Não existe um único "clique" em que uma criança de repente sabe ler e escrever. A alfabetização é um processo com etapas bem definidas. Cada criança passa por fases diferentes de compreensão sobre como funciona a escrita, e isso não segue um calendário rígido: alguns chegam ao 1º ano em uma fase, outros em outra.
Conhecer essas fases ajuda o professor a entender o que a criança já compreendeu e o que ainda precisa descobrir. Neste texto, você vai ver as principais fases da escrita infantil e como observar em qual estágio cada aluno se encontra.
A importância de conhecer as fases
Quando um professor conhece as fases da alfabetização, ele consegue:
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- Entender que erros e "grafias estranhas" não são acaso, mas processos cognitivos legítimos.[1][4]
- Oferecer atividades no nível de desenvolvimento de cada criança, nem muito simples nem muito difícil.
- Intervir de forma adequada, sem cobranças irrealistas.
- Respeitar o tempo de cada aluno, sabendo que nem todas chegarão ao mesmo ponto no mesmo mês.
As fases foram sistematizadas principalmente por Emília Ferreiro, pesquisadora que estudou como as crianças constroem a compreensão da escrita.
Fase 1: Pré-silábica
Nesta fase, a criança ainda não percebe relação entre a escrita e a fala. Características:
- Usa rabiscos, traços aleatórios ou desenhos, imaginando que está escrevendo.
- Pode copiar letras, mas de forma desorganizada, sem intenção.
- Entende que "escrever" é atividade diferente de desenhar, mas não compreende como.[1][4]
- Acha que textos diferentes precisam ter letras diferentes (uma palavra "gato" deveria ter mais letras ou letras especiais em comparação a "pai", porque é uma coisa maior).
Exemplo: quando pede para escrever "gato", a criança faz uma sequência aleatória de letras: "MKPQR", sem nenhuma relação com os sons da palavra.
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O que fazer nesta fase:
- Oferecer contato com letras de forma lúdica (blocos de madeira, letras em EVA, fogo com letras).
- Ler muito para a criança.
- Escrever na frente dela, nomeando as letras e os sons.
- Jogos com sons, rimas e parlendas para desenvolver consciência fonológica.
Fase 2: Silábica
A criança começa a compreender que existe relação entre a fala e a escrita. Ela tenta usar uma letra para cada sílaba falada. Características:
- Escreve uma letra ou um símbolo para cada sílaba (ou pedacinho da palavra quando falada).
- A letra usada pode ser qualquer uma; não precisa ser a correta.
- Começa a tentar usar algumas letras "reais", misturadas com símbolos ou letras inventadas.[1][4]
Exemplo: para escrever "gato" (que tem 2 sílabas: "ga-to"), a criança escreve "AB" ou "MN" – dois símbolos para duas sílabas. Ou "GA-TU", usando letras que existem, mas a segunda silaba não corresponde exatamente ao som.
Subetapas:
- Silábica sem valor sonoro: usa letras, mas não se importa se a letra representa realmente aquele som.
- Silábica com valor sonoro: usa uma letra que faz sentido para aquela sílaba (por exemplo, "G" para "ga", mas "O" para "to", porque "O" faz sentido como vogal).
O que fazer nesta fase:
- Continuar com leitura compartilhada.
- Oferecer palavras para que ela estude e tente escrever, observando a relação som-letra.
- Trabalhar consciência de sílabas: bater palmas enquanto fala as sílabas, usar sílabas soltas para formar palavras.
- Ampliar o conhecimento de letras e seus sons.
Fase 3: Silábico-alfabética (ou Fase Intermediária)
A criança percebe que às vezes uma letra representa uma sílaba, mas outras vezes precisa de mais de uma letra para uma sílaba. É uma transição. Características:
- Mistura os dois sistemas: às vezes escreve uma letra por sílaba, outras vezes escreve mais.
- Começa a usar mais letras "corretas", mas não em todas as sílabas.
- Ainda comete "omissões" ou "adições" de letras.
Exemplo: para "gato", escreve "GAT" (onde "GA" = sílaba inteira representada por duas letras, e "T" representa a sílaba "to", mas só a consoante).
Ou: "GATO", mas escreve "GTO", omitindo uma vogal.
O que fazer nesta fase:
- Aumentar o trabalho com sílabas e segmentação de palavras.
- Oferecer atividades com rimas, aliterações (palavras que começam com o mesmo som).
- Trabalhar a estrutura silábica (consoante + vogal, consoante + vogal + consoante, etc.).
- Ditados com feedback positivo (mostrando o que acertou, não só o que errou).
Fase 4: Alfabética
A criança já compreende que cada letra (ou grupo de letras) representa um som específico. Ela consegue escrever palavras, ainda que com erros de ortografia. Características:
- Usa uma letra para cada som (fonema), aproximando-se muito da escrita convencional.[1][4]
- Os erros agora são principalmente ortográficos (não phonéticos): sabe qual é o som, mas erra na convenção (por exemplo, "cassa" em vez de "casa"; "chave" em vez de "xave").
- Consegue ler, mesmo que precise "decodificar" (juntar sons).
- Começa a criar frases e textos.
Exemplo: para "gato", escreve "GATO" (correto!). Se errar, pode ser "GATU" (entendeu a relação som-letra, só errou a vogal final) ou "GATUU" (adicionou letra).
O que fazer nesta fase:
- Trabalhar a ortografia e convenções da língua (quando usar "S" ou "Z", diferença entre "SS" e "Ç", etc.).
- Incentivar a escrita de textos maiores (frases, pequenas histórias).
- Trabalhar a fluência da leitura (ler com velocidade e compreensão).
- Oferecer modelos de diferentes tipos de texto (lista, bilhete, história, poema).
Como observar em qual fase está a criança
Para identificar a fase, observe:
- O tipo de escrita espontânea que ela produz (se você solicitar para escrever seu nome ou uma palavra simples sem modelo, o que ela faz?).
- Como ela lê (se consegue ler, de que forma?).
- As tentativas de escrita em atividades da rotina (ao escrever seu nome na chamada, em um convite, em uma lista).
Dica importante: não assuma que uma criança está em uma fase por sua idade ou série. Duas crianças do mesmo 1º ano podem estar em fases diferentes, e isso é normal. Cada uma tem seu tempo de construção cognitiva.
As fases não são lineares nem rígidas
É importante lembrar que:
- Uma criança pode estar em fases diferentes para situações diferentes. Por exemplo, pode escrever seu nome de forma mais "avançada", mas usar escrita mais "primária" para palavras novas.
- Pode haver avanços e recuos, especialmente em períodos de mudança ou stress.
- A duração em cada fase varia muito, especialmente baseado em experiências de letramento da criança.
Conhecer as fases não é para rotular a criança, mas para entender sua lógica e oferecer o desafio adequado no momento certo.
A alfabetização é um processo de construção progressiva. As fases ajudam você a enxergar que cada "erro" ou forma "estranha" de escrita é, na verdade, uma hipótese cognitiva legítima que a criança está testando. Quando você identifica a fase, consegue oferecer exatamente o que a criança precisa para avançar: nem muito fácil (que não desafia), nem impossível (que frustra).
Escolha uma criança de sua turma cuja escrita você quer entender melhor. Peça para ela escrever algumas palavras ou um bilhete espontaneamente e analise: em qual fase ela parece estar? Com base nisso, que atividades você poderia oferecer?