Eu não sei se você já viu, mas caso não tenha visto existe um documentário (que na verdade é uma conversa) de Bill Evans e o seu irmão Harry Evans, ambos músicos, na qual eles discutem jazz e o processo de aprendizagem do estilo (inclusive se jazz é de fato um estilo ou um processo de composição por ele mesmo).
Bill foi o pianista que participou do Kind of Blue, um dos mais influentes álbuns de jazz da história, junto com Miles Davis (seu idealizador), John Coltrane, Cannonball Adderley, Jimmy Cob e Paul Chambers. O piano de uma única música não é tocado por Evans mas por Wynton Kelly, em Freddie Freeloader.
A atmosfera de Kind of Blue é como uma pintura impressionista onde as cores são vistas distintas mas não há uma divisão clara entre os contornos. O som do piano de Evans contribui essencialmente para realização dessa atmosfera. Tome por exemplo a música Blue in Green e seus acordes que parecem borrar a gravação com verdes azulados pinçelada a pinçelada.
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Uma das discussões que Bill Evans propõe em 66, quando o documentário foi publicado, é sobre estar consciente a cerca de tudo que você está fazendo durante a improvisação. A ideia segue esse raciocínio: é muito fácil você imitar alguém, imitar o virtuosismo, tocar muitas notas mas não ter ideia do que aquelas notas representam dentro do contexto da música.
Segundo o pianista, são necessárias ideias musicais bem fundamentadas para ter um improviso que faça mais sentido do que um conjunto de escalas tocadas sem qualquer relação uma com a outra. Para saber mais sobre isso eu mesmo escrevi um artigo aqui para o blog na semana passada em que o assunto principal é a coerência no discurso musical e a fundamentação básica de ideias musicais.
Bill Evans conta como se tornou um pianista de jazz e o grande improvisador que é tendo sido um artista versado na música erudita antes de tudo. Ele dizia saber tocar qualquer coisa desde que uma partitura tivesse em sua frente. Uma vez sem a partitura nada mais seria possível. Qual foi o processo que o transformou de um bom leitor de partitura para um criador de música em tempo real ao piano?
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Quando o problema é muito grande você deve dividi-lo em partes menores
Com a mentalidade acima Evans se tornou o pianista que é. Ao invés de tentar resolver todos os seus problemas em relação ao jazz de uma vez, ele compartimentou e resolveu-os um a um.
O mundo da improvisação é simplesmente absurdo. Há toneladas e toneladas de informações e caminhos a serem tomados. No entanto, você como improvisador não pode tomar todos os caminhos ao mesmo tempo e nem usar todos os conceitos de improvisação num mesmo improviso. É simplesmente coisa demais.
O caminho para o sucesso é atacar o problema em pequenas porções. Siga o meu exemplo de como você pode fazer isso:
Tomando como base que você é um improvisador iniciante e que tem um 2-5-1 de C maior em sua frente de acordo com os voicings abaixo:
É muito tentador encarar uma progressão simples até mesmo para você, improvisador amador, como uma oportunidade de usar todos os seus conhecimentos de D dórico, certo? Certo. Mas, qual é o problema disso? Essa não é uma música modal, ela não pode ser encarada modalmente. Essa é uma progressão que envolve uma série de movimentos entre os próprios voicings, quiçá entre as possibilidades harmônicas.
Se você é um leitor atento, você entendeu que é o Ré está construído no voicing D F C E (Dm9) em seguida o clássico G F B E para G7(13), finalizando no C G B E (C7M). Uma nota permanece no topo de todos os acordes: Mí. Por que não usar essa nota como a guia de uma linha de improvisação? Veja no exemplo de linha de improviso que eu criei:
A primeira coisa a se pensar é na importância do Mí para cada acorde. O que é o Mí para;
Ré, é uma nona;
Sol, é uma décima terceira;
Dó, é uma terça maior;
Portanto, o mí é uma extensão para Ré e Sol e em Dó é um dos chord-tones. Ou seja, a gente vai enfatizar as extensões adicionando mais cor à harmonia ao usar o Mí como uma nota central tanto em Ré quando em Sol. Tendo isso em mente;
- No primeiro compasso eu usei as notas E, D, A e F. Todas descendentes e todas fazem parte do acorde de Dm9 que está sendo tocado pelo instrumento de harmonia. Ou seja, eu delineei exatamente o que a harmonia está fazendo.
- No segundo compasso escolhi começar em G e saltar para E. Salto de sextas são um dos mais bonitos ao meu ouvido. Essa é uma opção excelente porque há um movimento entre a última nota do primeiro compasso e a primeira desse, saindo de F até G. O "E" em seguida, no contratempo, evita o ressaltar por dois compassos consecutivos uma nota de extensão. Sigo para G, A e E sendo que o A é uma nona e não está no voicing que está sendo tocado pela harmonia. Em outras palavras, é uma nota que adiciona tensão ao acorde. Por sorte ela é rápida e será repetida no compasso seguinte.
- No terceiro compasso a nota E que termina o anterior avança pra dentro desse causando um efeito de deslocamento do tempo depois são todas as notas em sequências de colcheias: E, A, C, G, E e B. As duas são praticamente um reflexo invertido das últimas notas do compasso anterior. "E" para C é uma nota do acorde, mas A não. "A" é uma sexta e é um tesão adicionada. As próximas três notas que estão no tempo forte são notas do acorde (tônica e terça), sendo que as quatro últimas são um arpejo completo da tétrade.
- O quarto compasso é diferente dos outros três pois há uma opção por um novo tipo de figura rítmica (mais rápida): a semicolcheia. Eu encarei esse compasso como uma espécie de turnaround por isso essa diferenciação de ritmo entre ele e os outros. Sobre as notas escolhidas, são apenas notas do acorde de C7M, porém arpejadas e invertidas a cada beat. O último beat, no entanto, possui a sequência C E G E voltando a E que é a nota guia desse solo.
Quais foram meus fundamentos ao criar esse "improviso":
- Uma nota guia comum a todos os acordes;
- Consistência rítmica e variação pontual;
- Delineamento de notas dos acordes;
- Preferência por saltos de sexta e sua sonoridade;
Somando-as são quatro ideias poderiam ser exploradas uma a uma por quatro chorus inteiros de um standard de jazz. Se isso fosse levado a cabo, o improviso teria uma daquelas qualidades de "espelho" em suas partes, onde um pedaço reflete o que há no todo.
Outra coisa que esse tipo de raciocínio cria é a capacidade de resolver os problemas um a um, compasso por compasso, interação por interação.
É claro que isso foi uma análise extremamente detalhada e que na hora de se improvisar temos pouco ou nenhum tempo para pensar em muitas variáveis. É por isso que se deve estudar algumas de cada vez, lento, no metrônomo, analisando os caminhos. Depois de muito tempo realizando esses exercícios compartimentados o seu improviso deixará de ser um mero tocar de escalas para todos os lados.
Renato Verissimo é músico multi-instrumentista e professor.