A condição humana
Edison M.
em 24 de Dezembro de 2015

Tempos atrás li o livro “25 minutos: a vida de Chiara Luce Badano”, de autoria Franz Coriasco. Admito que eu ouvia falar muito dela por terceiros: dos jovens da Igreja, e tempos atrás soube que ela havia sido escolhida como uma das intercessoras da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2013. Mas até então, eu não sabia quase nada sobre ela. Um belo dia ganhei o exemplar que tenho em mãos de um padre amigo meu e o pequeno livro entrou na minha fila de leituras. Um belo dia decidi ler. “Livro fino, vai ser rápido”, pensei.

Wow! Engano meu! Que livro fantástico! Levei duas semanas para ler um livro de apenas 128 páginas pois li bem devagar: não queria perder nenhum detalhe. Algumas passagens reli quatro ou cinco vezes! Acho que tirando a Bíblia, “Guerra e paz” e talvez “O homem que era quinta-feira” de Chestertoneu tenha feito algo semelhante. Não  me lembro de ter feito isso com outra obra. Méritos de Coriasco, teatrólogo e amigo pessoal de Chiara que soube passar de maneira brilhante a emoção que ele sentiu na pele para o papel.

A menina Chiara

A história em si não devia impressionar: uma camponesa nasceu e cresceu em uma aldeia perdida no norte italiano. De pais comuns, era filha única. Teve uma infância comum: brincou quando menina e passeou e se divertiu quando jovem. Ia ao cinema, curtia Bruce Springsteen e cânticos de louvor dos Focolares, sabia jogar Poker (Ahá! Mas duvido que apostasse dinheiro...), namorou o rapaz mais bonito da aldeia – e o bonitão cometeu a burrice de trocá-la por outra. Tem gente que dá cabeçadas e não sabe!

Até que um dia ela passa mal durante uma partida de tênis. Exames revelam que ela tinha um câncer já avançado que já havia se espalhado pelo corpo... Ela só tinha 17 anos. Morreu um ano e meio depois, poucos dias antes de completar 19 anos.

Coriasco nos revela que logo após a primeira sessão de quimioterapia Chiara ficou arrasada. Mais que pelos efeitos químicos do tratamento, era a certeza da morte, certeza essa que a atormentou por exatos 25 minutos. Nesse tempo ela certamente orou como nunca havia feito antes. E dessa confiança em Jesus ela tirou forças para prosseguir. O resultado desconcertou a todos: um sorriso e a aceitação plena da sua condição. E foi assim até o fim.

A condição humana em Chiara Luce, e em cada um de nós!

A morte de uma jovem é sempre algo que nos desconcerta. No alvorecer da vida o fim da vida. Muita gente diria: não é justo! Mas assim foi. Chiara só por ter aceitado isso com plena liberdade já teria merecido a glória do Céu.

A maioria de nós teria reagido como Ivan Ilich, o velho acomodado do livro de León Tostói. No conto Ilich é o bom burguês dos tempos atuais: tem um emprego bom, uma esposa que lhe deu um belo dote, filhos saudáveis, e a mesa de jogo com os colegas de repartição. Ou seja, na linguagem contemporânea Illich tem um bom padrão de vida, que creio eu seria almejado até hoje.

Mas um belo dia Ilich sofre um acidente doméstico: Uma queda. No começo parece apenas um incomodo passageiro, mas o passar dos dias e o olhar preocupado dos médicos o fazem mudar de ideia. Illich é obrigado a se defrontar com sua humanidade. A uma certa altura ele filosofia: “O silogismo o homem é mortal, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal, serve para Sócrates e não para mim!”.

Illich não consegue aceitar o mais obvio da vida humana: ela um dia terá um fim. Morreremos todos um belo dia. E é essa certeza esmagadora que derruba o “bom burguês” de seu pedestal de autosuficiência. Segundo Echevarria e Yepes  no seu monumental “Fundamentos de Antropologia”, A morte de Ivan Illich é um romance como poucos que descreve o drama humano da morte de forma tão clara.

Outro personagem que poderia servir de entendimento para a visão de morte de Chiara Luce seria o velho Shulubin do livro “Pavilhão de cancerosos” do também russo Alexandre Solzhenitsyn. No romance autobiográfico (Solzhenitsyn havia se curado de um câncer no Gulag – prisão política) o prisioneiro está na cama e exclama ao companheiro enfermeiro:

“Tenho medo. Por muito tempo que alguém tenha vivido, de qualquer forma deseja viver ainda mais”.

Após a cirurgia Shulubin, que sabe que está morrendo, desabafa:

“Eu não morrerei de todo. Sei que não morrerei completamente”.

“Sim, tu viverás... coragem!” (exclamou o enfermeiro).

“Sim, viverei. Há uma parte de mim que viverá sempre...”.

“Ás vezes sinto claramente que o que há em mim não é ainda tudo o que sou. Algo há muito mais indestrutível, que ninguém me poderá arrancar; algo muito elevado. Algo assim como uma partícula da Eternidade de Deus”.

Alma imortal e crença em Deus: nada mal para um escritor ateu. O livro de Solzhenitsyn nos dá um desfecho um pouco mais digno que o de Ivan Illich, já que o velho Shulubin apresenta uma visão mais sobrenatural do além túmulo e menos da angustia existencial de Illich.

A resposta de Chiara Luce a Tóstói e Solzhenitsyn

Ao contrário de ambos Illich e Shulubin, Chiara Luce aceitou plenamente sua condição de cancerosa, recusou a morfina que a doparia até o fim, ofereceu suas dores, que não eram poucas, pelos outros, orientou, ouviu, e serve de exemplo para muita gente até hoje! Cormac Burke no seu livro “Somos livres” revela que o segredo da liberdade humana é aceitar sua própria condição humana: pobreza, doença, deformidades, limitações, erros.

Sendo assim Chiara Luce, paralitica na cama e agonizante foi um dos seres humanos mais livres que já conhecemos. Se pudesse ela teria dado aulas de humanidade a Tólstói, Solzhenitsyn, e principalmente Sartre, Camus, Foucault...  Porque o homem moderno só pensa em se rebelar. Chiara optou por aceitar a realidade, e optou bem. E os jovens que se identificam com ela também querem fazer o mesmo. Os santos realmente ultrapassam a ficção e até mesmo a realidade.

Neste Natal seria interessante pensarmos nisso: qual o fim de nossas vidas? E porque Natal é na verdade uma festa de aniversário.

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