
Sobre a solução de equações algébricas
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em 28 de Fevereiro de 2023
Se você já estudou Cálculo Diferencial certamente já se deparou com o seguinte teorema:
Teorema do Valor Intermediário: Seja uma função contínua. Dado um número
entre
e
, existe um número
no intervalo
tal que
.
Este teorema é importantíssimo em Cálculo, pois ele garante a existência de solução de equações como veremos adiante. No entanto, os autores dos livros de Cálculo omitem a prova deste teorema e recomendam ao leitor que procure a prova em textos de Cálculo Avançado ou de Análise Matemática.
Eu fui procurar a prova nesses textos e as demonstrações não são difíceis, mas todas elas usam um conceito que não é visto na disciplina de Cálculo: o supremo de um conjunto. Mais precisamente, usam a propriedade que todo conjunto limitado superiormente possui supremo.
Um conjunto é limitado superiormente se existe um número
tal que
para todo
. Esse número
é chamado uma cota superior de
. Por exemplo, o intervalo
é limitado superiormente pois todo
é menor do que 3, e 3 é uma cota superior desse intervalo. Obviamente qualquer outro número maior do que 3 é uma cota superior desse intervalo.
Dado um conjunto limitado superiormente, o supremo desse conjunto é a menor cota superior que esse conjunto possui, e é denotado por
. No exemplo anterior,
. Este exemplo mostra que o supremo não é necessariamente o máximo do conjunto.
Outro exemplo: .
Sendo a menor cota superior de
, então qualquer
não é cota superior de
, o que significa que existe um
tal que
. Em outras palavras, dado qualquer
, existe um
tal que
. Guarde esta informação pois ela será usada na prova do teorema.
Um conjunto ordenado é dito completo se todo subconjunto limitado superiormente possui supremo. Nesse sentido enunciamos o seguinte axioma.
Axioma do Supremo: Existe um corpo ordenado completo, chamado o corpo dos números reais .
Isto é, todo subconjunto de limitado superiormente possui supremo.
Antes de prosseguirmos, vamos relembrar o que significa uma função ser contínua.
Um função é continua no ponto
se
. Usando a notação de épsilons e deltas, isso significa que, dado
, existe um
tal que para qualquer
com
se tem
. Como
,
e
,
então uma função é continua no ponto
se, dado
, existe um
tal que
.
Considere o conjunto
.
Como é uma cota superior para
, então, pelo axioma do supremo,
possui supremo. Seja
. Note que
. Como
está entre
e
, então
e
, logo
não pode ser igual a
nem a
. Isto mostra que
. Provaremos que
. Para isto basta provar que não pode ocorrer que
nem que
.
Suponha, por absurdo, que . Tome
. Pela discussão acima sobre funções contínuas, existe um
tal que
.
Diminuindo se necessário, podemos supor que
. Como
, então
.
Mas não se pode ter a menos que
. Então
, mas isto é um absurdo pois como
, existe um
tal que
, logo
. Este absurdo mostra que não se pode ter
.
Suponha agora que . Tome
. Existe então um
tal que
isto é,
.
Em particular , logo
. Mas
, então
, um absurdo. Portanto não devemos ter
.
Como não se pode ter nem
, a única possibilidade que resta é
. Isto conclui a prova do teorema do valor intermediário.
Desse teorema extraímos os seguintes corolários.
Corolário 1: Se é uma função contínua, então sua imagem
é um intervalo.
Se não fosse um intervalo, então existiriam números
com
tais que
mas
. Pelo teorema do valor intermediário, deve existir um
tal que
, logo
, uma contradição. Assim
é um intervalo. Na verdade é possível demonstrar que esse intervalo é fechado (a prova disso usa o chamado teorema de Bolzano-Weierstrass).
Corolário 2: Se é uma função contínua com
, então existe um
com
. Em outras palavras, se uma função contínua muda de sinal num intervalo, então essa função deve se anular em algum ponto desse intervalo.
Como , então
e
têm sinais opostos. Assim
e
ou
e
. Em qualquer caso podemos tomar
no teorema e obter um
com
.
Podemos usar este corolário para calcular uma raiz de uma equação .
Exemplo: Encontre uma raiz da equação .
Consideramos a função . Observamos que
e
, que têm sinais opostos. Pelo corolário 2 existe um
com
, isto é, a equação acima possui uma raiz entre 0 e 1.
Se tomarmos o ponto médio do intervalo encontraremos
, e
. Então
e
têm sinais opostos. Pelo corolário 2, existe uma raiz entre 0 e 0,5.
Tomando o ponto médio desse intervalo , e
. Então
e
têm sinais opostos. Pelo corolário 2, existe uma raiz entre 0,25 e 0,5.
Prosseguindo com os cálculos obteremos que 0,332662 é, aproximadamente, uma raiz da equação . Os cálculos estão tabelados a seguir.
Iteração | a | b | (a+b)/2 | f(a) | f(b) | f((a+b)/2) |
1 | 0 | 1 | 0,5 | 1 | -2,5 | -0,53125 |
2 | 0 | 0,5 | 0,25 | 1 | -0,53125 | 0,250977 |
3 | 0,25 | 0,5 | 0,375 | 0,250977 | -0,53125 | -0,13077 |
4 | 0,25 | 0,375 | 0,3125 | 0,250977 | -0,13077 | 0,061666 |
5 | 0,3125 | 0,375 | 0,34375 | 0,061666 | -0,13077 | -0,03407 |
6 | 0,3125 | 0,34375 | 0,328125 | 0,061666 | -0,03407 | 0,013909 |
7 | 0,328125 | 0,34375 | 0,335938 | 0,013909 | -0,03407 | -0,01005 |
8 | 0,328125 | 0,335938 | 0,332031 | 0,013909 | -0,01005 | 0,001936 |
9 | 0,332031 | 0,335938 | 0,333984 | 0,001936 | -0,01005 | -0,00406 |
10 | 0,332031 | 0,333984 | 0,333008 | 0,001936 | -0,00406 | -0,00106 |
11 | 0,332031 | 0,333008 | 0,33252 | 0,001936 | -0,00106 | 0,000439 |
12 | 0,33252 | 0,333008 | 0,332764 | 0,000439 | -0,00106 | -0,00031 |
13 | 0,33252 | 0,332764 | 0,332642 | 0,000439 | -0,00031 | 6,43E-05 |
14 | 0,332642 | 0,332764 | 0,332703 | 6,43E-05 | -0,00031 | -0,00012 |
15 | 0,332642 | 0,332703 | 0,332672 | 6,43E-05 | -0,00012 | -2,9E-05 |
16 | 0,332642 | 0,332672 | 0,332657 | 6,43E-05 | -2,9E-05 | 1,75E-05 |
17 | 0,332657 | 0,332672 | 0,332664 | 1,75E-05 | -2,9E-05 | -5,9E-06 |
18 | 0,332657 | 0,332664 | 0,332661 | 1,75E-05 | -5,9E-06 | 5,83E-06 |
19 | 0,332661 | 0,332664 | 0,332663 | 5,83E-06 | -5,9E-06 | -2,4E-08 |
20 | 0,332661 | 0,332663 | 0,332662 | 5,83E-06 | -2,4E-08 | 2,9E-06 |
Tomando outros intervalos encontramos outras raízes: -1,04009 e 2,048203.
COURANT, R. Cálculo diferencial e integral. Porto Alegre: Globo, 1951. vol. I
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