Como é a composição da pitanga?

Trabalho desenvolvido durante o mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos na UFSM

Nutrição Ensino Médio Curso superior Profissional Bioquímica da Nutrição
Como é a composição da pitanga?
Milena B.
em 13 de Maio de 2019

É largamente conhecido, por estudos epidemiológicos, que o consumo de frutas e vegetais confere muitos benefícios à saúde, pois tem se demonstrado uma associação positiva entre o consumo destes alimentos e a redução do índice da mortalidade por doenças crônicas (STEINMETZ, POTTER, 1996; GARCÍA-CLOSAS et al., 1999). Os fitoquímicos presentes em frutas e vegetais podem ser benéficos na proteção do corpo humano contra danos causados por espécies reativas de oxigênio (ROS) (DIPLOCK et al, 1998). Isto promove proteção contra doenças crônicas, incluindo câncer e desordens neurodegenerativas, inflamação e doenças cardiovasculares (PRIOR ; GU, 2005).

A pitangueira (Eugenia uniflora L.) é uma planta da família das mirtáceas, que tem seu cultivo disseminado por vários países do mundo, no Brasil ela é cultivada principalmente no Estado de Pernambuco. Esta planta começou a ser estudada pelos pesquisadores devido às propriedades benéficas à saúde atribuídas às folhas, pois estas são utilizadas na medicina popular para inúmeras desordens (ADEBAJO, OLOKI, ALADESANMI, 1989). Além disso, ações benéficas tais como atividade antiinflamatória, diurética, hipotensora, inibidora do aumento da glicose e de triglicerídios séricos (MATSMURA et al, 2000) estão sendo estudadas.

 No entanto, além das folhas da pitanga possuem compostos com propriedades benéficas. Os frutos também possuem carotenóides e fenólicos, entre outros compostos, os quais proporcionam benefícios à saúde. A presença de antocianinas aliada aos teores de flavonóis e carotenóides totais fazem deste fruto uma fonte promissora de compostos antioxidantes (LIMA, MELO, LIMA, 2002).

 Na indústria brasileira de alimentos, os frutos de pitanga vêem sendo usados na produção de sucos e polpa congelada. A polpa congelada possui um alto potencial econômico, devido a sua alta concentração de antocianinas e carotenóides (LIMA, MELO, LIMA, 2002). Além disso, a investigação da composição centesimal dos frutos e do perfil lipídico nos oferece dados sobre o valor nutricional de frutas, pouco estudadas como a pitanga. O conhecimento de diferentes seleções da fruta pode ser útil para programas de melhoramento genético, a fim de selecionar as que contêm alto valor nutricional ou alto teor de fitoquímicos, pois sabe-se que as frutas, em função de fatores intrínsecos (cultivar, variedade, estádio de maturação) e extrínsecos (condições climáticas e edáficas) apresentam, em termos quantitativos e qualitativos, composição variada de constituintes como fenólicos, por exemplo (MELO et al., 2008).

Devido ao fato de milhões de toneladas de resíduos sólidos agro-alimentares serem produzidos anualmente e isto gerar conseqüências e danos ambientais, cresce a preocupação com o descarte de resíduos (ISCI; DEMINER, 2007). Uma alternativa para a utilização de sementes de frutas, as quais são resíduos do processamento da indústria de polpas e sucos de frutas, é a utilização destas como fontes de antioxidantes. Antioxidantes de fontes residuais podem ser usados como aditivos naturais nos alimentos para prevenir a oxidação lipídica (MOURE et al., 2001).

Considerando o exposto acima, o objetivo deste trabalho foi avaliar as características físico-quimicas de frutos de pitanga (Eugenia uniflora L.) de diferentes colorações (roxa, vermelha e laranja) produzidos no Estado do Rio Grande do Sul e determinar a capacidade antioxidante dos extratos da porção comestível e da semente.


2. REVISÃO DA LITERATURA

 

    2.1 Pitanga (Eugenia uniflora L.)

 

2.1.1. Características gerais

 

A Eugenia uniflora L. (pitangueira) é uma planta largamente distribuída nos países do Sul da América do Sul, incluindo Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Localmente, é conhecida como pitanga ou nangapiri (CONSOLINI, 2001) e pertence à família das mirtáceas, composta por mais de 100 gêneros e 3600 espécies. Esta família está dividida em duas subfamílias: Myrtoideae, apresentando frequentemente frutos em bagas, e incluindo os gêneros Myrtus, Psidium, Pimenta, Eugenia, Pseudocaryophyllus e Syzygium, e Leptospermoideae, com frutos na sua maioria com semente única do tipo noz, à qual pertencem os gêneros Eucalyptus, Leptospermum e Malaleuca (TYLER, 1996). Do ponto de vista econômico, as mirtáceas são muito apreciadas pela população devido à produção de saborosos frutos carnosos do tipo baga. O perfil químico da família Myrtaceae é bem conhecido e caracteriza-se pela presença de taninos, flavonóides, mono e sesquiterpenos, triterpenos e caracteristicamente derivados do floroglucinol (CRUZ E KAPLAN, 2005).

Conforme Bezerra et al. (2000), devido a sua adaptabilidade às mais distintas condições de clima e solo, a pitangueira foi disseminada e é atualmente cultivada nas mais variadas regiões do globo como Américas do Sul e Central, Caribe, Florida, Califórnia, Havaí, Sudeste da Ásia, China, Índia, Sri Lanka, México, Madagascar, África do Sul, Israel e diversos países do Mediterrâneo. Seus frutos apresentam-se em forma de bagas globulosas, que vão da coloração laranja-claro até roxo-escuro (Figura 1), apresentando alto potencial industrial na fabricação de polpas, sorvetes e geléias.

Em média, as frutas maduras, apresentam um rendimento (porção comestível) de 80 e 65% (SANTOS et al., 2002) para os tipos vermelho e roxo, respectivamente, e Bezerra et al. (2000) encontraram valores variando de 74,6 a 88,4%.O diâmetro das frutas é, em geral, em torno de 2,0 cm e, o teor de sólidos solúveis totais (SST) é alto, com valores acima de 12 ºBrix, atingindo até 17 ºBrix em algumas seleções (FRANZOM, 2004).

 No que concerne à produção e comercialização da fruta, não se dispõe de dados oficiais, tanto no Brasil quanto no mundo, no entanto estima-se que o Brasil seja o maior produtor mundial. Os maiores plantios estão localizados no Estado de Pernambuco, onde uma região possui cerca de 300 hectares cultivados (BEZERRA et al., 2000).

O cultivo da pitangueira, principalmente no Estado de Pernambuco, vem crescendo a cada ano em razão da utilização dos frutos para o preparo de polpa, bem como para a elaboração de sorvetes, sucos, refrescos, geléias, licores e vinhos (LEDERMAN et al., 1992; Bezerra et al., 2000). Entende-se por polpa de fruta o produto não-fermentado, não-concentrado, não-diluído, obtido de frutos polposos, por meio de processo tecnológico adequado, com um teor mínimo de sólidos totais, proveniente da parte comestível do fruto. O padrão de identidade e qualidade (PIQ) é específico para cada fruta (EMBRAPA INFORMAÇÃO TECNOLÓGICA, 2003). A polpa congelada de pitanga deve obedecer aos parâmetros da Instrução Normativa, n º1, de 7 de janeiro de 2000, que aprova o Regulamento Técnico Geral para Fixação da Identidade e Qualidade para polpa de fruta (BRASIL, 2000).

 Esta espécie nativa pode entrar como uma nova atividade nas propriedades rurais do Sul do Brasil gerando renda, pois a pitangueira tem sua primeira safra em outubro/novembro, e a segunda em março/maio, podendo esta última se estender até a entrada do inverno. A segunda safra do ciclo da pitangueira ocorre quando já terminou a colheita do pêssego. Nesta época, já terminou a colheita de outras culturas economicamente importantes, logo existe mão-de-obra disponível para colheita de pitanga (FRANZOM, 2004).

 

2.1.2. Benéficos à saúde

 

Estudos realizados demonstraram que a pitangueira pode ser muito útil para prevenir doenças humanas. Neste sentido, estão sendo desenvolvidas para comprovar o uso dos extratos de folhas introduzidos na medicina popular pelos índios Guaranis no século XV (ALONSO, 1998). Tal utilização se deve às propriedades diuréticas, antiinflamatórias e inibidoras da xantina oxidase (efeito anti-gota). Trabalhos recentes têm demonstrado a inibição do trânsito gastrintestinal “in vivo” e ação hipotensora (CONSOLINI et al., 2002). SCHAPOVAL et al. (1994) também destacam a pronunciada ação antiinflamatória dos extratos de folhas.

  Extratos da folha da pitanga têm mostrado pronunciada inibição do aumento da glicose e de triglicerídeos no plasma (MATSUMURA et al., 2000), possui ainda atividade antimicrobiana (HOLETZ et al., 2002) e atividade antifúngica (SOUZA et al., 2002). Extratos da fruta de Eugenia uniflora L. apresentaram capacidade antioxidante maior em comparação a outras frutas cultivadas no Brasil, como o cupuaçu, a jabuticaba e a manga (EINBOND et al., 2004)

 Tanto as folhas como os frutos da pitanga possuem vários constituintes importantes, logo, se o consumo da fruta for estimulado pode proporcionar efeitos benéficos à saúde, assim como com a utilização das folhas (OLIVEIRA, 2006). Seleções de pitanga provenientes do Estado de Pernambuco apresentam consideráveis teores de polifenóis e carotenóides totais, sendo que a seleção roxa no estádio maduro destacou-se por apresentar grandes teores destes fitoquímicos (LIMA, MELO, LIMA, 2002). Devido ao fato de haver variações nos teores dos compostos, dependendo do local de origem das amostras, dependentes de fatores climáticos ou edáficos (MELO et al., 2008) necessita-se de estudos sobre a composição de frutas provenientes do Estado do Rio Grande do Sul.

 

2.2. Composição físico-química de frutas

 

A composição química de frutas depende em grande medida do tipo de fruto e do grau de maturação, contudo os componentes fundamentais quantitativamente das porções comestíveis são açúcares, polissacarídeos e ácidos orgânicos, enquanto os compostos nitrogenados e lipídios são escassos (BELITZ; GROSH, 1988). Além disso, possuem importância por seu valor nutritivo: as vitaminas e minerais, compostos que atribuem cor, sabor e aroma (BELITZ; GROSH, 1988). Na família das mirtáceas especificamente, a qual a pitanga pertence, as frutas, em geral, enquadram-se na classe de frutos carnosos e suculentos (GEMTCHÜJNICOV, 1976). Conforme Franco (2006) a pitanga possui 6,40% de carboidratos, 1,02% de proteínas, 1,90% de lipídios. Já na Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO, 2006) verificamos 10,2% de carboidratos, 0,9% de proteínas, 0,2% de lipídios, 88,3% de umidade e 0,4% de cinzas.

 O amido se encontra presente normalmente somente em frutas não maduras, e diminui sua concentração ao longo da maturação até desaparecer, exceto em bananas e alguns frutos secos, já a fração protéica, em sua maioria, está constituída por enzimas do metabolismo de carboidratos, lipídico, protéico, catalases, peroxidades, fenoloxidases, entre outras e os pigmentos do fruto modificam-se com o amadurecimento, sendo que o licopeno incrementa-se (BELITZ; GROSH, 1988).

A proporção lipídica dos frutos é normalmente muito baixa, da ordem de 0,1-0,5% do peso fresco (BELITZ; GROSH, 1988). Porém, alguns autores encontraram valores maiores de lipídios em cambuci (Campomanesia phaea) (VALILO et al., 2005) e uvaia (Eugenia pyriformis Camb.) (Franco, 1992), ambas da família das mirtáceas com 1,53% e 2,07%, respectivamente. Entre os ácidos graxos predominam os ácidos palmítico, oléico e linoléico nas polpas de frutas como maçã, abacate e banana (BELITZ; GROSH, 1988). Os ácidos graxos poliinsaturados (PUFAS), em especial os ômega 3,  são considerados compostos desejáveis na dieta humana, devido a sua ação de reduzir a incidência de doenças cardiovasculares (LEAF; WEBER, 1988). Os ácidos graxos poliinsaturados de frutas vem sendo pesquisados, sendo que, resíduos do processamento de vinho, com partes variadas de uva (Vitis vinifera) se mostraram com alto teor de ácidos graxos poliinsaturados, em torno de 60-64% do total de ácidos graxos pesquisados (YI et al., 2008).

 

 

2.3.Compostos bioativos

 

  2.3.1. Polifenóis

 

Os polifenóis são compostos largamente distribuídos no reino vegetal, fazendo parte da dieta de forma significativa, influenciando fortemente a qualidade dos frutos, pois contribuem sensorial e nutricionalmente com estes (BAHORUN et al., 2004; SCALZO et al., 2005). A condensação de catecóis a taninos provoca a aparição de um sabor amargo e adstringente, característico de maçãs imaturas (BELITZ; GROSH, 1988). Diversos autores têm estudado a presença de compostos fenólicos em plantas, em razão de sua participação em processos responsáveis pela cor, adstringência e aroma de vários alimentos, da atividade farmacológica e nutricional e da capacidade de inibir a oxidação lipídica e a proliferação de fungos (PELEG et al., 1998). Segundo Reynerston et al. (2008) polifenóis de frutas são importantes constituintes antioxidantes da dieta. As frutas, principais fontes dietéticas de polifenóis, apresentam variações quantitativas e qualitativas na composição desses constituintes em função de fatores intrínsecos (cultivar, variedade, estádio de maturação) e extrínsecos (condições climáticas e edáficas). Por sua vez, a eficácia da ação antioxidante depende da concentração destes fitoquímicos no alimento (MELO et al., 2008). Os polifenóis podem ser classificados em dois grandes grupos: os flavonóides e os não flavonóides.

 

 

   

 

Os flavonóides representam o maior grupo de polifenóis encontrados em alimentos (SCALBERT; WILLIANSON, 2000), sendo os compostos de maior diversificação no reino vegetal, os quais são formados por uma estrutura básica C6-C3-C6. Neste grupo encontram-se as antocianinas, flavonóis, flavonas, auronas, chalconas e isoflavonas dependendo do lugar, número e combinação da molécula (SOARES et al., 2002). Os flavonóides são considerados os mais potentes antioxidantes entre os compostos fenólicos (SHAHID et al., 1992; SOOBRATTEE et al., 2005). A sub-classe de flavonóides chamada de antocianinas é responsável pela coloração vermelha, azul e roxa de muitas frutas e vegetais, flores e outros tecidos de plantas ou produtos. A estrutura química básica das antocianinas é o cátion flavilium (Figura 2).

 

 As antocianinas são particularmente abundantes em berries e outras frutas de coloração vermelha, azul ou roxa e em vinhos tintos (MAZZA, 2007). Algumas fontes de antocianinas são o mirtilo, a pitanga, a framboesa, o morango, a groselha, uvas e vinho tinto. Uma quantia de 100g de berries pode conter 500 mg de antocianinas (MAZZA; MINIATI, 1993).

A coloração da pitanga sugere a presença de pigmentos naturais como os flavonóides. A presença e a quantidade desses pigmentos estão relacionadas com o grau de maturação. Tanto na pitanga roxa como na vermelha a tendência das antocianinas é aumentar o conteúdo durante o processo de maturação, indicando haver uma síntese desses pigmentos na pitanga (SANTOS et al., 2002), como ocorre em outras frutas (FIGUEIREDO et al., 2002). O rápido acúmulo destes pigmentos nos estádios finais de maturação proporciona uma aparência atrativa, característica da fruta madura (SANTOS et al., 2002). O extrato antociânico de pitanga roxa surge como perspectiva para uso como corante natural em produtos alimentícios, acondicionados em embalagem opaca. Alguns fatores como pH, temperatura, ausência de oxigênio e a forma de acondicionamento do derivado da pitanga podem influenciar na estabilidade das antocianinas (LIMA et al., 2005).

Muitos estudos sugerem que flavonóides exibem várias atividades biológicas, incluindo antialérgica, anti-viral, anti-tumoral, ações antiinflamatórias e antioxidantes (HARBONE, 1992). As antocianinas possuem diversos efeitos in vitro que sugerem benefícios potenciais à saúde em geral e redução de doenças coronarianas, em particular (MAZZA, 2007). Os mecanismos primários creditados como responsáveis pela redução no risco de doenças coronarianas incluem a redução de coagulação plaquetária (ELWOOD et al, 1991) e o aumento circulatório da lipoproteína de alta-densidade (HDL; GRAZIANO et al., 1993), além da atividade removedora de radicais livres (antioxidante) (BOORS & SARAN, 1987). O representante das antocianinas encontrado em grande quantidade na pitanga é a delfinidina-3-glicosídio (EINBOND et al., 2004).

 

2.3.3.Carotenóides

 

Os carotenóides pertencem ao grupo químico dos terpenóides ou terpenos (Figura 3) e são encontrados amplamente distribuídos em uma grande variedade de alimentos: muitas frutas, hortaliças, peixes, grãos, flores e raízes. Estes pigmentos são biossintetizados por plantas superiores e por microrganismos, enquanto que os animais os adquirem através da dieta (PORCU, 2004). São atribuídas aos carotenóides atividades de precursores de vitamina A (BAWERNFLEIND, 1981), contribuem com a diminuição do risco de catarata, aumento da eficiência do sistema imunológico, além do bloqueio da degeneração macular e de reduzir a incidência de doenças cardiovasculares (RODRIGUEZ-AMAYA, 1997). A atividade pró-vítaminica A já é uma função comprovada dos carotenóides. Em países em desenvolvimento, onde os produtos de origem animal (fontes de vitamina A pré-formada) não são economicamente acessíveis a toda população, a vitamina A da dieta é proveniente principalmente das pró-vitaminas A (SIMPSON, 1983). A vitamina A exerce inúmeras funções importantes no organismo, como ação protetora na pele e nas mucosas e papel essencial na função da retina e da capacidade funcional dos órgãos de reprodução (FRANCO, 2006). O β-caroteno, α-caroteno e a β-criptoxantina são precursores da vitamina A, sendo que o primeiro apresenta o dobro de atividade do que os demais. A luteína e a zeaxantina são os carotenóides relacionados com a proteção à degeneração macular e catarata (SNODDERLY, 1995).

A atividade antioxidante de carotenóides também vem sendo relatada na literatura. Entre uma série de carotenóides avaliados, o licopeno mostrou-se como um dos mais eficientes, podendo doar elétrons para neutralizar as moléculas de oxigênio singlete e outras moléculas oxidantes, antes que elas prejudiquem as células vivas (RAO et al., 2002). Alguns autores citam o licopeno como o principal carotenóide da pitanga, porém existem variações quanto ao teor desse pigmento, assim como em outros carotenóides, dependendo do local de origem da fruta (CAVALCANTE; RODRIGUEZ-AMAYA, 1992; AZEVEDO-MELEIRO; RODRIGUEZ-AMAYA, 2004). Azevedo-Meleiro & Rodriguez-Amaya (2004) identificaram e quantificaram os principais carotenóides em pitangas do estado de São Paulo, e encontraram o licopeno e a rubixantina como os majoritários desta classe de compostos. Já Cavalcante & Rodriguez-Amaya (1992) encontraram licopeno e γ-caroteno como os principais carotenóides em amostras provenientes do estado de Pernambuco. Efeitos geográficos e de clima tem sido apontados como responsáveis pela variação quantitativa destes compostos em frutas, como por exemplo, a acerola (CAVALCANTE & RODRIGUEZ-AMAYA, 1992) e a uva (CANTOS et al., 2002). Além disso, condições de altas temperaturas e exposição à luz podem ser responsáveis pelo alto teor de carotenóides em camu-camu (Myrciaria dubia) (ZANATTA; MERCADANTE, 2007), podendo ocorrer algo semelhante na pitanga.

 

2.4 Antioxidantes

 

2.4.1. Defesas antioxidantes

 

Atualmente, a atividade antioxidante de compostos bioativos, em geral, tem recebido muita atenção dos pesquisadores. Espécies reativas de oxigênio (ROS) são produzidas naturalmente no organismo de mamíferos, como resultado do metabolismo oxidativo. Contudo, ROS podem causar danos celulares às membranas e DNA, propiciando mutações que podem desencadear a carcinogênese. Além disso, pode ocorrer a oxidação de lipoproteína de baixa densidade (LDL), e, assim, pode ser considerada um dos principais fatores de promoção de doenças coronarianas (RAHMAN; ADCOCK, 2006). A maioria das espécies animais possui um sistema eficiente de proteção, sendo assim capaz de neutralizar os efeitos prejudiciais decorrentes do metabolismo do oxigênio e da oxidação de lipídios. A remoção enzimática dos intermediários reativos, oriundos da redução do oxigênio, ocorre pela ação conjunta das enzimas intracelulares, como a superóxido dismutase (SOD), glutationa peroxidade (GSH-Px) e catalase. A formação de radicais livres in vivo ocorre pela ação de enzimas, durante os processos de transferência de elétrons que ocorrem no metabolismo celular e pela exposição a fatores exógenos, tais como: ozônio, radiações gama e ultravioleta, dieta, uso de medicamentos e tabagismo (CERUTI, 1991). O desequilíbrio entre moléculas oxidantes e antioxidantes, que resulta na indução de danos celulares pelos radicais livres, tem sido chamado de estresse oxidativo (SIES, 1993).

Além das defesas antioxidantes enzimáticas, os antioxidantes não enzimáticos, supridos pela dieta, também participam do sistema de defesa antioxidante do organismo. Esses compostos são definidos como quaisquer substâncias que, quando presentes em baixas concentrações, comparadas as de um agente oxidante, são capazes de prevenir a oxidação do substrato (HALLIWELL; GUTTERIDGE, 2000). Entre os compostos antioxidantes incluem os fenólicos, vitamina E, carotenóides, ácido ascórbico, entre outros. Estes atuam protegendo as células vivas e alimentos in natura bloqueando a ação de radicais livres, formados pela oxidação química e, ou enzimática (lipoxigenase e cicloxigenase), envolvidas na oxidação de ácidos graxos poliinsaturados e, consequentemente, na formação de peróxidos. As dietas contendo substâncias que atuam como antioxidantes (frutas, vegetais, cereais, óleos e grãos) são benéficas para o mecanismo de defesa celular, protegendo desta forma os componentes da célula das alterações oxidativas (ARAÚJO, 2004). Os antioxidantes estão freqüentemente relacionados com a prevenção de doenças degenerativas, tais como doenças cardiovasculares, neurológicas e câncer, além de outras disfunções nas quais haja envolvimento do estresse oxidativo (BOLCK, 1992; DIPLOCK, 1995).

Segundo Bianchi & Antunes (1999), os antioxidantes atuam em diferentes níveis na proteção dos organismos. O primeiro mecanismo de defesa contra os radicais livres é impedir a sua formação, principalmente pela inibição das reações em cadeia com o ferro e o cobre. O segundo, pela interceptação de radicais livres gerados pelo metabolismo celular ou por fontes exógenas, impedindo o ataque sobre os lipídios, os aminoácidos das proteínas, as bases do DNA, evitando a formação de lesões e perda da integridade celular.

 

2.4.2. Avaliação da capacidade antioxidante

 

Um grande número de métodos tem sido desenvolvido como o objetivo de avaliar a capacidade antioxidante em alimentos. Contudo, devido à complexidade da composição de cada tipo de alimento, tendo em vista que antioxidantes não atuam separadamente, a possível interação entre eles pode fazer com que a determinação da capacidade antioxidante individualmente seja menos efetiva do que o estado antioxidante total (PRIOR; CAO, 1999). Logo, são numerosas as metodologias para determinação da capacidade antioxidante e podem estar sujeitas a interferências, sendo necessário o emprego de duas ou mais técnicas, pois nenhum método sozinho poderia refletir exatamente a capacidade antioxidante total de uma amostra (HUAN et al., 2005).

Uma das estratégias mais aplicadas nas medidas in vitro da capacidade antioxidante total de compostos, pertencentes a um alimento, consiste em determinar a atividade antioxidante frente a substâncias cromógenas de natureza radicalar; onde o desaparecimento da cor ocorre de forma proporcional à concentração de antioxidantes (ARENA et al., 2001). O método do DPPH (diphenyl-2-pricrylhydrazyl) (BRAND-WILLIANS et al, 1995) é baseado na redução do radical DPPH na presença de antioxidante doador de hidrogênio. Este método tem sido considerado um dos mais representativos para o emprego em modelos de radicais na avaliação da capacidade de remoção de radicais livres (GENOVESE et al, 2008).

Outro método utilizado para medir a atividade antioxidante é a capacidade de redução do ferro (FRAP, ferric reducing antioxidant power). No FRAP ocorre a redução do íon férrico para íon ferroso, em pH baixo, causando o aparecimento de um complexo colorido ferroso-tripiridiltriazina (ferroso-TPTZ) (BENZIE; STRAIN, 1996). O complexo Fe (II)-TPTZ tem uma coloração azul intensa e pode ser monitorado a 593 nm.

Além disso, são utilizados métodos que fazem uso de modelos de substratos lipídicos. Um deles é o método que utiliza β-caroteno/ácido linoléico, o qual mede a habilidade de um composto em inibir a descoloração do β-caroteno, causada por radicais livres formados durante a peroxidação do ácido linoléico (YANISHILIEVA; MARINOVA, 1995).

A capacidade antioxidante em modelos alimentares também pode ser verificada através de metodologias de determinação da estabilidade oxidativa, como por exemplo, através da determinação de substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (TBARS), determinação de peróxidos e de compostos voláteis. A capacidade antioxidante é representada pelo aumento do tempo de indução ou retardo na velocidade de formação dos produtos da oxidação (SILVA et al., 1999).

 

2.5. Aproveitamento de resíduos de frutas

 

Milhões de toneladas de resíduos sólidos agro-alimentares são produzidos anualmente e são dispostos de várias formas, incluindo incineração e aterramento (ISCI; DEMIRER, 2007). As indústrias que processam água de coco, por exemplo, geram volumes significativos e crescentes da casca deste material, que é enterrado em lixões e aterros, causando problemas, especialmente em grandes centros urbanos (ROSA, 1998). O resíduo industrial, depois de gerado, necessita de destino adequado, pois não pode ser acumulado indefinidamente no local onde foi produzido. A disposição dos resíduos no meio-ambiente por meio de emissões de matéria e de energia lançados na atmosfera, nas águas ou nos solos deve ocorrer após os resíduos sofrerem tratamento adequado, seguindo os padrões estabelecidos na legislação ambiental, para não causarem poluição (AQUARONE, 1990).

Durante o processamento de frutas para obtenção da polpa, são recolhidos materiais não aproveitados na produção industrial, os chamados resíduos, tais como as cascas e centro das frutas, as sementes, os caroços e o bagaço. Para diminuir o impacto ambiental, é importante o aproveitamento alternativo destes materiais. Por exemplo, as frutas refugadas durante a seleção podem ser utilizadas na indústria de vinagres e aguardentes; cascas e miolos de abacaxi, na fabricação de bebidas fermentadas, álcool e vinagre, casca de maracujá, para elaboração de doces em massa e em calda. Outros resíduos que podem ser aproveitados são determinados caroços que podem fornecer óleos vegetais não-voláteis utilizados na indústria de sabão, alimentícia e de cosméticos. Atualmente, nas agroindústrias de polpas de frutas, praticamente todos os resíduos sólidos são conduzidos a uma área destinada para esse fim, onde sofrem uma fermentação natural e, posteriormente, são utilizados como adubo nas plantações de frutas (EMBRAPA INFORMAÇÃO TECNOLÓGICA, 2003).

Compostos antioxidantes estão presentes não somente na porção comestível dos frutos, mas também na semente, desta forma sua ação antioxidante pode motivar o aproveitamento destes resíduos como matérias-primas para a extração de antioxidantes naturais para uso em alimentos. Soong & Barlow (2004) encontraram maior teor de compostos fenólicos na amêndoa da semente de manga do que na polpa da fruta, sugerindo que estes compostos poderiam ser boas fontes de antioxidantes para alimentos.

A valoração de resíduos agroindustriais, através do seu aproveitamento como fonte de nutrientes para a alimentação animal e/ou humana, ou como matéria-prima para a extração de aditivos antioxidantes, depende do conhecimento da composição destes resíduos. No caso da semente da pitanga, não foram encontrados na literatura estudos desta natureza.

 

4. DISCUSSÃO

 

            Visando avaliar as características físico-químicas dos frutos de pitanga cultivados no Rio Grande do Sul e determinar a capacidade antioxidante dos extratos das porções comestíveis de pitanga (Eugenia uniflora L.) roxa, vermelha e laranja, foram avaliados parâmetros de qualidade, composição centesimal, perfil lipídico, teor de fenólicos e de antocianinas dos extratos, capacidade antioxidante por FRAP e DPPH e perfil de carotenóides da polpa vermelha e laranja (Manuscrito 1).

   Em relação aos parâmetros de qualidade ou norma da produção de polpa de pitanga congelada, as três colorações de pitanga ficaram dentro dos limites preconizados pela Legislação Brasileira. Os parâmetros de qualidade indicaram que o estágio de maturação da pitanga é considerado adequado para o processamento, no caso, a produção de polpa congelada. A acidez da pitanga possivelmente seja devido primordialmente aos ácidos orgânicos que estão relacionados com a composição do flavor característico da fruta, assim como outros compostos, pois esta apresenta sabor e aroma ácido adocicado.

Em relação às características físico-químicas, as diferentes colorações de pitanga apresentaram valores de proteína, lipídios e carboidratos mais elevados que o previamente relatado na literatura para pitanga (0,9; 0,2 e 10,2%, respectivamente; TACO, 1996), indicando ser uma boa fonte de carboidratos, onde possivelmente a maioria destes, seja constituída de açúcares, os quais conferem o sabor agradável da fruta e dos produtos dela derivados, como os sucos, característica importante para o consumo destes.  Logo, observamos também que os carboidratos são os principais contribuintes para o valor calórico da pitanga, com menor contribuição da proteína e dos lipídios. A proporção lipídica de frutas, em geral, é muito baixa, da ordem de 0,1-0,5% do peso fresco (BELITZ; GROSH, 1988), sendo que as pitangas analisadas encontram-se dentro desta faixa.

No que se refere ao perfil de ácidos graxos, o ácido graxo predominante em todas as colorações de pitanga foi o palmítico (C16:0), seguido pelo oléico (C18:1n9c) e ácido linoléico (C18:2n6). Não foram encontrados estudos prévios avaliando a composição de ácidos graxos da pitanga ou de outras frutas da família das mirtáceas. Contudo, os ácidos graxos que predominaram nas pitangas foram os mesmos encontrados em frutas como maçã, abacate e banana (BELITZ; GROSH, 1988).

 As frutas apresentaram cerca de 29-32% de ácidos graxos poliinsaturados do total de ácidos graxos pesquisados, aos quais vêm sendo atribuídos beneficios à saúde. As frutas apresentaram em torno de 20-25% de ácidos graxos monoinsaturados do total de ácidos graxos pesquisados. Contudo, deve-se levar em consideração que o teor de lipídios encontrado nas frutas é pequeno, cerca de 0,4%, logo as pitangas não podem ser consideradas como excelentes fontes de ácidos graxos insaturados, apesar de apresentarem uma boa proporção destes em sua composição. Salienta-se que o consumo na forma de produtos processados, por apresentarem-se em maiores quantidades, poderia efetivamente trazer os benefícios à saúde dos ácidos graxos encontrados na pitanga.

 A extração de compostos fenólicos, relatada na literatura, em sua maioria é realizada com metanol, porém o uso de etanol seria mais vantajoso do ponto de vista da utilização deste extrato na alimentação humana, devido á toxicidade do metanol. Entretanto, a utilização da secagem e ressuspensão do extrato em outros solvente também pode ser executada. Em relação ao teor de compostos fenólicos dos extratos metanólicos, a pitanga de coloração roxa obteve maiores valores de compostos fenólicos que as demais colorações, possivelmente devido à presença de antocianinas. As pitangas de coloração vermelha e laranja, embora com teor de compostos fenólicos menor que o da roxa apresentaram teores de compostos maiores que do araçá (Psidium guineensis Sw.) (GENOVESE et al., 2007). Isto indica que as pitangas analisadas são boas fontes de fenólicos, em especial a de coloração roxa. Os extratos metanólicos de pitangas roxas também apresentaram os maiores valores para capacidade antioxidante através dos ensaios de DPPH e FRAP. Nestes, os extratos apresentaram alta correlação positiva com o teor de fenólicos. Logo, percebemos que os compostos fenólicos são responsáveis pela capacidade antioxidante das pitangas analisadas. Contudo, as antocianinas também são compostos fenólicos e podem também estar contribuindo com a atividade antioxidante das amostras.

            Assim como observado para o teor de fenólicos, os extratos etanólicos de pitangas de coloração roxa tiveram maiores teores de antocianinas que as outras amostras (p<0,05). Os resultados demonstram que a pitanga é uma rica fonte de antocianinas quando comparada com outras frutas e a pitanga de polpa roxa, em geral, apresenta a maior capacidade antioxidante quando comparada com amostras de outras colorações. Além disso, o método FRAP apresentou alta correlação positiva com o teor de antocianinas, demonstrando, a contribuição destes compostos para a capacidade antioxidante. A capacidade antioxidante pode ou não ter correlação com o teor de antocianinas, dependendo do ensaio utilizado. A capacidade antioxidante (valor de DPPH e de FRAP) dos extratos etanólicos foi muito maior (5 a 30 vezes mais) que a dos extratos metanólicos. Tal fato pode estar relacionado aos métodos de extração utilizados, já que na extração etanólica lava-se o resíduo exaustivamente com solução extratora até remoção completa do pigmento e na extração metanólica utiliza-se de três extrações sucessivas em banho de ultra-som, porém a extração não é exaustiva. Além disso, a polaridade diferenciada dos solventes faz com que os compostos extraídos sejam diferentes, consequentemente alterando a capacidade antioxidante dos extratos. A diferença de composição entre os dois tipos de extratos era visível inclusive pela diferença de coloração destes: mais clara para o extrato metanólico e mais avermelhada para o extrato etanólico (dados não mostrados).

Os carotenóides nas amostras de pitanga vermelha e laranja no presente estudo foram licopeno, β-criptoxantina and β-caroteno. O teor de licopeno das amostras analisadas foi maior que o de pitanga proveniente do Estado de São Paulo (71.1µg/g) e do Paraná (14 µg/g) (PORCU, 2004). Além disso, as amostras de pitanga tiveram um conteúdo maior de licopeno que frutas consideradas fontes importantes como a melancia (36 µg/g) (NIIZU & RODRIGUEZ-AMAYA, 2003), a goiaba (53 µg/g) (PADULA & RODRIGUEZ-AMAYA, 1986) e o mamão (cv. Formosa, 26 µg/g) (KIMURA et al., 1991). Logo, as amostras de pitanga se apresentam como ricas fontes de licopeno, um composto que também possui ação antioxidante, assim como os fenólicos.

Os teores de β- caroteno e β- criptoxantina foram mais altos na pitanga de coloração laranja do que na vermelha, com diferenças significativas. Além disso, os carotenóides deste estudo tiveram, em geral, teores maiores que os de pitangas provenientes de São Paulo e Paraná (PORCU, 2004). Estes resultados demonstram a influência de fatores geográficos nos teores de carotenóides.

A composição físico-química e a capacidade antioxidante das sementes da pitanga (roxa, vermelha e laranja) foram realizadas, considerando que a caracterização destas é o primeiro passo para determinar o seu uso potencial (Manuscrito 2) e que não existiam estudos prévios neste sentido. Não houveram diferenças significativas em relação ao teor de umidade, cinzas, proteína, fibra total, insolúvel e da fração Nifext entre as amostras. O teor de lipídios de sementes de pitangas de coloração roxa foi menor que nas demais amostras (p<0,05) e em geral todas as amostras apresentaram um conteúdo de lipídios que pode ser considerado baixo. A fibra alimentar, em sua maioria, a insolúvel, foi um componente encontrado em boa proporção na semente de pitanga. Sendo que esta fração de fibra está relacionada a ações fisiológicas como o aumento da velocidade do trânsito intestinal e consequentemente a com a redução da constipação (SUTER, 2005) podendo ser desta forma direcionada para produtos alimentícios, observando a presença ou não de fatores antinutricionais desta semente.

As sementes de pitanga apresentaram uma alta proporção de ácidos graxos insaturados (60-70%), sendo 13-16% de ácidos graxos monoinsaturados e 45-47% de ácidos graxos poliinsaturados. O ácido linoléico (C18:2n6c) foi o preponderante nas sementes de pitanga, da mesma forma que o encontrado por Yi et al (2008) em sementes de “berries”, sendo que as sementes de pitanga roxa e vermelha tiveram maiores teores deste ácido graxo que a laranja (p<0,05), porém menores de linolênico (C18:3n3). O ácido palmitoléico foi encontrado somente nas sementes de pitangas de coloração roxa e vermelha. O único ácido graxo saturado encontrado foi o ácido palmítico, que foi encontrado em alta proporção em sementes de pitanga laranja quando comparado a outras amostras (p<0,05). As sementes de tomate também tiveram altos teores de ácido palmítico, mas seguido do ácido esteárico (CANTARELI et al, 1993), que não foi encontrado nas sementes de pitanga.

As sementes de pitanga laranja tiveram maiores teores de fenólicos que as de pitangas roxa e vermelha. O teor de fenólicos foi muito similar ao encontrado para sementes de jaca (Artocarpus heterophyyllus Lam.) (SOONG; BARLOW, 2004) e cerca de 5-10 vezes maior que para pó do resíduo do processamento do vinho (YI et al., 2008) e que a porção comestível de várias frutas (VINSON et al., 2001). Com isso, as sementes de pitanga podem ser consideradas boas fontes de compostos fenólicos.

As sementes de pitanga laranja obtiveram maior capacidade antioxidante no método DPPH que as sementes de pitangas de coloração roxa (p<0.05), enquanto que as sementes de pitangas vermelhas obtiveram valores intermediários. Em contraste, no método FRAP as sementes de pitangas de coloração roxa tiveram maior capacidade antioxidante do que todas as outras amostras (p<0,05). De acordo com os resultados as sementes de pitanga podem ser consideradas excelentes antioxidantes, pois sua capacidade antioxidante foi cerca de duas vezes maior que a apresentada pela polpa de várias frutas tropicais e 4 a 40 vezes maior que a apresentada pela polpa de pitanga (manuscrito 1). A porção comestível possui rendimento de 65-80% (SANTOS et al, 2002) logo o restante seria composto pela semente ou resíduo do processamento. No manuscrito 1 demonstramos que a porção comestível das amostras analisadas ficou em torno de 75%. Não foram encontrados dados referentes ao volume de produção brasileira de pitanga. No entanto, no Estado de Pernambuco, estima-se que são produzidos em torno de 1300-1700 toneladas por ano de pitanga (SILVA, 2006). Dessa forma, haveria uma grande proporção de semente gerada anualmente, a qual poderia ser destinada à produção de extrato antioxidante. Os custos envolvidos na produção deste estão relacionados à secagem da semente em estufas, utilização de solventes extratores como metanol ou etanol, disponibilidade de banho de ultra-som, bomba à vácuo e evaporador rotatório (caso seja utilizado em pó). Necessita-se de análises mais aprofundadas para verificar se os extratos produzidos em grandes quantidades compensariam os custos, porém ao que tudo indica se trata de uma extração simples que não demanda significativos custos e a quantidade de resíduos obtidos é alta.

Ainda não existem estudos sobre o perfil de polifenóis da semente da pitanga, porém sugere-se que os flavonóides possam ser os compostos responsáveis pela capacidade antioxidante desta, pois alguns autores relataram que os flavonóides são considerados excelentes antioxidantes (SHAHID et al., 1992; SOOBRATTEE et al., 2005).

            A partir dos resultados podemos propor que as porções comestíveis da pitanga poderiam ser usadas para elaboração de polpas congeladas de sucos, pós para sorvetes, sucos naturais, entre outros produtos, pois demonstraram ser uma rica fonte de compostos fitoquímicos, além dos nutrientes normalmente presentes em outras frutas. As sementes, por sua vez, poderiam ser usadas para extração de compostos antioxidantes. O resíduo dessa extração, rico em fibra alimentar, poderia ser investigado para uso na nutrição humana e ou animal.

 


5. CONCLUSÕES

 

  • As diferentes colorações de pitanga provenientes da Embrapa Clima Temperado apresentaram-se dentro dos limites preconizados na Legislação Brasileira como norma para produção de polpa congelada de pitanga, indicando estádio de maturação adequado para o processamento, apresentando carboidratos como nutriente principal, possivelmente açúcares, os quais contribuem com seu aroma e sabor característico, demonstrando assim aptidão para consumo como polpa congelada.
  • A pitanga de coloração roxa obteve maiores teores de compostos fenólicos, antocianinas, bem como maior capacidade antioxidante que as demais colorações de frutas, demonstrando uma excelente qualidade, devido aos vários benefícios à saúde atribuídos a estes compostos, em especial a capacidade antioxidante. Os extratos etanólicos são os mais indicados para obter maior capacidade antioxidante.
  • Os resultados revelaram que as sementes são boas fontes de fibra alimentar, que poderia ser destinada para nutrição humana ou animal.
  • As sementes de pitanga apresentaram excelente capacidade antioxidante, que foi parcialmente correlacionada com seu alto teor de fenólicos. 

Veja os artigos no links : http://www.scielo.br/pdf/cta/v31n1/21.pdf , http://www.scielo.br/pdf/cr/v39n8/a310cr1698.pdf

 

 

 

Rio de Janeiro / RJ
Graduação: Ciências - Licenciatura em Biologia (Centro Universitario Unisuam)
Orientação TCC em Nutrição Conhecimentos Básicos de Nutrição Nutrição - Farmacologia Nutrição - formatação e revisão de Monografia/TCC Nutrição no Curso superior Saúde Pública - Nutrição Tecnologia de Alimentos
Doutora em Ciência de Alimentos e mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos, curso de licenciatura em Biologia em andamento. Possuo experiência de 5 anos em ensino de química, biologia e ciências. Busco adequar o conteúdo de acordo com os conhecimentos prévios do estudante e ofereço pacotes ...
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