Trovadorismo- Parte I
Marilia C.
em 14 de Maio de 2019

“Vou negando as aparências, disfarçando as evidências...”

 

            Domingo à tarde. Dia fresquinho. Você está no sofá curtindo aquele docinho da sobremesa dominical quando, de repente, o vizinho liga o som. E lá vem a sessão sofrência... Não sei quem me deixou e agora eu quero pular de uma ponte. Não sei mais o que fazer sem essa mulher. Leva tudo, só não leva meu cachorro. E por aí vai.

            Logo, você pensa: “Ah, essas músicas de hoje...”, mas a sofrência, meu amigo, não começou hoje não, na verdade, ela já tem aí quase 900 anos de muita tristeza e lamentação.

            A sofrência sem fim tem suas raízes no movimento literário batizado de Trovadorismo, que aconteceu em Portugal entre os anos de 1189 e 1527. Na verdade, a data de início do Trovadorismo é um pouco confusa, pois há especialistas que indicam que o ano inicial é 1198. A bagunça acontece por conta de inúmeros documentos oficiais que se perderam ao longo dos anos (ou foram destruídos) e pela deterioração do que havia disponível.

            De qualquer forma, quem deu o pontapé inicial no movimento foi Paio Soares Taveirós, com sua Cantiga da Ribeirinha, primeira grande cantiga (encontrada) do Trovadorismo. E olha só o babado forte: essa cantiga foi encomendada pelo rei Sancho I como um presente à sua amante, D. Maria Pais Ribeira, ou a Ribeirinha.

            Estamos no contexto histórico e social do Feudalismo, o que significa dizer que a Igreja Católica detinha 2/3 de toda a terra disponível para a plantação, sendo a instituição mais poderosa da época. Em troca de favores e apoio, a Igreja cedia pequenos trechos de terra aos senhores feudais, que, por sua vez, não perdiam a chance de levantar um dinheirinho.

            Para encher seus porquinhos de grana e suas barrigas de comidinha, os senhores feudais dividiam a terra em feudos, ou seja, em pedaços menores, e colocavam ali famílias para trabalhar na plantação e colheita de alimentos, além disso, os suseranos (outro nome para os senhores feudais) também ofereciam proteção à terra e à vida dos trabalhadores, já que estamos falando de um tempo de invasão e conquista de território. Com tudo isso, o que mais um pobre trabalhador podia querer, não é mesmo? Trabalho, casa e proteção, era o sonho de qualquer um.

            Em troca, os senhores feudais, cheios de bondade em seus coraçõezinhos, cobravam só uma parte da colheita e alguns poucos impostos, mesmo assim, aos olhos do trabalhador, o senhor feudal era uma espécie de deus e daí surge o sistema de vassalagem.

            A produção literária do Trovadorismo consistia em cantigas, poemas musicados para serem cantados em praças públicas. Isso porque apenas 2% da população sabia ler e escrever, então para que escrever algo se ninguém iria ler? Não era uma opção inteligente.

            Dentre os vários tipos de cantigas trovadorescas, destaca-se a cantiga de amor, que reproduzia exatamente a relação que acontecia nos feudos. É justamente nela em que temos o pote de ouro da sofrência máxima.

            Nas cantigas de amor, há um homem apaixonadíssimo, normalmente de posição social inferior. Mas o sujeito é ousado, ele está de quatro pneus arriados por uma mulher nobre, inatingível ou por sua posição social ou por ser casada. Já sabe no que essa história vai dar, né...

            Choro, lamentação, tristeza, vontade de pular da ponte... um sofrimento tão intenso que ganhou até nome especial: coita amorosa. Os homens não podiam ter essas mulheres e por isso expressavam todos seus mimimis nas cantigas, colocando-se na posição de servo e exaltando a mulher ao cargo de “senhora feudal”, aquela que detém todos os poderes. É basicamente como se colocar na posição de um tapete de entrada em dias de chuva.

            Há ainda outros tipos de cantigas trovadorescas. De pouquinho em pouquinho, vamos conhecê-las e você vai perceber que o chororô do som do rádio do seu vizinho é mais velho que sua avó.

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Santo André / SP
Graduação: Letras- Português/Inglês e suas respectivas Literaturas (Fundação Santo André)
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