Muitos anos após a descoberta da seleção natural e a evolução das espécies, a teoria da evolução ainda segue os passos de Charles Darwin. Grandes avanços ocorreram ao longo do tempo e assim foi possível compreender melhor como a evolução acontece e quais os processos envolvidos. Contudo, atualmente entramos em um novo empasse sobre a evolução: a necessidade da teoria da evolução ser expadida ou não. Se levarmos em consideração artigos relacionados a discussões nesse aspecto, percebemos que ainda há uma restrição de alguns cientistas em abordar questões referentes a isso.
Em sentido oposto, muitos pesquisadores sustentam hipóteses acerca da importância da expansão da teoria da evolução, enquanto outros defendem que a mesma já abrange todos os processos amplamente. Assim, vertentes foram criadas: a síntese moderna (MS, que engloba a seleção natural de Darwin, o pensamento em nível de populaçao e a herança mendeliana) e a síntese envolucionária expandida (EES, que defende uma abordagem da evolução centrada no organismo e em seu desenvolvimento e não somente nos genes).
Tendo como base essas duas vertentes, acredito que, a teoria da evolução pode ser expandida, mas isso não significa necessariamente que seja falha ou incompleta. Pelo contrário, ela abrange diversos processos que ocorrem na natureza e que fazem parte da evolução de cada ser. No entanto, se aprofundar em alguns desses ramos que são ligeiramente abordados na teoria da evolutiva contribuirá significativamente para melhorá-la, pois desde sua origem muitas tecnologias foram criadas e utilizá-las só tende a nos ajudar. O biólogo evolucionário Kevin Laland e colegas acreditam que “uma pluralidade de perspectivas na ciência estimula o desenvolvimento de hipóteses alternativas e estimula o trabalho empírico”. Dessa mesma forma, diferentes perspectivas podem ampliar a teoria da evolução como um todo.
Além disso, ainda segundo Laland, gerações de biólogos evolucionistas
modificaram, corrigiram e ampliaram a estrutura da síntese moderna de inúmeras maneiras e da mesma forma que Darwin buscaram suas fontes em outros campos. Assim, buscar um maior aprofundamento em alguns aspectos como desenvolvimento, plasticidade, nicho e ambiente, e não necessariamente corrigir a teoria, mas sim a ampliar pode proporcionar melhoras na forma como a compreendemos a evolução dos organismos.
Muitos pesquisadores acreditam que fenômenos são negligenciados na biologia evolutiva. Peças em falta incluem como o desenvolvimento físico influencia a geração de variação (viés de desenvolvimento); como o ambiente molda diretamente os traços dos organismos (plasticidade); como os organismos modificam os ambientes (construção de nicho); e como os organismos transmitem mais do que genes através das gerações (herança extragenética). Para teoria evolucionária padrão, esses fenômenos são apenas resultados da evolução. Para a síntese evolucionária expandida, eles também são causas (KEVIN LALAND; TOBIAS ULLER; MARC FELDMAN; KIM STERELNY. GERD B. MULLER; ARMIN MOCZEK; EVA JABLONKA; JOHN ODLING-SMEE, 2014).
Seguindo essa mesma linha de pensamento, Pigliucci sugere que há pelo menos quatro elementos principais faltando na síntese moderna: o desenvolvimento, a ecologia, ciências como genômica e proteômica, além de outras e por último a plasticidade. Na questão do desenvolvimento, o evo-devo (evolução do desenvolvimento) já busca nos mostrar uma visão mais clara de como o desenvolvimento dos organismos evoluiu. A ecologia está presente na teoria evolucionária padrão, mas ainda há muitas questões sobre esses fenômenos a serem levantadas. Ademais, tecnologias de áreas como genômica ainda são muito recentes e sua atribuições na evolução precisam ser melhor estudadas.
No sentido oposto, Gregory Wray, Hopi Hoekstra e colegas acreditam que os elementos citados acima não são negligenciados na teoria evolutiva, mas precisam provar seu valor no mercado de teoria rigorosa, resultados empíricos e discussão crítica. De fato cada fenômeno precisa provar seu valor. No entanto, nem todos esses ramos podem ser estudados com atenção suficiente devido a grande quantidade de campos que a evolução abrange. Dessa forma, a evolução necessita de um aprofundamento que poderá nos levar a uma expansão da evolução.
Além disso, é razoável argumentar que a biologia evolucionária nunca passou por uma mudança de paradigma, pelo menos não desde Darwin (PIGLIUCCI, 2007). Desde 1859, quando o livro a Origem das Espécies foi publicado, muitas mudanças e tecnologias ocorrem e forma criadas. Por exemplo, de acordo com Elizabeth Pennisi, agora os cientistas compreendem que a atividade gênica, os RNAs e as proteínas estão sob controle regulatório e que as mudanças nesses controles provavelmente impulsionam a evolução tanto quanto as mutações genéticas tradicionais que alteram a forma de uma proteína.
Além do mais, segundo Pennisi, a síntese moderna também não leva em consideração a epigenética. Uma pequena modificação química de uma base de DNA - a adição de um grupo metil, por exemplo - pode ligar ou desligar um gene tão facilmente quanto uma mutação. Muitas inovações surgiram desde o tempo de Darwin, utilizá-las ajudará no aprofundamento da teoria para passarmos a uma visão mais pluralista da evolução e que use diversos campos da biologia com a mesma ênfase e atenção.
A síntese moderna é incrivelmente boa em modelar a sobrevivência do mais apto, mas não é bom em modelar a chegada do mais apto. A teoria deve incluir um ambiente que é definido de forma ampla o suficiente para incluir o corpo em desenvolvimento, que é o contexto primário em que os genes são expressos (SCOTT GILBERT, 2008). Assim, a teoria evolucionária precisa abordar os genes e outros fatores hereditários, as formas e desenvolvimentos dos organismos e todos os outros ramos da biologia de forma igualitária. Biólogos evolucionistas tem muito que fazer devido à rápida quantidade de descobertas na biologia como um todo, sejam eles defensores da síntese moderna ou da síntese evolucionária expandida, ainda há muito trabalho a fazer e devemos apreciar a as discussões em torno da evolução, pois é assim que a teoria evolutiva crescerá.
REFERÊNCIAS
LALAND, K.; ULLER, T.; FELDMAN, M.; STERELNY, K.; MULLER, G.B.; MOCZEK, A.; JABLONKA, E.; ODLING-SMEE, J.; WRAY, G.A.; HOEKSTRA, H.E.; FUTUYMA, D.J.; LENSKI, R.E.; MACKAY, T.F.C.; SCHLUTER, D.; STRASSMAN, J.E. Does evolutionary theory need a rethink? Researchers are divided over what processes should be considered fundamental. Nature, Vol 514, 2014.
Resolva exercícios e atividades acadêmicas
PIGLIUCCI, M. Do we need an extended evolutionary synthesis? The Society for the Study of Evolution, 2007.