A autonomia da estética e a ciência do sensível

Filosofia Geral
A autonomia da estética e a ciência do sensível
Luiz S.
em 14 de Setembro de 2020

A arte é uma atividade presente das organizações humanas a muito tempo. Mas, apenas no século XVIII o termo estética começou a ser interpretado como uma ciência do sensível (um esquema epistemológico sobre as concepções de belo) através do trabalho de Baumgarten. Obviamente que o problema de uma objetificação do belo não era uma novidade para a filosofia. Aristóteles e Platão nos seus extensos esquemas teóricos, não deixaram de algum modo contribuir para a formação do conhecimento na formação da ciência do belo. Mas há também um percurso histórico entre o período medieval e moderno que precisa ser explicado para podermos compreender o processo de formação da estética como um ramo da filosofia, com seus próprios critérios para a formação de uma ideia de belo. Essa história a ser contada nada mais é como o ocidente enxergava o artista. O texto “autonomia da estética” representa uma boa fonte para a compreensão desse processo de visão do mundo ocidental sobre o artista, mostrando como só a partir de uma mudança de paradigma do olhar sobre o artista foi capaz de colocar as condições para a autonomia da estética enquanto uma área de estudo da filosofia.

No período medieval o artista era apenas um mensageiro da vontade divina. Cabia-lhe apenas esforça-se para conceber a obra de arte através do seu dom concedido por Deus. Porque motivo o artista era visto desta maneira?  Pois a sua obra não lhe pertencia, ela era de Deus, sendo este o centro conceito da arte e do artista. Pois como poderia ser possível o homem criar alguma coisa a partir do nada, só existe um criador e esse criador é Deus. O poder de criar até a si próprio pertencia Deus, os seres apenas deveriam seguir o que lhes foi designado. Por esse motivo que período, os artistas eram chamados de artesãos. As obras de artes eram bens utilizáveis, que tinham uma função social determinada. Não eram criadores, pois vossos trabalhos eram privados de qualquer genialidade de criação, detinham apenas o poder de imitar e repetir uma técnica pré-estabelecida por seus antepassados. Nesse contexto, o ser humano se via como incapaz da criação e consequentemente da definição de beleza. Sendo assim a estética não poderia ter autonomia, pois não estava ao alcance humano. Neste caso a origem da arte é a natureza, e portanto o artesão precisa de seu criador para ser capaz de vislumbrar a obra de deus, e fazer com que seja mais parecida possível. A arte é mimética. Quanto melhor a mimese for feita mais bela é obra

No período do renascimento o artista começa a representar outros significados. O artista não era mais visto como artesão bem como diferia sua função social. Não produzia mais objetos com finalidades bem estabelecidas como uma cama, uma cadeira, um vaso, mas era contrato por alguma pessoa muito rica que lhe pagava para lhe fazer obras de arte. Os nobres tinham artistas em um sentido de empregado, pois era assalariado respondendo a algum mandatário. Mesmo estando deste modo submetido, o artista passa a se distanciar do papel que era cumprido pelos artesãos. O mercado da arte de pinturas, esculturas e entre outras começa a cada vez mais agregar valor a esses itens. A obra passa a ser identificada com o artista, dono de seu talento, embora ainda motivado por Deus. Esse mercado definia os preços segundo alguns critérios. A emoção que a uma certa obra passa, a técnica utilizada, as emoções que essa obra faz o espectador sentir. A arte passa lentamente a ser reconhecida como uma produtora real de afetos, produtora da sensibilidade. Na renascença, o objetivo da arte passa a ser diferente do período, tendo o objeto da arte se voltando para a sensibilidade. Aos poucos a arte se preocupa menos em mimesis e se preocupa mais com uma expressão, que quanto mais original melhor. O artista passa a se ver mais e mais como um criador.

A estética, através dessa mudança de paradigma começa a cada vez mais se desenvolver e adquirir sua autonomia enquanto uma disciplina filosófica. Precisa, então buscar então desafiar os conceitos que constituem a arte e fundar de alguma maneira uma ciência da sensibilidade. Fazer isso em outras palavras é ser capaz de argumentar a favor da capacidade das faculdades humanas serem capaz de criar; ver o homem criador é indispensável na formulação da teoria estética. O obstáculo que Baumgarten enfrentou foi a da  conciliação entre arte e teoria, razão e sensibilidade.

O filósofo aceitou esse desafio na intenção de confirmar uma afirmação nova e de certo modo ousado. Razão e sensibilidade não estão na verdade separadas, mas formam um conjunto heterogêneo no intelecto humano. Uma faz com que outra funcione em um sistema único, sem a separação feita pelo platonismo entre experiência sensível e razão. Deste modo, os fundamentos da estética não são opostos aos fundamentos da razão. Ou melhor, é possível dizer que a estética tem fundamentos, assim como as outras ciências. E um fundamento metafísico. Baumgarten colocou fim a uma barreira que de fato não existia, possibilitando o homem a superação dos objetos estritamente racionais para os objetos da sensibilidade. A arte passa a ser vista como uma instância indispensável a qualquer um que pretenda ser um homem do conhecimento. Baumgarten pretensamente resolve a confusão entre razão e sensibilidade.

A estética do filósofo está comprometida antes de qualquer coisa, com a capacidade de emitirmos juízos universais na estética. Mas por qual razão outorga tanto valor a sensibilidade estética, sendo uma característica essencial aos homens do conhecimento? Pois é através dessa sensibilidade da arte que o homem é capaz epistemicamente alcançar a totalidade ontológica da realidade. Para Baumgarten, a arte representa a instância exterior da unidade da realidade (entrelaçando a sensibilidade com a razão). Através dessa nova consideração sobre a arte, o artista passa a ter uma posição epistèmica privilegiada da realidade, e que apenas através da razão nenhum sujeito poderá atingir a unidade que compõe a realidade. Isso faz com que todas as ciência se modifiquem e se submetam aos ditames da estética, fazendo com que outras ciências tenham que se adequar a experiência artística para fazer ciência teórica. Como afirma TOLE (7.p, 2007): “Pois não é bem o pensamento que deve fornecer parâmetros para a arte, mas essa última que deve medir parâmetros para o êxito dos esforços da atividade intelectual em se apropriar dos diversos aspectos da vida.”

Baumgarten parece fazer uma afirmação simples num primeiro momento, mas se a história da filosofia estiver ao nosso alcance podemos compreender o quão forte é tal afirmação. É uma inversão do esquema ontológico platônico, que colocava os artista para fora da realidade, e da cidade na República. Entretanto, se compromete metafisicamente na formulação do seu esquema.

 

Paradoxalmente, a ciência do sensível precisa se afirmar confirmando a existência do corpo, indo contra a metafísica moderna de Descartes por exemplo. Por outro precisa, reconhecer também que as coisas recebidas pela sensibilidade pode ser transformada pela sua própria alma. Sua psicologia do conhecimento exige novas condições entre a relação entre o corpo e alma, fazendo com que as percepções que o corpo é afeto se fazem indispensáveis na formação intelectual da alma. A sua metafísica ao mesmo tempo esforça-se para não tornar os corpos realidades externas. O alma e o corpo para Baumgarten são uma unidade, o material e o espírito são na verdade um só e partes de uma mesma coisa, que é a realidade .

Pensamentos, percepções, idéias: tudo isso são agora modificações subordinadas ao referencial corpóreo que podem ser reunidos no conceito de representação, este termo que não designa nem idéia nem percepção, tampouco signo ou imagem, mas um domínio que só pode ser compreendido como o do significado e do sentido. (TOLE, 2007, P.34).

Através dessas novas considerações sobre a razão e a sensibilidade Baumgarten, cria uma maneira capaz de emancipar a estética enquanto ciência. Os objetos da estética agora se tornam tão cognoscíveis quantos os objetos da matemática. Em outras palavras, razão e sensibilidade são coisas diferentes, complementares e não contraditórias como era na filosofia platônica. A estética passa ultrapassar limites que antes a impediam de ter uma importância. Cada vez mais se tornou independente dos dogmas da religião, da filosofia e da sociedade, permitindo assim uma expressão original através da arte e segundo o filósofo alemão, primordial do ponto de vista epistemológico, ontológico e antropológico. O homem é detentor de faculdades criativas, é por isso torna-se capaz de compor e criar através da artes, que antes não eram consideradas adequadas. Antes disso o artista era considerado bom quando conseguia cumprir com o dom de deus e representar a criação de deus, a natureza. A arte era a cópia da cópia segundo Platão, e os poetas que deturpam as Ideias devem ser expulsos. Para Baumgarten a arte deve cumprir um papel expressivo, de comunicação harmoniosa entre o sentimento do espectador. Quanto mais em harmonia o sentimento do artista está com o sentimento o espectador mais bela é a obra de arte. Isso consequentemente faz com que o artística consiga perceber de maneira precisa, enquanto é um objeto de conhecimento. Nos termos do autor, devemos preferir as percepções claras em relação às percepções obscuras. Pois quando não se percebe claramente esquecemos de que a realidade é um fator interpessoal, de conexão entre corpos. O espectador deve se entregar completamente a experiência artística para poder chegar na totalidade prometida pelo filósofo.

Referências:

JIMENEZ, Marc. O que é estética. Tradução de Fulvia M. L. Moretto. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 1999.

TOLLE, Oliver. Luz Estética: a ciência do sensível de Baumgarten entre a arte e a iluminação. 2007. 140 p. Dissertação (Pós-Graduação do Departamento de Filosofia) – Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, 2007.

Chapecó / SC
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