Filosofia e Tecnologia

Existem três grandes perguntas que a Filosofia pode fazer à Tecnologia.

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Filosofia e Tecnologia
Rafael C.
em 22 de Setembro de 2020

  Essas três questões como que formam o escopo de uma Filosofia da Tecnologia, isto é, aquelas reflexões que tomam a técnica e o seu desenvolvimento como tema principal.

Uma questão ontológica: O que é a técnica?

Uma questão epistemológica: Quais os impactos da tecnologia na produção e propagação do conhecimento?

Uma questão ética: Como devemos agir, a partir e em relação a tecnologia?

  Nesse primeiro texto, gostaria de mostrar como esses questionamentos perpassaram a tradição filosófica ocidental. É bem verdade que alguns deles, sobretudo o último, se tornou mais recorrente no nosso tempo. Mas seria um prejuízo negligenciar a contribuição daqueles que vieram antes de nós.

  Por exemplo, no pensamento platônico está inserida uma visão bastante negativa da técnica. Para o Platão, ela não passa de uma tentativa da nossa parte de imitar alguns fenômenos da natureza em benefício próprio — poderíamos imaginar que as nossas casas foram inspiradas nos abrigos de alguns animais que nós observamos por aí. Ocorre que o Platão pensava a realidade de forma hierárquica, é como imitação, a técnica possui um lugar bastante periférico na existência.

  Aristóteles, por outro lado, possuía uma visão mais positiva. Ele percebeu que na realidade há uma distinção fundamental nas coisas físicas, algumas são naturais e outras artefatos — isto é, algumas são criadas pelos homens e outra já estão disponíveis na natureza. O mais interessante é o reconhecimento de que, esses artefatos são criados para suprir aquilo que nos faltava na natureza e, nesse sentido, é inegável o ganho que tivemos, por exemplo, no polimento de ferramentas para agricultura.

  A visão aristotélica parece ser mais realista. Muito se fala na forma como a Trirreme — embarcação de guerra, impelida por remos — garantiu autonomia das cidades estado gregas durante as guerras relatadas por Tucídides. Seja na construção de cidades, manutenção do comércio ou na supremacia bélica, o acesso à tecnologia sempre foi fundamental para o sucesso ou o fracasso de uma civilização.

  Mais tarde, no Renascimento e no início da Modernidade, temos os exemplos nas grandes navegações, nas aplicações de técnicas na arte, no surgimento de uma forma mais estratégica de pensar a política — o engenho de um Maquiavel. Por falar em engenho, poderia se pensar em Leonardo da Vinci, suas obras vão das artes plásticas à engenharia militar, fruto de um longo tempo dedicado às ciências.

  Mas nesse período, um dos grandes pensadores da técnica é Francis Bacon. A sua obra Novo Organum, lançará as bases para o método científico — que mais tarde será consolidado por René Descartes — e a reafirmação de a natureza deve ser modificada e usada em benefício do homem. Bacon entende que, a medida em que fazemos uma filosofia da natureza, isto é, que investigamos a natureza, simultaneamente criamos ferramentas para manipula-la. Uma outra obra interessante, é o New Atlantis, escrito em 1620, uma espécie de romance utópico descreve uma sociedade na qual valores como “generosidade, iluminação, dignidade e espírito público” são amplamente praticados e frutos de desenvolvimento científico.

  De Galileu e Copérnico a Isaac Newton, passando pela criação do telescópio que permitiu uma compreensão do microcosmo e do macrocosmo, pela criação da impressa que levou as descobertas científicas para um novo patamar de divulgação, a Modernidade é marcada pelas ciências naturais. Mas é nesse período também que surgem os grandes tratados de economia mundial. Marx e Adam Smith, para ficar apenas nos clássicos, vão mostrar como as tecnologias, do ponto de vista econômico, afetam o tecido social.

  A contemporaneidade, especialmente o século XX, conhecido nas palavras do historiador britânico Eric Hobsbawm como “a era dos extremos”, é paradoxal. A técnica foi levada a condições nunca antes vistas de produção de conforto e bem-estar social, mas ao mesmo tempo, foi transformada em máquina de destruição nas duas grandes guerras. O avião e o átomo poderiam ser vistos como dois grandes símbolos dessa ambivalência da técnica, uma ambivalência que gerou grandes pessimismos nas reflexões.

  Pensadores como Martin Heidegger e Edmund Husserl entenderam que, mergulhado nesse emaranhado de aparatos o homem, a cada vez, vai perdendo aquilo que essencialmente o constitui enquanto tal. Outro pessimista, o psiquiatra Karl Jaspers, vê as nossas sociedades em uma cultura massificada e mecanizada onde as pessoas vão perdendo a sua autenticidade. A Escola de Frankfurt, de matriz neomarxista, também refletiu sobre a técnica em chave crítica — como um mecanismo que, além de criar novas, potencializa as estruturas de dominação já existentes. Há também uma parcela de cimas deixados pelo espanhol José Ortega y Gasset sobre os prejuízos da tecnologia para a cultura. Sem dúvidas, fenômenos como a automação de campos de concentração e a bomba atômica deixou marcas nas reflexões dessa geração.

  O fato é que, em paralelo a Filosofia ou qualquer reflexão dessa natureza, nossas sociedades se consolidaram como tecnológicas. Hoje já se fala em termos como o de uma quarta revolução industrial — conceito pensado pelo alemão Klaus Schwab diretor e fundador do Fórum Econômico Mundial. Ele sugere que a industrialização atingiu um estágio em que, novamente transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. É, portanto, uma mudança de paradigma, não apenas mais uma etapa do desenvolvimento tecnológico.

  A primeira revolução teria acontecido no século XVIII com o surgimento do vapor. A segunda, na virada do XIX para o XX com a energia elétrica e a linha de produção fordista. A terceira com a internet e os computadores pessoais. E essa quarta, com tecnologias emergentes como Big Data, Internet das Coisas, Computação em Nuvem, Inteligência Artificial, Robótica, Biotecnologia, Drones, Impressoras 3D e Blockchain.

  Essas tecnologias deverão ser, não apenas praticadas, mas pensadas. Estamos imersos nesse cenário e ele exigirá de nós a superação de um pessimismo paralisante, mas também o cuidado com todo tipo de otimismo ingênuo.

  Nesse sentido, filósofos contemporâneos como Don Ihde, Peter-Paul Verbeek, Borgmann, Dreyfus, Feenberg, Haraway, além do próprio Klaus Schwab e seus pares — mais ligados a economia ou pensadores como Yuk Hui, Antonio Damásio, Yurval Harari, Siddhartha Mukherjee, Susan Greenfield, poderão nos ajudar.

Campinas / SP
Graduação: Filosofia (Pontifica universidade Católica de Campinas)
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