Estudo sobre o valor biológico de multimisturas

Pesquisa realizada durante Iniciação Científica na UFSM

Nutrição Segurança Alimentar Biologia Ensino Médio Tecnologia de Alimentos Alimentos
Estudo sobre o valor biológico de multimisturas
Milena B.
em 17 de Maio de 2019

A desnutrição infantil é um problema de dimensões alarmantes em boa parte do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 49% das mortes de crianças, com idade igual ou inferior a cinco anos, nos países em desenvolvimento, estão relacionadas a um estado de subnutrição, em que é maior o risco de uma série de doenças que podem afetar o crescimento e o desenvolvimento cognitivo. Indicadores como peso, altura e idade, entre outros, servem para medir a desnutrição protéico-calórica, porém, existem outras deficiências nutricionais que representam sérios riscos, como são os casos das carências de micronutrientes (ferro e vitamina A) (UNICEF, 2006). A desnutrição, medida pelo retardo do crescimento infantil, alcança cerca de 10% das crianças brasileiras e se distribui no território nacional com intensas diferenças regionais (MONTEIRO, 2003).

Profissionais da saúde e de áreas correlatas buscam alternativas alimentares capazes de melhorar o conteúdo de proteínas e micronutrientes da dieta habitualmente consumida, de forma a melhorar o estado nutricional da população. Nesse sentido, desde 1985 a multimistura vem sendo difundida pela Pastoral da Criança e ganhando evidência entre as ações de combate à desnutrição infantil. A multimistura, que faz parte da proposta de alimentação alternativa, é preparada a partir de ingredientes de baixo custo e fácil acesso, geralmente farinhas e farelos de cereais, sementes, pós de folhas verdes e de casca de ovos (OLIVEIRA et al., 2006). Os principais argumentos apresentados pelos defensores de sua adoção como medida de prevenção e tratamento da desnutrição são a disponibilidade de seus ingredientes, a não interferência nos hábitos alimentares da população, o baixo custo, a possibilidade de produção caseira e a acessibilidade de praticamente toda a população, em especial a de baixa renda (FERREIRA et al., 2005).

Porém, o uso deste suplemento no combate a desnutrição é questionado pela falta de comprovação científica de seus reais efeitos e por haver uma preocupação com a possível interferência na biodisponiblidade de nutrientes causada pela interação entre estes, a possível presença de antinutrientes e toxinas, a ausência de controle sanitário e inadequação de subprodutos para uso humano (FARFAN, 1998; FERREIRA et al., 2005). A realização de ensaios biológicos, utilizando ratos como modelo experimental (BOAVENTURA et al., 2000; MADRUGA et al., 2004), e estudos com crianças em risco nutricional (OLIVEIRA et al., 2006) não indicaram a multimistura como um suplemento adequado, na recuperação ou na manutenção do estado nutricional. No entanto, estes ensaios têm avaliado a multimistura como alternativa isolada de combate à desnutrição, não considerando a realidade da dieta das populações assistidas e as diferentes formulações de multimisturas que têm sido difundidas.

Nesse contexto, o presente trabalho teve como objetivo avaliar a efetividade da complementação com diferentes formulações de multimisturas em uma dieta correspondente com a realidade das populações assistidas pela Pastoral da Criança na região de Santa Maria, Rio Grande do Sul, em ensaio biológico com ratos em fase de crescimento.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os animais do ensaio foram 35 ratos machos da linhagem Wistar (sete animais por tratamento), provenientes do Biotério Central da Universidade Federal de Santa Maria, desmamados aos 21 dias de idade, alojados em gaiolas metabólicas individuais e com livre acesso à ração e à água. Os animais foram mantidos em temperatura média de 21±2°C e luminosidade controlada (12 horas de luz/escuro). O período de adaptação às rações foi de cinco dias e os ratos apresentavam peso médio de 83,77g±9,46 no início do período experimental, com duração de 29 dias. Durante o experimento, realizou-se diariamente o controle do consumo por meio de pesagens da ração oferecida e das sobras, enquanto o controle do peso corporal foi realizado a cada três dias, visando determinar o Coeficiente de Eficiência Alimentar. As fezes foram coletadas diariamente no intuito de determinar a matéria seca e a digestibilidade aparente da proteína. No último dia, os animais foram pesados, anestesiados e sacrificados por punção cardíaca.

Foram formuladas cinco rações que compuseram os tratamentos (Tabela 1).

 Como controle, foram observadas as recomendações do American Institute of Nutrition para obtenção de uma dieta ideal para o bom desenvolvimento e crescimento dos animais (REEVES et al., 1993). Estabeleceu-se a dieta da população (PP) a partir de um inquérito recordatório realizado em oito comunidades carentes com uma população estimada em 20-35 crianças/comunidade, onde foram coletados dados referentes às refeições diárias, ao modo de preparo e à quantidade consumida em cada uma dessas refeições. Nas outras três rações, diferentes formulações de multimistura complementaram em 5% a dieta da população. As multimisturas foram previamente escolhidas por representarem diferentes grupos em termos de composição química, de acordo com prévia análise multivariada de agrupamento, sendo o teor de fibra alimentar adotado como parâmetro principal nesta seleção (Tabela 2).

Estas multimisturas foram elaboradas de acordo com as recomendações da Pastoral da Criança (2000) e com matérias-primas oriundas da Região Central do Estado do Rio Grande do Sul (Tabela 3).

 

 

 

As análises de composição química foram realizadas conforme métodos descritos pela AOAC (2000). Foram determinadas a umidade e as substâncias voláteis por secagem das amostras em estufa a 105°C até peso constante; o resíduo mineral fixo (fração cinzas) foi obtido a partir da queima em mufla a 550°C por cinco horas; os lipídios foram determinados por extração com éter de petróleo em sistema tipo Soxhlet; a proteína bruta foi determinada por quantificação do nitrogênio total após digestão ácida, destilação pelo método Kjeldahl e titulação, adotando 6,25 como fator de conversão de nitrogênio para proteína bruta; os teores de fibra alimentar foram determinados a partir do método enzimático 991.43 da AOAC. Os valores de carboidratos foram estimados por diferença entre 100 menos somatórios dos demais parâmetros analisados. O tecido adiposo epididimal e o fígado foram pesados em balança analítica, sendo que o peso relativo foi determinado e expresso em g por 100g de peso corporal. A análise de glicemia foi realizada em aparelho Accu-Chek Active® (Roche) com amostras de sangue coletadas por punção cardíaca. Os resultados foram submetidos à análise de variância e as médias foram comparadas pelo teste de Duncan, estabelecendo um nível de significância de 5%. O programa utilizado nas análises estatísticas foi o Statistical Package for Social Sciences (SPSS) 8.0 para Windows.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Atualmente, vigora a Resolução RDC n°263 da ANVISA (BRASIL, 2005) para produtos de cereais, amidos, farinhas e farelos, em que a multimistura está incluída. Esta resolução estabelece apenas um teor máximo de umidade e substâncias voláteis para a multimistura, sendo de 15%. Portanto, de acordo com os resultados de umidade e substâncias voláteis obtidos (Tabela 2), pode-se afirmar que as multimisturas elaboradas para o ensaio estão de acordo com o parâmetro estabelecido na legislação.

Embora as multimisturas tenham sido selecionadas a partir de seus distintos teores em fibras, os resultados também demonstram diferenças marcantes em outros nutrientes, o que pode influenciar sobremaneira o seu efeito biológico. Os valores de fibra total e suas respectivas frações, insolúvel e solúvel, foram diretamente correlacionados entre si (r=0,98) e com os teores de matéria mineral e lipídios (r=0,94), sendo inversamente correlacionados com os teores de carboidratos (r=-0,87). As explicações para estes resultados estão na natureza e na proporção dos ingredientes das respectivas formulações, em especial farelos, que, além de serem ricos em fibras, também aportam significativa quantidade de minerais. O uso de farelos de cereais também pode causar acréscimos significativos no teor de lipídios, uma vez que este constituinte está presente nas camadas mais externas dos grãos e que são removidas durante o beneficiamento, dando origem ao farelo integral. Adicionalmente, outros estudos também têm verificado correlação direta dos teores de fibra com os teores de minerais e vitaminas (ALVES et al., 2004; VIZEU et al., 2005).

Quanto ao teor protéico, este foi aproximadamente 65% superior na MMB em relação às demais multimisturas, o que pode ser atribuído especialmente ao germe de trigo e à fibra de soja utilizados. Os subprodutos das fábricas de farinha de trigo, os quais incluem várias formas de fibras, o gérmen e os resíduos da etapa de “limpeza” (cleaning house ou screen room), representam cerca de 25% do grão e são considerados economicamente significantes. Tradicionalmente, as camadas externas do grão têm sido destinadas para a alimentação animal, pelo elevado teor de fibras de sabor amargo e pela susceptibilidade à rancidez. No entanto, representam um total de 20% do trigo, dos quais 16 a 17% são proteínas. De maneira geral, o germe de trigo apresenta maior teor protéico do que os demais produtos do trigo, como o grão integral moído, os farelos e as farinhas deste cereal. Aliado a isso, o perfil aminoacídico do germe de trigo é mais interessante do que dos demais produtos do trigo, tanto em aminoácidos essenciais como em aminoácidos não-essenciais (BORGES et al., 2005).

Os animais do tratamento controle apresentaram maior consumo de ração e ganho de peso sem diferir estatisticamente daqueles que receberam o tratamento PP + MMB (Tabela 4). Comportamento semelhante foi observado quanto aos valores de Coeficiente de Eficácia Alimentar (CEA), em que a dieta PP + MMB teve a mesma eficiência do tratamento controle.

Analisando a formulação em ingredientes e a composição química das multimisturas utilizadas, obsercou-se que a MMB, além de fornecer maior aporte protéico, também alia nutrientes provenientes de leguminosas e gramíneas, pressupondo-se que seja uma dieta mais bem equilibrada em termos de aminoácidos e micronutrientes, o que explicaria semelhante ganho de peso e CEA entre os ratos submetidos a este tratamento. O menor consumo dos animais submetidos aos tratamentos PP, PP + MMA e PP + MMC pode estar relacionado ao desequilíbrio nutricional dessas formulações, o que estaria restringindo o consumo. Além disso, o menor ganho de peso dos ratos do tratamento PP + MMA pode estar relacionado à alta concentração de farelo de arroz, o qual provavelmente tenha atuado como fator antinutricional, pela presença de ácido fítico. O ácido fítico interfere na absorção de microelementos essenciais (Ca, Mg, Fe e Zn) pela formação de complexos pouco solúveis (ARAÚJO, 2004). Já no caso do tratamento PP + MMC, foram verificadas altas concentrações de ingredientes energéticos (Tabela 2), sendo que estes, geralmente, são pobres em micronutrientes essenciais, fator que poderia ter limitado seu uso e sua eficiência como suplemento alimentar.

As fezes provenientes dos ratos do tratamento controle apresentaram menor umidade que as demais (Tabela 5). Este fato pode ser explicado pela maior cristalinidade e pelo menor espaço intracelular da fibra isolada adicionada à ração controle, conferindo-lhe menor capacidade de hidratação quando comparada às fontes de fibra existentes nas demais rações, bastante heterogêneas e com características físico-químicas distintas. Tais características influenciam a capacidade de hidratação da digesta, também podem causar efeitos benéficos no que diz respeito ao fluxo intestinal, à manutenção da saúde epitelial e ao equilíbrio microbiológico da flora intestinal (DANTAS, 1989; MORAIS et al., 1999).

A digestibilidade aparente da proteína foi maior para o tratamento controle, o que era esperado, uma vez que este tratamento foi composto por fonte protéica de alto valor biológico (caseína), além de possuir melhor equilíbrio nutricional. A ração PP + MMA resultou no menor valor de digestibilidade de proteína, o que pode ser atribuído ao seu alto teor em farelo de arroz e, conseqüentemente, fibra alimentar, que pode ter interferido negativamente na digestão e na absorção de nutrientes (SILVA & SILVA, 1999). Os tratamentos PP, PP + MMB e PP + MMC não diferiram significativamente para o parâmetro digestibilidade aparente da proteína (Tabela 5), demonstrando que estas formulações não foram suficientemente capazes de aumentar a retenção protéica pelo organismo, provavelmente porque as fontes deste nutriente tiveram valor biológico inferior e/ou maior influência antinutricional.

Em relação aos valores de glicemia, estes se mostraram maiores para o controle pelo fato de a dieta possuir mais carboidratos digestíveis disponíveis. O acréscimo de multimistura apresentou resultados que, apesar de não terem sido significativamente diferentes ao do tratamento PP, evidenciam aumento da glicemia, provavelmente devido ao fornecimento de nutrientes que atuam de forma positiva na digestão e na absorção de carboidratos pelo epitélio intestinal. Quanto ao peso do fígado, não houve diferenças significativas entre os tratamentos, indicando que nenhum dos tratamentos ocasionou sobrecarga hepática. Quanto ao peso do epidídimo, o qual estima uma idéia da quantidade de gordura armazenada (PAWLAK et al., 2001), a ração controle apresentou maior valor. As demais rações não diferiram significativamente.

Diversos estudos conduzidos no intuito de verificar os efeitos da suplementação com multimistura no crescimento de animais demonstraram não haver diferença significativa na resposta biológica com dietas suplementadas ou não de formulações tradicionais. Deve-se considerar, no entanto, que muitos destes ensaios não utilizaram dietas que refletissem as usualmente consumidas pelas populações que normalmente fazem uso deste suplemento alimentar (BOAVENTURA et al., 2000; FERREIRA et al., 2005; MADRUGA et al., 2004; SANTOS et al., 2004).

Além disso, são poucos os estudos que consideraram a variabilidade no tipo e nas proporções de ingredientes utilizados nas multimisturas como fatores determinantes de sua eficácia nutricional; sendo este resultado claramente evidenciado no presente trabalho, com a eficiência da complementação com a MMB, em detrimento às demais testadas. O trabalho realizado por GLÓRIA et al. (2004) ressalta a necessidade de estabelecer novas propostas para formulações de multimisturas. Com a substituição de ingredientes como o farelo de arroz, farinha de trigo, pó de folha de mandioca e de casca de ovos por fubá QPM BR473, farinha de soja, aveia e farinha de banana, obteve uma formulação com alto valor nutritivo em qualidade protéica e equilibrada em termos de minerais e vitaminas; a qual, em testes preliminares, demonstrou até efeitos mais pronunciados do que a dieta padrão caseína quanto à ingestão alimentar, ao ganho de peso e à eficiência alimentar.

A análise conjunta dos resultados obtidos neste ensaio biológico permitiu verificar que as respostas fisiológicas e metabólicas relacionadas à eficiência da multimistura como complemento alimentar estão intimamente ligadas aos ingredientes e às proporções usadas nas diferentes formulações.

 

CONCLUSÃO

Os resultados deste trabalho permitem concluir que o uso da multimistura como complemento alimentar foi eficiente como fonte alternativa de nutrientes no combate à desnutrição quando foram seguidas formulações compostas de ingredientes que realmente atuaram como fonte de macro e micronutrientes, essenciais ao bom crescimento e ao desenvolvimento do organismo.

 

Link do artigo completo: Cienc. Rural vol.38 no.8 Santa Maria Nov. 2008 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84782008000800036 

 

Rio de Janeiro / RJ
Graduação: Ciências - Licenciatura em Biologia (Centro Universitario Unisuam)
Orientação TCC em Nutrição Conhecimentos Básicos de Nutrição Nutrição - Farmacologia Nutrição - formatação e revisão de Monografia/TCC Nutrição no Curso superior Saúde Pública - Nutrição Tecnologia de Alimentos
Doutora em Ciência de Alimentos e mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos, curso de licenciatura em Biologia em andamento. Possuo experiência de 5 anos em ensino de química, biologia e ciências. Busco adequar o conteúdo de acordo com os conhecimentos prévios do estudante e ofereço pacotes ...
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