Em meio aos meus estudos de piano que fiz recentemente, me questionei várias vezes sobre algo que parece obscuro para nós que somos instrumentistas da guitarra e do violão: a quantas anda seu ataque?
Digo isso porque, o ataque claro de uma nota é o fundamento de um bom ritmo e de uma articulação que lhe dê liberdade tanto rítmica quanto melódica. Ao estudar teclas, me deparei com a habilidade de executar algumas passagens no piano com maior destreza e por um menor esforço do que normalmente faria se estivesse estudando guitarra. Daí a questão: o que nos atrapalha tanto na guitarra ou no violão? Aliás, qual é a grande diferença entre tocar uma nota na guitarra e outra no piano?
Apesar da óbvia diferença entre os dois instrumentos o toque com os dedos é um ponto comum em ambos. No piano, pressionar teclas enquanto na guitarra puxar cordas, cada qual com a sua dificuldade. Portanto, à parte das diferenças, acredito que os dedos tragam maior eficiência por ser a ferramenta que já nasce com nós e já temos disponível cinco dessas desde nosso nascimento, de todas as quais estamos mais ou menos bem acostumados, certo?
Comparativamente, os dedos não possuem tanta destreza quanto parecem para o violão especificamente quando colocamos lado a lado com o piano. A disposição das cordas em linha, sem ângulo e com direcionamento vertical é um bom fundamento para a nossa inabilidade de executar bem o violão usando os dedos. Começa pelo arqueamento da mão em diagonal, os dedos não possuem o mesmo comprimento ou ao menos a mesma distância um do outro. Posto que se compararmos cordas com teclas, a disposição horizontal de teclas com um tamanho bem definido e regular entre as mesmas é um facilitador. Veja nossa habilidade em digitar em telas de smartphones, computadores e outras quinquilharias, por exemplo.
Daí surge a necessidade de uma palheta. A palheta nada mais é do que o “equalizador” dos problemas apontados acima sobre os dedos nas cordas. Porém, veja bem, não é o elixir do equilíbrio e a solução de todos os problemas. A palheta por si só carrega alguns vários problemas em seu manuseio. Ainda assim resolve o problema da organização. É importante tocar com a palheta para organizar e automatizar os movimentos de ataque no violão.
Não quero com isso afirmar que a palheta é melhor ou mais fácil que os dedos. Porém, a palheta resolve um ponto fundamental do aprendizado: a clareza do ataque – e de maneira imediata. Um ataque claro é sinônimo de uma intenção clara com instrumento. Naturalmente, a intenção levará a uma rítmica melhor, um som melhor, um músico mais animado com seu instrumento e, em última instância, o progresso com o violão, ou piano, oboé, o que quer que seja.
Ainda, se você não consegue segurar a palheta ou tem preferência por dedos, considere isso: o seu ataque claro às notas é o divisor de águas da sua evolução.
Renato Verissimo é guitarrista, violonista, pianista, educador musical e jornalista.