não sendo possível senão por intermédio de outra, e seus modos de ação sempre singulares, múltiplos, plurais.”(GALLO, 2O12,p.81). Mas, penso que é preciso levar em conta os limites do espaço e tempo em que o aluno está inserido e o arcabouço teórico do mesmo. É certo que o professor deve auxiliar qualquer que seja a situação do estudante, mas como o próprio Gallo afirma no mesmo livro citado antes “… o pensamento é um exercício de paciência.” (GALLO,2012, p.23). Os três anos e as limitações com que boa parte dos estudantes chegam na escola não nos permite formar filósofos. É o que disse a filósofa Lidia Maria Rodrigo no livro A filosofia na sala de aula:

 

 “o objetivo desse ensino não é formar filósofos… Esses pontos são importantes para evitar que se cometa o equivoco de instaurar no ensino médio exigências que seriam descabidas em relação ao seu âmbito de atuação.” (p.17).

 

Gallo propõe que o aprendizado, intimamente ligado à concepção do que é filosofia de Gilles Deleuze, se dê em quatro momentos (mas o autor insiste em que são quatro coordenadas e cada profissional terá que recriar essas dicas segundo seu ambiente): sensibilização trata-se de fazer o aluno afetar-se pelo problema filosófico; assim como ele, penso que uma ótima maneira de afetar os estudantes se dá através da arte; uma música, um filme, uma imagem. Tudo isso com o fim de chamar atenção. Como somos o resultado de forças diferentes, somos afetados por forças diferentes, cabe, então, a cada docente procurar o que afeta sua classe, ao menos de maneira geral. Problematização- o objetivo deste passo é fazer uma desterritorialização do objetivo em que foi afetado; instigar senso crítico, junto deles propor desafios, quebrar opiniões cristalizadas, fazer e receber perguntas. Investigação: nesta etapa o professor apresenta como a história da filosofia resolveu o problema suscitado pelo tema da afecção. Como os filósofos responderam esse problema. Neste passo é possível, dependendo do nível da turma, apresentar trechos diretamente dos filósofos, escrever textos didáticos, apresentar obras que explicam os grandes nomes (aqui faço como Gallo- o professor dentro de sua situação deve buscar a melhor maneira de passar por esta parte do caminho!). Conceitualização: e por último, talvez o passo mais importante, pois é neste passo que o estudante faz seu próprio movimento; junto da caixa de ferramentas da história da filosofia o aluno tenta responder os problemas da segunda etapa. Seja se apoiando em alguma concepção, recusando alguma, enfim- aqui pode ser um espaço de criação, de rearranjo, e quem sabe de novos conceitos.

Agora retorno ao conceito de educação menor, que dentro da concepção de metodologia do filósofo supracitado, seria como o objetivo máximo da educação, embora não seja absoluto e universal porque se dá de maneira diferente e em espaços diferentes. O menor  só se da em oposição ao maior. Dito isso, a educação menor é em oposição a maior. E o que caracteriza a educação maior? É aquela dos grandes planos, das bases curriculares, aquilo que está de acordo aos poderes dominantes. Silvio Gallo em seu texto (re)pensar a educação,  descreve aspectos do conceito de poder do filósofo francês Foulcault que podem ser úteis para a compressão do menor. “Se há poder, há resistência”-  se existe um poder dominante existe uma resistência a esse poder. A educação menor é uma resistência a maior; é uma resistência aos grandes planos, resistência ao controle, a imagem de pensamento- em suma, resistir a maneira antifilosófica de se ensinar filosofia que geralmente não faz sentido para os espectadores destas aulas, que não sensibiliza, que não faz o aluno sentir a necessidade de responder os problemas, que não faz o aluno ver o problema. Esse ensino resulta em inocuidade, em mero exercício mnemônico.

Durante o texto lançou-se muitas perguntas; na conclusão optamos por retomar diretamente as nossas teses, pois, elas são o objetivo do texto e nelas estão implicitadas uma outra gama de respostas. Concluindo: a filosofia possui uma didática própria e não geral- é preciso que seja uma didática filosófica, que trabalhe com deslocamentos de conceitos filosóficos para educacionais. Assim como Silvio Gallo, o deslocamento do filosofico para o educacional foi feito à partir da concepção deleuziana de filosofia- isso implicou em um objetivo geral, em uma prática e em uma teoria. O objetivo geral é a educação menor- o objetivo do ensino de filosofia é ir em oposição às formas de educação dominantes que apagam a subjetividade humana e uniformizam a massa; ir contra a educação maior. A teoria e prática devem valorizar a natureza do saber e fazer filosófico, a saber, a filosofia como uma criadora de conceitos em respostas a problemas que nos afetam- em ambos os âmbitos se dando no acontecimento.

 

REFERÊNCIAS:

Gallo, Silvio. Metodologia do ensino de filosofia: uma didática para o ensino médio. Campinas. Papirus, 2012.

Rodrigo, Lidia Maria. A filosofia na sala de aula: teória e prática para o ensino médio. Autores associados, 2009.

SILVEIRA, Renê José Trentin; GOTO, Roberto (Org).Filosofia no ensino médio: temas, problemas e propostas. São Paulo. Loyola, 2007 

GALLO, Sílvio; KOHAN, Walter Omar. Filosofia no ensino médio.3. ed. Petrópolis: Vozes, 2001. 





 

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