A revolta da Vacina no Brasil
Hélio A.
em 04 de Setembro de 2020

Brasil, século XX, 1904. Local: Rio de Janeiro. A gravura de Angelo Agostini demonstra de forma caricaturada a situação da cidade. Vemos como outras capitais do Uruguai e da Argentina (Montevidéu e Buenos Aires respectivamente) observam como as doenças assolam o Rio de Janeiro e o descaso das autoridades em relação a um problema grave (na verdade, três): a febre amarela, varíola e a peste bubônica.

O então presidente do Brasil, Rodrigues Alves (1848-1919) decidiu que o principal problema da cidade eram as condições precárias da cidade e que isso afetava toda a economia do país. Mas por que? Porque naquele tempo a capital do Brasil era o Rio de Janeiro. A cidade também era o principal porto do país por onde eram realizadas grande parte do comércio marítimo e de exportação de café. Era preciso que algo fosse feito, ou o comércio seria ainda mais prejudicado e, consequentemente, a economia e a sociedade brasileira daquela época teria problemas ainda mais preocupantes.

Mas quais eram os problemas da cidade? De forma sucinta, a cidade tinha portos muito pequenos para os grandes navios, o que atrasava o comércio deixando-o mais trabalhoso e caro; ruas estreitas que não facilitavam a travessia de mercadorias para a cidade e para o país; e por fim, o intenso fluxo de pessoas (inclusive de outros países que chegavam nos navios) propiciava a proliferação de doenças contagiosas, isto é: transmitidas de pessoa para pessoa.

Mas o que foi feito a respeito desses problemas? Uma resposta que parece simples e boa: uma grande reforma portuária para melhorar a atracagem de navios e a circulação de pessoas e mercadorias. Parece até que a história poderia terminar aqui e tudo ficaria bem, não é? Pois bem, não foi bem assim… Essas reformas exigiram muito sacrifício. O cotidiano dos moradores locais daquela região do Rio de Janeiro foi drasticamente afetado. Casas e cortiços, onde a população mais pobre morava, foram demolidos e essas pessoas precisavam ser realocadas para algum lugar. No entanto, o então prefeito do distrito federal, Pereira Passos (1836-1913), blindou-se com poderes políticos e realizou essas reformas de maneira completamente arbitrária. Como assim? Seguinte, imagine que você saiu de casa para ir à escola. Ao voltar para casa, vê que ela foi completamente demolida. Pois é, a tal “reforma” funcionou basicamente dessa forma. Agora imagine: temos um prefeito blindado, ou seja, que não pode ser processado. Ter que realocar essa população despejada daria muito trabalho e custaria muito dinheiro. Por fim, nenhuma medida foi tomada para a população pobre, sendo ela forçada a viver nas periferias e em condições muito precária de moradia e de saúde. Como se não bastasse, as reformas acarretaram na elevação dos preços de aluguéis, da inflação e desemprego. Então os cariocas estavam sem renda, o dinheiro sofreu desvalorização e os preços das moradias ficaram ainda mais caro. E só para finalizar: os portos foram paralisados durante as reformas. Ou seja, não era injetado dinheiro na economia do Brasil.

Ao pensar nessa situação da população que mais sofreu com esses problemas, podemos imaginar o quanto estavam insatisfeitos com o governo e suas políticas públicas autoritárias. E quando se pensava que nada poderia ficar pior, mais uma imposição do governo foi promovida, a vacinação obrigatória da população.

O autor do projeto de vacinação da população carioca foi um renomado médico-pesquisador chamado Oswaldo Cruz, que organizou uma forte equipe de estudo para combater aquelas três doenças que falamos no começo desse texto: a febre amarela, varíola e a peste bubônica. Foram através desses estudos que a febre amarela foi controlada, compreendendo-se que era necessário combater o mosquito transmissor da doença. Foram feitas fiscalizações de edifícios, pelo saneamento adequado do lixo e da água. A peste era transmitida pela mordida das pulgas presentes em ratos cujo o extermínio foi incentivado para combater a doença. Já a varíola, era preciso uma ampla campanha de vacinação, pois não havia outra forma de combate à doença que era transmitida diretamente pelas pessoas. É aqui que o bicho pega…

O então presidente, em 1904, decretou uma lei que tornava a vacinação obrigatória em todo o Brasil, além de uma exigência de um controle sobre quem foi vacinado. Foi também promovido uma campanha de revacinação após sete anos da primeira vacina. Essa revacinação serve como um reforço e será discutido nas próximas aulas o porquê de algumas vacinas precisam ser tomadas mais de uma vez na vida. Essa obrigatoriedade foi o estopim para a revolta da população já indignada com tantas imposições injustas e que acarretou em protestos violentos da população contra o governo, com apedrejamento de prédios públicos e delegacias.

No entanto não foi só a população mais pobre que protestou contra a vacinação compulsória (obrigatória), mas outros grupos consideravam um atentado à honra, visto que as  casas e o corpo das pessoas seriam “invadidos” por desconhecidos que iriam injetar algo de que não se tinha conhecimento algum pela população do que se tratava. Alguns chegaram a acreditar que as vacinas eram, na verdade, uma forma de extermínio da população. A revolta chegou a um ponto em que o governo convocou o exército e a marinha para intervir no estado do Rio de Janeiro e promover as vacinações compulsórias. Houve um forte embate violento, com mais de 900 prisões, 30 mortos, 110 feridos e 461 deportações de pessoas para o Acre. Por fim, a vacinação compulsória ocorreu e a população foi vacinada, a lei de vacinação foi revista para tornar o processo menos invasivo e uma simples metodologia passou a ser fortalecida para tornar as vacinações um processo menos complicado: através da educação da população sobre essa grande novidade injetável. As pessoas daquela época não faziam ideia sobre o que era injetado em seu corpo, por que deveria ser vacinada, qual a importância da vacinação, entre outras perguntas. Todas elas deveriam ser esclarecidas.

Com isso podemos questionar: a vacinação, apesar de compulsória, foi efetiva? A resposta curta é: sim. No entanto, não podemos deixar de questionar se a maneira que foi imposta poderia ter sido melhor, visto a grande onda de violência que essa política autoritária impôs. De fato foi uma política efetiva e que, por sinal, erradicou a varíola da face da Terra. Isto quer dizer que as vacinações preveniram que o vírus se espalhasse e reproduzisse, contagiando cada vez mais pessoas no mundo todo, levando muitas delas à morte. Mas será que foi aplicada da melhor forma possível?

Hoje em dia, algumas pessoas acreditam que as vacinas são perigosas, mas na verdade baseiam seus argumentos em desinformações, FakeNews (notícias falsas) ou simplesmente “acham” que vacinas não funcionam. Vimos no desenrolar da história que o governo considerou necessário educar a população sobre a importância de vacinar toda a população. Hoje em dia, notamos um problema grave sobre falta de informação para a população de forma similar ao ocorrido no passado, lá no começo do século XX. Problema que foi contornado pela educação e conscientização da população.

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