Para quem odeia inglês

O que eu, professora, acho de quem diz: “Eu odeio a língua inglesa e todo mundo que fala, mas o mundo me obriga a aprender e eu não sei o que fazer".

Inglês Básico Geral Intermediário Avançado Conversação
Para quem odeia inglês
Raíssa Koshiyama
em 13 de Julho de 2018

Fui criada por pais jovens que foram adolescentes na década de 1980 e 1990, uma época em que o rock, o pop e os seriados norte-americanos estouraram no Brasil. Assim, o aprendizado de inglês foi algo natural para mim, o que foi facilitado ainda mais pelas condições que o meu pai médico teve para me colocar em uma escola de inglês desde que eu tinha 12 anos.

Quando me tornei meio por acaso professora de inglês há cerca de dois anos, entrei em contato com diversas pessoas de diversas idades e origens que precisavam aprender inglês por diversos motivos e que dispunham de tempo e capacidade de aprendizado também diversos. Mas o que mais me tem chamado atenção é a frequência com que encontro pessoas que, embora precisem muito aprender a falar inglês, chegam para mim se colocando como incapazes de aprender que seja algo básico da língua, com um forte sentimento de frustração e até ressentimento.
O que inicialmente eu considerei uma falta de autoestima para o aprendizado em geral, com o tempo, fui percebendo que na verdade se trata de algo que particularmente a língua inglesa e o aprendizado da mesma despertam em muitas pessoas. Então, após algum tempo de reflexão, decidi escrever um texto para tentar colaborar com a solução desta questão. Creio que a questão se desdobra em três aspectos: o aspecto geracional, o social e o político.

Sobre a questão geracional, fica claro que as novas gerações são expostas, por conta do constante acesso às tecnologias e às redes, à língua inglesa infinitamente mais do que as gerações anteriores. Acredito que aquela sensação incômoda de que a sua sobrinha de cinco anos mexe no smartphone melhor que você também se manifesta quando você percebe que muitas palavras em inglês são familiares para esta mesma criança. Isso ocorre porque muitos dispositivos, softwares, jogos, fóruns, vídeos do youtube e websites disponibilizam muitas coisas somente em inglês e qualquer criança curiosa e sedenta por informação vai precisar cedo ou tarde dominar algo da língua para conseguir a informação que precisa. E quando eu digo informação, não quero dizer as últimas notícias sobre o conflito na Síria ou textos pouco conhecidos de Dostoievski, estou falando de como passar daquela fase difícil do videogame ou qual a melhor maquiagem para encontrar os amigos no shopping, coisas que crianças querem saber e que logo elas percebem que existe uma barreira que as impede de seguir aprendendo, que é o fato de que não só nos Estados Unidos mas nas redes do mundo inteiro comunica-se em inglês. 

Assim, o fato de que sua sobrinha fala inglês fluente e você não pouco tem a ver com alguma capacidade inerente às novas gerações ou a pessoas mais novas em geral. Nos círculos sociais das novas gerações são exigidos conhecimentos sobre games, maquiagem, memes entre outros, e para ter o completo domínio sobre eles é preciso aprender nem que seja um pouco de inglês. Essa exigência gera um empenho e um interesse que são o combustível fundamental para o aprendizado da língua e criam uma familiaridade que faz com que em sala de aula o processo seja também mais natural e tranquilo.
Seguindo para o aspecto social, a minha experiência como professora de escola mostrou que quanto mais dinheiro a pessoa tem, mais cedo ela começa a aprender inglês. Antes disso, quando entrei na faculdade, ficou muito claro que o conhecimento de inglês dos meus colegas estava ligado à origem social e econômica de cada um. É claro que existem exceções, mas colocar os filhos adolescentes na escola de inglês para que eles cheguem à faculdade falando fluente é prática comum nas classes mais altas, e quanto mais alta é a classe mais se encontram pessoas que fizeram escola bilíngue (ou trinlígue), que viajaram inúmeras vezes para o exterior ou que tiveram intercâmbio para o Canadá bancado pelos pais. Dessa forma, é importante também sempre ter em vista que saber inglês desde jovem é uma questão de privilégio de classe e, assim como tantas outras coisas, as pessoas que não tiveram essa oportunidade se veem obrigadas a correr atrás do prejuízo quando na vida social, acadêmica ou profissional o conhecimento de inglês (ou até de outras línguas) é injustamente cobrado como um pré-requisito básico. Essa cobrança e a sensação de “estar atrasado” geram uma frustração e um ressentimento muito grande não apenas diante das pessoas que exibem o conhecimento delas como se não fosse um privilégio de classe como com da própria língua, até porque ela começa cada vez mais a parecer a língua da cultura de elite, a língua do opressor, e de certa forma ela é mesmo.

Este ressentimento é também alimentado pelo último aspecto, o político. O inglês é em vários sentidos a língua do opressor, não apenas pelo fato dela ter sido incorporada no vocabulário de muitas das culturas elitizadas e elitistas (como a cultura corporativa, por exemplo) mas também por que é a língua oficial do país que mais nos oprime, que fere a nossa soberania nacional ao influenciar processos políticos, que deseja impor sobre nós as suas práticas e produtos culturais e que interfere na nossa economia, nos deixando refém do mercado financeiro internacional e dos interesses dos poderosos estrangeiros. Não é a toa que ao falar inglês se possa ter essa desconfortável sensação de estar se rendendo aos desígnios deste intento opressor.

Sendo assim, por que mesmo que nós deveríamos aprender a falar inglês? Como não sentir essa frustração e esse ressentimento? Eu acredito que, apesar de tudo o que disse, é muito importante aprender a falar inglês. Hoje, as empresas e a academia exigem que se fale inglês não só para lermos os norte-americanos e absorvermos a cultura deles, o inglês se tornou a língua do comércio e da troca internacional de conhecimento. E isso é uma verdade não apenas no mundo corporativo ou acadêmico. Em fóruns de debate e nas redes em geral, pessoas do mundo inteiro conversam em inglês sobre os assuntos mais diferentes que se pode imaginar. Se você quiser conversar com uma chinesa, um etíope ou uma iraniana, vocês vão conversar em inglês (isso sem mencionar o fato de que inglês é considerado língua oficial em 52 países).
É em inglês que as pessoas pedem doações para financiar campanhas de assistência e protestos políticos pelo mundo todo. Em inglês elas denunciam crimes contra os direitos humanos e divulgam suas lutas e suas histórias. É também em inglês que elas contam as suas versões da história apesar do discurso dominante. Neste sentido, aprender inglês não é se render, mas estar aberto para se conectar com esse mundo tão diverso que as redes de comunicação proporcionam. 

Mas mesmo que a sua necessidade de aprender inglês seja apenas para poder ler um texto da faculdade ou conseguir uma vaga de emprego ou promoção, isso não significa se render, muito pelo contrário. Hoje diversos movimentos sociais como os movimentos camponeses e indígenas estão percebendo a importância de estar nas redes para denunciar crimes e divulgar suas pautas. Assim como aprender a usar a internet, aprender inglês é se empoderar. Foram eles que criaram as ferramentas, mas nós temos que dominá-las neste mundo para chegarmos onde queremos, seja este lugar a dignidade e melhores condições de vida para os povos indígenas ou apenas um emprego melhor para sustentar a sua família.

É por isso que eu quero ver todo mundo manjando muito de inglês, aprendendo a se virar e a se comunicar nas redes cada vez mais. O inglês cria pontes de acesso para outros saberes e para se comunicar com o mundo e isso pode ser revolucionário, empoderador e libertador se soubermos usá-lo. 

Não é porque muita gente aprendeu quando criança e você não que ficou tarde demais e agora já era. Uma vez compreendido e superado o ressentimento e o trauma que o inglês suscita em tantas pessoas, o aprendizado pode ocorrer de maneira natural e tranquila, cada um no seu ritmo, claro. Tenho certeza absoluta que existe uma imensidão de material sobre os assuntos que você mais ama que você só vai poder acessar se souber inglês e uma vez que você perceber como esse aprendizado pode ampliar infinitamente seus horizontes, não tenho dúvidas que você vai encontrar em si aquele interesse e empenho que eu mencionei antes como um combustível fundamental para seu processo de aprendizado decolar.

Eu acredito que a gente aprende milhões de coisas do dia que nascemos até o último dia de nossas vidas e o único obstáculo para que a gente absorva todo esse conhecimento (fora questões de ordem prática como tempo e dinheiro, claro) é o quão aberto estamos para que ele nos penetre e nos modifique como pessoa. Estar fechado para o conhecimento e para a mudança nos impede de aprender até mesmo com as pessoas ao nosso redor, que dirá com professores e livros. É preciso compreender porque nos fechamos e tentarmos nos colocar com uma postura aberta e curiosa diante do conhecimento e do novo. Uma vez feito isso, não existem limites ou data de validade para o quanto se pode aprender. É nisso que eu tenho fé nessa vida, mais do que tudo no mundo.

Campinas / SP
Mestrado: Artes Visuais (Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP)
Sou professora de inglês desde 2016. Trabalho tanto em escolas de inglês quanto oferecendo aulas em casa, o que me permitiu desenvolver meu próprio método de trabalho. Ensino alunos individuais e grupos de todas as idades (de 9 até 84 anos). Também trabalho com inglês para negócios, grupos de conversação, português para estrangeiros e aulas preparatórias (TOEFL, IELTS, TEAP e CEL/Unicamp). Também tenho trabalhado como tradutora de textos acadêmicos. Atualmente cursando Mestrado em Artes Visua ...
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